Cine Pernambuco anuncia hoje seu vencedor

O Festival do Recife, agora Cine PE - Festival do Audiovisual, tradicionalmente premia com vários troféus um só filme, como aconteceu com Bicho de Sete Cabeças e Narradores de Javé, que ganharam um enxurrada de prêmios. Se continuar assim, o vencedor deste ano, que será anunciado hoje à noite, sairá provavelmente de três dos seis filmes que integraram a competição pelo Calunga. Os três são: O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein, Contra Todos, de Roberto Moreira, e Como Fazer Um Filme de Amor, de José Roberto Torero, que poderá levar o prêmio de público, porque foi o mais aplaudido, durante e após a projeção.O melhor de todos é o primeiro, delicado, sensível, mas é uma covardia supor que Fernanda Montenegro e Raul Cortez possam receber os Calungas de melhor atriz e ator. Ambos são tão superiores aos demais candidatos que seria uma facilidade do júri apontá-los na premiação. Por outro lado, se o júri não o fizer com certeza receberá críticas. "Que júri é este que não premiou a grande Fernanda, o grande Cortez?" Contra Todos, como Narradores de Javé, que ganhou quase todos os prêmios do ano passado, é sensacional como proposta de método para fazer cinema barato e criativo no Brasil, mas como, para o público, o que chega é o produto final, fica mais difícil apoiar incondicionalmente um filme bem-intencionado, mas que oferece uma visão discutível da periferia, o que poderá ser debatido no lançamento. Um equívoco de outra ordem compromete Mensageiras da Luz - Parteiras da Amazônia, único documentário da competição. Evaldo Mocarzel segue a trilha de Eduardo Coutinho, mas, ao contrário de seu mestre, com freqüência intimida-se diante de seus entrevistados, sejam os moradores de rua de À Margem da Imagem ou as parteiras de Mensageiras da Luz. O filme possui belos momentos, como quando as parteiras são confrontadas com suas imagens no monitor de TV e fazem viagens inesperadas na memória, mas a decisão do diretor de concluir com a cesária da própria mulher o filme que, em princípio, defenderia o parto natural, é de dar nó em qualquer cabeça. Mocarzel usa essas imagens para construir o que chama de ´cena vertoviana´, assumindo lições do russo Dziga-Vertov para mostrar o parto do cinema, ou como nasce um filme. O natural vira celebração do artifício, o que vai contra as idéias do diretor. É tolice dizer que o problema de Mensageiras da Luz é a excessiva intrusão do autor do documentário naquilo que filma. Se fosse, teríamos de descartar todo Michael Moore e boa parte da produção atual do formato, conforme deixou claro o É Tudo Verdade do ano passado.Enfim, a decisão do júri integrado, entre outros, pelos diretores Vladimir Carvalho e Rosemberg Cariry e pela atriz Virginia Cavendish, sai hoje, devendo ser seguida pela exibição de Garotas do ABC, de Carlos Reichenbach, homenageado no domingo. O ator José Dumont, premiado em 2003 por Narradores de Javé, também será homenageado hoje. Na premiação de curtas em 35 mm, dificilmente Bala Perdida, de Victor Lopes, ficará de fora. Só se o júri for doido, o que não parece o caso. Além de forte, o curta é muito bem realizado. Tomara que Lopes seja um adepto do formato, mas se ele estiver fazendo curtas portfólio, para mostrar sua habilitação para o longa, Bala Perdida é a prova de que está pronto para a travessia.

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