Cine Ceará homenageia Cuba com "Lucia"

Só para ver, ou rever, Lucia, de Humberto Solás, já se justificaria a vinda ao Ceará. Era o que se ouvia de alguns cinéfilos mais entusiasmados depois da sessão do clássico do cinema cubano, programado numa retrospectiva juntamente com Troca-se, de Juan Carlos Tabío, Maria Antonia, de Sergio Giral, O Brigadista, de Octavio Cortazar, e A Bela do Alhambra, de Enrique Pineda Barnet. A mostra veio ocupar o lugar da competição de jovens talentos estrangeiros, uma marca registrada do Cine Ceará (este ano, a única competição é a de filmes brasileiros). Cuba, o primeiro país homenageado pela nova mostra, que tem curadoria de Alfredo Calvino, era quem organizava a competição entre os jovens diretores estrangeiros.Lucia, de 1968, é, em primeiro lugar e entre outras coisas, um filme sobre a condição feminina em Cuba. É dividido em três episódios, cada qual protagonizado por uma personagem de mesmo nome e interpretado por atrizes diferentes. A primeira Lucia é um senhora da alta burguesia, que, em 1895, vive um amor desesperado em meio à luta pela independência do domínio espanhol. O ponto culminante da existência da segunda Lucia acontece em 1932, durante a revolução contra a ditadura de Machado. A terceira Lucia é uma camponesa, o tempo histórico é o da fase de afirmação da revolução cubana, durante os primeiros anos da década de 60. A luta desta Lucia será contra o marido ciumento e retrógrado.Atravessa o filme um sentido afirmativo da feminilidade. As três são mulheres fortes, embora vivam em condições históricas particulares, tenham níveis de educação distintos e venham de camadas sociais muito diferentes. A primeira enfrenta um romance com um homem casado e tem um irmão revolucionário, que morre num enfrentamento com as tropas espanholas. A segunda casa-se com um revoltoso que, uma vez chegado ao poder, descobre que a revolução não havia trazido aquilo que sonhava. A terceira é analfabeta, precisa aprender a ler, mas o marido tem ciúmes do professor vindo da cidade para ensinar os camponeses. Quer trabalhar, e o marido acha que lugar de mulher é dentro de casa.Compreensivelmente, o terceiro episódio é o mais colado à realidade cubana da época em que o filme foi feito. Por isso é mais didático e também mais fraco. Salva-se pela ironia e pelo distanciamento final de Solás, mostrando o casal em briga constante pelo olhar de uma menina. Como se o cineasta desse uma piscadela de olhos para o regime e dissesse que a construção do homem novo, esse sonho socialista, não seria tarefa tão fácil como se acreditava. Ou seja, mudados os fundamentos econômicos da sociedade, ainda sobre muito ranço do passado para complicar a vida de gente idealista, ou voluntarista, conforme o ângulo de análise.O episódio da luta contra Machado é o de maior frescor, com suas seqüências que evocam uma nouvelle vague caribenha e o mal-estar da existência envenenando a vida de jovens vitoriosos. Encanta pela leveza. Mas trata-se de uma leveza dura, sólida, rente às exigências da vida, do amor e da política.O primeiro episódio é o melhor, o mais trágico, aquele filmado à maneira de uma ópera de Gláuber Rocha com toques de decadentismo viscontiano. Na estratégia de filmagem de Solás, reforça-se o contraste entre a violência tropical que acontece na rua e aquilo que se passa nos bastidores, o fausto e o fake de uma sociedade européia transportada, in vitro, para o Caribe.Dessa fricção nascem cenas de beleza extraordinária, expressas numa fotografia em preto-e-branco de alto constraste, assinada por um mestre, José Herrera. Nas sequências mais paroxísticas, a luz parece que vai estourar, os brancos sobrepõem-se, os cinzas quase desaparecem. Maneira de ver esse universo crepuscular, fim de uma vida para Lucia, fim de uma era para Cuba.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.