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Loiro Cunha/Divulgação
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'Cine Marrocos' une ficção e realidade para contar histórias de ocupação em SP

Diretor Roberto Calil usa clássicos do cinema para mostrar relatos de pessoas reais em documentário

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

07 de junho de 2021 | 05h00

Jordana Berg tem sido montadora dos documentários de Ricardo Calil. Era a montadora de Eduardo Coutinho. Identificou em Cine Marrocos certas similaridades com o mestre – o jogo de cena, a concentração num só espaço de Edifício Master, etc. Os críticos também lançam pontes entre Cine Marrocos e Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, sobre a ocupação do prédio do antigo hotel no Centro de São Paulo. Calil reflete: “O diálogo possível entre os dois filmes se faz porque cada um deles incorpora o melhor do gênero do outro, a ficção de Hotel Cambridge e o documentário de Cine Marrocos”.

Longa vencedor do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade de 2019, o filme está em cartaz em salas de Rio, São Paulo e algumas capitais. Calil tem trabalhado com parcerias, notadamente com Renato Terra (Uma Noite em 67, Narciso em Férias), mas agora também com Armando Antenore (Os Arrependidos). Dessa vez, assina sozinho. Ele conta a gênese – “Quando soube da ocupação do antigo Cine Marrocos, que estava inativo, em 2015, fui visitar o local. Descobri um material humano muito rico, pessoas de diferentes origens e procedências. Tenho alma de pesquisador, e a história do próprio cinema me fez sonhar. Quando foi inaugurado, em 1951, o Marrocos era anunciado como o cinema mais luxuoso da América Latina. Em 1954, sediou o Festival Internacional comemorativo do quarto centenário de São Paulo. Por aquelas escadarias, passaram grandes nomes do cinema mundial. Juntando as duas pontas, o filme começou a tomar forma na minha cabeça”. 

A grande sacada de Calil – o lance ‘coutiniano’, à Jogo de Cena, foi promover uma oficina de interpretação com os ocupantes, recriando com eles cenas de clássicos de Billy Wilder (Crepúsculo dos Deuses), Ingmar Bergman (Noites de Circo), Jean Renoir (A Grande Ilusão) e Luigi Comencini (Pão, Amor e Fantasia). Na verdade, havia mais filmes e oficinas, mas foram esses que ficaram. O Bergman é sobre os integrantes, meio saltimbancos, de um circo itinerante. O Wilder sobre a tentativa de retorno de uma grande atriz do passado. O Renoir sobre a solidariedade de classe de um oficial francês e outro alemão, do qual o primeiro se sente mais próximo do que de seu subordinado, também francês. Essas histórias de alguma forma se unem às dos próprios moradores da ocupação.

Alguns revelam grande potencial dramático para atuar. Volúsia Gama recria a famosa cena final de Sunset Boulevard. O crepúsculo da deusa. No filme, Norma Desmond/Gloria Swanson diz a Mr. (Cecil B.) De Mille que está pronta para o close. Volúsia repete os trejeitos de Norma para o diretor Calil, que a espera ao pé da escadaria. “Gostaria muito de dizer que eles prosseguiram com carreiras de interpretação, mas desde o início a preocupação foi não criar expectativas nessas pessoas. Elas tiveram a melhor vitrine do mundo, a tela do cinema, mas não lhes prometemos nada. Só Fagner Oliveira, que cria a cena do Bergman, tem tido algumas ofertas.”

São histórias de vida muito diversas. O jornalista africano perseguido em seu país, o filho do corretor de imóveis que terminou debaixo da ponte, a filha criada pelo pai numa redoma e que perdeu o rumo depois que ele morreu, a lutadora que sonha com uma carreira no octógono em Vegas, etc. Todas essas histórias se entrelaçam com as dos filmes, e naquele ambiente decadente das salas que já foram luxuosas, produzindo um efeito nostálgico no espectador. Mas o X da questão no filme termina sendo outro. 

“Quando cheguei à ocupação, fui informado de que poderia haver uma reintegração de posse em três meses. Tudo teve de ser feito rapidamente. Consegui um pouco de dinheiro do Canal Brasil, que deve apresentar o filme na sequência das salas, e coloquei outro tanto do meu bolso. O filme foi feito com poucos recursos e muita garra. Sabia que a dificuldade estaria na pós-produção. Pagar pelos direitos dos filmes selecionados saiu caro.” Calil só voltou à locação tempos depois, para filmar a reintegração. Sua câmera documenta as pessoas de volta à rua, não faltando nem o que reverencia Adoniran Barbosa, em Saudosa Maloca: “Peguemos tudo as nossas coisas, e fumos pro meio da rua, apreciar a demolição”. 

Nesse intervalo, surgiram as acusações – o líder da ocupação cobrava aluguel, era ligado a um partido político e escondia armas e drogas do crime. “Gostaria de ter feito uma narrativa exemplar, edificadora, mas a história dessa ocupação foi atípica, atropelada pela realidade.” O repórter destaca a qualidade do filme – é o melhor de Calil, o que não desmerece em nada suas parcerias anteriores –, mas tem de admitir o sentimento de frustração com o desfecho. Mais uma lembrança de Coutinho? Nos anos 1960, ele interrompeu a ficção de Cabra Marcado para Morrer e só retomou o filme como documentário – nas bordas – nos 80. O que poderia ser uma narrativa exemplar de esquerda ganha amplidão, complexidade. Um filme de processo, segundo o diretor. Não havia mais como rodar essa outra história. Ela foi construída na montagem, com Jordana. O Brasil, que já esteve no Hotel Cambridge, volta no Cine Marrocos. A arte, a política, a metalinguagem. Calil teve de se reinventar no meio do caminho. Conseguiu fazê-lo, e com brilho. 

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