Cine Sul resgata filme desaparecido nos anos 70

O próximo Cine Sul, que ocorre no Rio (de 8 a 20 de junho) e em Brasília (de 29 de junho a 10 de julho) vai exibir o filme Manhã Cinzenta, de Olney São Paulo, que estava escondido há 25 anos. Seu enredo mistura ficção e realidade, e gira em torno das passeatas contra a ditadura militar ocorridas em 1968, às vésperas do Ato Institucional n.º 5, mas a história de sua produção tem lances mais fantásticos que um romance histórico. "Olney, pai dos atores Irving e Ilya São Paulo, foi o único cineasta brasileiro preso e condenado por ter feito um filme", conta a coordenadora do Cine Sul, Ângela José. "Outros sofreram perseguição por sua militância, não por sua obra. E Olney São Paulo era um humanista, que nunca se ligou a partidos ou grupos políticos."A história, contada no livro Olney São Paulo e a Peleja do Cinema Sertanejo, resumo da tese de mestrado de Ângela na Universidade de São Paulo, começa em Feira de Santana, no interior da Bahia, nos anos 50. Olney era funcionário do Banco do Brasil e escrevia sobre cinema nos jornais locais. Logo se enturmou no Cinema Novo, com Glauber Rocha, Orlando Senna (atual secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura) e Nelson Pereira dos Santos, para quem fez continuidade em Mandacaru Vermelho. Em 1963, fez seu primeiro longa, O Grito da Terra, com Helena Ignez, e já sofreu censura. Uma frase da atriz profetizando a chegada de um cavaleiro da esperança foi entendida como referência a Luiz Carlos Prestes, o líder comunista, e deveria ser cortada. Ele se recusou, mas o filme não pôde ser exibido fora do País, embora tenha circulado bastante no Nordeste e repercutido na imprensa nacional.Manhã Cinzenta foi seu longa seguinte, feito no Rio, para onde ele se mudara. Era a história de um casal de namorados que, preso numa passeata, era condenado a fuzilamento. No julgamento, o texto era o dos Autos da Devassa, que condenou os inconfidentes ao degredo e Tiradentes à morte. "Não era um filme político, pois tratava de dois jovens que queriam mudar o mundo, mas ele teve problemas desde o início das filmagens, feitas nas passeatas reais da época, registradas por José Carlos Avellar (hoje consultor de cinema da Petrobrás), diretor de fotografia", conta Ângela. "Houve uma cena em que o ator Sonélio Costa foi preso, porque estava discursando numa manifestação e a polícia o confundiu com um militante político."Em 1969, Olney inscreveu o filme em festivais e estava em Viña del Mar, num deles, quando dois estudantes seqüestraram um avião até Cuba, onde passaram o filme que haviam levado na bagagem, à revelia do diretor. A Polícia Federal não levou em conta esse detalhe fundamental, prendeu Olney durante 12 dias e obrigou-o a entregar os negativos e as cópias do filme. Depois disso, Olney teve dificuldade para voltar a filmar. "Só fez mais um longa, O Forte, baseado num romance de Adonias Filho, uma das pessoas que mais se empenharam em sua libertação", lembra Ângela. "Ele fez muitos curtas documentais e, de vez em quando, exibia Manhã Cinzenta numa cópia precária em 16 milímetros. Conheci o filme em 1976, numa dessas sessões clandestinas." Conheceu e fez do diretor tema de sua dissertação de mestrado na Universidade de São Paulo (USP), da qual foi extraída a biografia. "Na pesquisa, o Cosme Alves Neto, então diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio, me contou que havia escondido uma cópia boa, em 35 milímetros, com título diferente, mas não se lembrava qual", diz a pesquisadora. "Só recentemente, a cópia foi encontrada e vamos exibi-la na mostra dos filmes censurados dentro do Cine Sul, pois é o registro de um tempo importante."

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