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Cine Ceará começa com protesto e boa seleção de longas e curtas

O basco 'Avó' e o mexicano 'Epitáfio' destacam-se entre os filmes apresentados no festival

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

19 de junho de 2016 | 17h48

FORTALEZA - O Cine Ceará teve uma abertura política no Cine São Luiz com a homenagem ao ator Chico Diaz transformada em ato contra o governo do presidente em exercício Michel Temer. Houve manifestações contra Temer do próprio homenageado, da plateia, que portava cartazes contra o governo provisório, e o palco foi tomado por manifestantes da cidade, também levando faixas e cartazes de protesto. Chico Diaz chegou a desabotoar a camisa para mostrar que vestia por baixo uma camiseta com retrato da presidente afastada Dilma Rousseff. “Quero a minha presidenta de volta, eu e os 54 milhões de brasileiros que nela votaram”, disse.

Ato findo, o festival arrancou com uma até agora boa seleção de longas e curtas em suas duas mostras competitivas.

Entre os longas apresentados, os melhores até o momento são o basco Avó e o mexicano Epitáfio. Avó, de Asier Altuna, mostra as relações familiares no mundo rural do País Basco. Dominada por um patriarca autoritário e rígido, mas tendo como figura basilar a doce e calada a avó idosa, a família cinde-se com o avanço da modernidade e o apelo sentido pelos jovens pela vida urbana e independente. Boa fase do cinema basco, que brilhou ano passado, aqui mesmo no Cine Ceará, com Loreak (Flores).

Em chave oposta, Epitáfio, do casal mexicano Yulene Ozaiola Rubén Imaz, trabalha com a temática da conquista espanhola na América, no México em particular. “Escolhemos o tema a partir da leitura de um clássico da colonização, o livro História Verdadeira da Conquista da Nova Espanha, de Bernal Diaz del Castillo, uma obra do século 16”, diz Imaz. Quem aconselhou a leitura foi o cineasta alemão Werner Herzog, que considera o volume inesgotável manancial de histórias fabulosas.

Os diretores, de fato, construíaram a a partir de singelos dois parágrafos da obra de Del Castillo. Fala de três homens que precisam atravessar um vulcão coberto de neve, o Popocatéptl, de 5400 metros de altitude. Os atores, não profissionais, dialogam com frases contidas no livro. As imagens são dessaturadas, tendendo ao preto e branco, e procuram mostrar o que acontece na mente dos homens quando submetidos ao extremo de privações, medo, frio e fadiga. “Queríamos mesmo estudar o ponto de vista dos conquistadores”, pouco explorado pelo cinema, disseram o diretores. O filme é muito bonito, tenso, e mostra até onde pode levar a loucura pela conquista e pelo poder - tema, inútil dizer, muito atual, embora a trama se passe em 1519.

O brasileiro Maresia, de Marcos Guttman, baseia-se em Barco a Seco, de Rubens Figueiredo, prêmio Jabuti de melhor romance em 2002. Conta uma história em dois tempos. Numa, o pintor atormentado Emilio Vega troca seus quadros por refeições ou por uma garrafa de vinho. Noutra, Gaspar trabalha numa galeria de arte e é especializado na arte de Vega, famoso e valioso após sua morte. Os dois personagens são interpretados por Julio Andrade. O filme, que tem méritos, dá impressão de ter comprimido uma matéria ficcional muito rica mas que não se explicita na tela. Deixa pontas soltas e não alcança a intensidade que, pressente-se, possui o original. Joga numa temática rara no cinema brasileiro (a meditação sobre as artes), vale-se de bons atores, mas falta-lhe profundidade.

Já o panamenho Salsipuedes, de Ricardo Aguilar e Manolito Rodrigues, é apenas amadorístico. A história do personagem que volta ao Panamá depois de estudar nos Estados Unidos e reencontra o pai, antigo campeão de boxe, depois voltado ao crime, não se segura. Cai num dramalhão meio descabelado, com saídas folhetinescas e mal filmadas. Decepcionou.

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