Cine Ceará premia "Lost Zweig" de Sylvio Back

Ao contrário do ano passado, quando o júri oficial do Cine Ceará atribuiu todos os prêmios a um só filme (Amarelo Manga), este ano houve intenção explícita de procurar o melhor em cada um dos cinco concorrentes.Todos os longas receberam pelo menos um prêmio, no festival que homenageou o cineasta Walter Salles. Mas o grande vencedor foi Lost Zweig, de Sylvio Back. O drama histórico, que acompanha a última semana de vida do casal de judeus-austríacos Lotte e Stefan Zweig -- eles recorreram ao suicídio em Petrópolis, no Carnaval de 1942 -- foi eleito o melhor filme, e Sylvio Back o melhor diretor. Ganhou ainda os prêmios de melhor fotografia (Antonio Luiz Mendes) e trilha sonora (do maestro Paulo Moura).O segundo longa mais premiado do festival foi O Quinze, produção carioca-cearense, baseada no romance homônimo de Rachel de Queiroz. Seus protagonistas - os atores paraibanos Jurandir Oliveira (também diretor do filme) e Sóia Lira - foram eleitos os melhores intérpretes. O filme recebeu, ainda, o prêmio da Crítica e o APCNN (Associação dos Produtores e Cineastas do Norte e Nordeste). Ninguém esperava muito da versão cinematográfica de O Quinze. Afinal, antes dela, três diretores tentaram e não conseguiram levar às telas o primeiro romance de Rachel de Queiroz (ela tinha apenas 19 anos quando o escreveu). A produtora cearense, Letícia Menescal, afilhada da escritora, conseguiu captar R$ 1,2 milhão e fazer, como diz o ditado, de um limão uma limonada. Ou seja, com baixo orçamento, realizar filme histórico (a trama se desenrola na Seca de 1915, uma das mais terríveis da história nordestina). O filme tem problemas, mas convence por sua garra e força documental. Jurandir Oliveira, diretor e principal ator de O Quinze, forma com Sóia Lira um convincente casal de retirantes. Ele é Chico Bento, ela, Cordolina. Os dois fogem da seca na companhia de quatro filhos pequenos e de um cachorro. Vão parar num campo de concentracão de flagelados nos arredores de Fortaleza e lá reencontrão a professora Conceição (Karina Barum), moça letrada que tem muito da biografia de Rachel de Queiroz. E que ama o primo, Vicente (Juan Alba). Ele também se interessa por ela, mas a seca o leva a priorizar a busca de alimento para o gado e meios capazes de debelar a praga de carrapatos que assola as fazendas da região de Quixadá.O casal de retirantes convence mais que o casal Conceição-Vicente. Jurandir e Sóia Lira têm o biotipo e a pele tostada de sol dos sertanejos nordestinos. Ambos conheceram a pobreza no meio familiar e na vizinhanca que circundou suas infâncias e juventudes.Sóia carrega história de vida semelhante à de Marcélia Cartaxo (Urso de Prata em Berlim, com A Hora da Estrela). As duas começaram a trabalhar em teatro em Cajazeiras, na Paraíba. Com o Grupo Terra, fizeram Beiço de Estrada, grande sucesso do Projeto Mambembão. Foi no elenco desta peça que Suzana Amaral descobriu Marcelia. Sóia assistiu, discretamente, ao triunfo da colega no Festival de Brasília-85 e em Berlim-86. Seguiu fazendo teatro e agregou-se ao Grupo Piolim, dirigido por Luiz Carlos Vasconcelos. Uma das montagens do grupo, Vau da Sarapalha, de Guimarães Rosa, causou grande impacto no meio teatral e teve, entre seus espectadores, o cineasta Walter Salles.Ao realizar Central do Brasil, Walter escolheu Sóia Lira para interpretar a mãe de Josué (Vinícius de Oliveira). Órfão (a personagem de Sóia morre atropelada numa rua do Rio), o menino inicia viagem Brasil a dentro na companhia de Dora, ´escrevinhadora´ de cartas interpretada por Fernanda Montenegro.Sóia lembra que entrou "em pânico" quando chegou ao set e deparou-se com Fernanda Montenegro. "Comecei a chorar e disse a Walter que não ia dar conta do meu papel". O cineasta fez de tudo para acalmá-la. "Lembrei a ela, que nossos testes de seleção haviam escolhido a magnífica atriz que conheci no elenco de Vau da Sarapalha e que tinha certeza que ela faria um belo trabalho. E foi o que ela fez".Hoje, Sóia vive em João Pessoa. Tira seu sustento de uma modesta lanchonete. "Como não dá para viver de teatro e cinema (além de Central do Brasil, atuou em Árvore da Marcação e Árvore da Miséria), eu vivo no balcão da minha casa de lanches. Coloco um pano na cabeça, faço e vendo sanduiches, salgados e sucos. E assim, vou levando".O prêmio de melhor atriz no Cine Ceará vem em boa hora. Marcélia Cartaxo, que acaba de regressar ao seu estado natal (depois de duas décadas morando no Rio) foi a primeira a abraçar a amiga.O melhor ator - A história de Jurandir Oliveira também é muito parecida com a de Soia Lira. Paraibano, filho de pai pedreiro, ele aprendeu desde cedo o ofício. Migrou para o sul e continuou trabalhando como pedreiro. Um dia, encontrou o ator Nelson Xavier, que o convidou para atuar no filme A Queda, cujo principal cenário eram as obras do metrô carioca.Jurandir passou, dali em diante, a exercitar-se nos ofícios de ator e de pedreiro. Sua habilidade para a construção civil o levou a um terceiro ofício: o de cenógrafo de cinema e de teatro. Construiu cenários para Nelson Pereira dos Santos (em A Terceira Margem do Rio) e para produções de Mariza Leão. Criou os cenários de versão inacabada de O Quinze, que tinha direção do potiguar Augusto Ribeiro Jr. O cineasta morreu de ataque do coração, em 1997 e deixou menos de 20% de imagens do filme impressas em película. Parte deste material seria usada em documentário de média-metragem sobre Rachel de Queiroz, dirigido por Jurandir. No filme O Quinze, que teve sua avant premiere no Cine Ceará, Jurandir começou da estaca zero. Trouxe para o projeto a atriz Maria Fernanda (filha de Cecília Meirelles), que interpreta Mãe Inacia, avó da professora Conceicão, e a jovem Karina Barum. Principal ator do curta Como Se Morre no Cinema (making of póstumo de Vidas Secas), dirigido por Luelane Corrêa, montadora de O Quinze, Jurandir, o pedreiro que virou ator, transforma-se agora em diretor. Em agosto, ele vai mostrar O Quinze no Festival de Gramado (o filme é um dos cinco selecionados da competição brasileira) e tem convite para o Festival de Montreal, no Canadá. Nada mal para um operário da construção civil.No campo do curta-metragem, dois títulos roubaram a festa no CineCeará: Formigas, da cearense Verônica Guedes, baseado em conto homônimo de Lygia Fagundes Telles, e Desirella, animação dirigida pelo paulistano Carlos Eduardo Nogueira, formado em Artes Plásticas pela USP.

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