Cinco longas brasileiros vão a Roterdã

O Festival Internacional de Cinema de Roterdã, que começa no próximo dia 24, na Holanda, já definiu a sua seleção oficial, que inclui cinco longas e sete curtas-metragens brasileiros. Entre eles, dois terão sua estréia em exibição pública: são os longas Urbânia de Flávio Frederico, e Domésticas, o Filme, de Fernando Meirelles e Nando Olival. Ambos não foram exibidos nem mesmo no Brasil. O festival também deve exibir na Mostra World Cinema os longas Cronicamente Inviável, de Sérgio Bianchi, Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington, e O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, de Marcelo Luna e Paulo Caldas. O filme de Meirelles e Olival compete no Tiger Awards Competition - o principal módulo do festival -, enquanto Urbânia participa da Mostra Hugert Bals Fund, programa de financiamento do festival que colaborou na produção do longa brasileiro. Todos os filmes cujos projetos são aprovados e participam desse programa disponibilizam automaticamente o filme para o lançamento mundial no festival. O Hugert Bals Fund já apoiou, desde 1988, 270 projetos de diversos países, e atualmente doa até US$ 30 mil por projeto, podendo beneficiar 25 filmes por ano.O Festival de Roterdã se caracteriza por privilegiar filmes independentes e de baixo orçamento, menos industrializados e com mais características artísticas e criativas. "Para mim é uma honra participar desse festival, uma espécie de Sundance da Europa, com destaque para aquilo que é mais independente e autoral", atesta o diretor Meirelles. Roterdã revelou para o mundo, no passado, o alemão Wim Wenders (Asas do Desejo), o chinês Zhang Yimou (Lanternas Vermelhas) e o brasileiro Carlos Reichenbach (Dois Córregos), entre outros.Street movie - O filme de Frederico é sua estréia em longa-metragem. Falando por telefone de Tiradentes com a Agência Estado, onde apresenta o curta Pormenores na Mostra de Cinema da cidade, confessa que foi nesse formato que aprendeu a gostar da mistura entre ficção e documentário, o que caracteriza também o longa Urbânia. É um filme sobre a degradação do centro de São Paulo, do ponto de vista de dois ex-moradores do local: um dos anos 50, e outro dos anos 70. Eles andam pela cidade num carro, guiado pelo personagem de Adriano Stuart acompanhado pelo velho nostálgico interpretado por Turíbio Ruiz, que durante 24 horas encontram diversas pessoas - reais, não atores - que se apresentam à câmera e compõem o caleidoscópio social do centro paulistano. Essas cenas são intercaladas pelas memórias saudosistas do velho, sublinhadas por textos de autoria de Ignácio de Loyola Brandão, feitos para o filme.Para esse formato, Frederico admite a inspiração de filmes desde A Maçã, de Samira Makhmalbaf, e Bang Bang, de André Antonatti. "Era inclusive para ser um curta-metragem, e o projeto foi mudando. Quando apresentei em Roterdã, decidi apresentar como longa sem esperar que bancassem, mas acabaram topando", conta Frederico. Assim, adaptou o longa-metragem, que resolveu filmar de forma experimental: "de dia filmei com câmera super 16 milímetros, e a noite filmei em vídeo - depois reverti todo o material para 35 milímetros". A demora de finalização de um filme por esse processo complicado - ainda que causasse uma riqueza de texturas - quase fez com que Frederico falhasse no seu prazo em estrear o filme no festival. Depois da Holanda, ainda pretende circular com Urbânia por outros festivais para, ainda neste ano, lançar o filme no circuito em São Paulo. "Não pensei nisso ainda direito, mas quero aproveitar a nova administração da cidade, que deve deslanchar o processo de restauração do centro. Esse filme representa uma última ligação do passado, como um testamento do fundo do poço em que o centro chegou", afirma Frederico.Comédia dramática - Apesar de saber desde sempre que seu filme com Olival iria à Roterdã - por causa do acordo com o Hugert Bals Fund - Meirelles se diz extremamente surpreso com a escolha da organização em levá-lo ao módulo Tigers Award Competition, após ele e o parceiro terem inscrito o longa despretensiosamente. "A maneira que os atores falam, o texto, é uma coisa muito nossa, muito brasileira. Acho que toda a graça disso vai pro ralo com legendas. Nem desconfiava que o filme fosse para a competição", diz Meirelles. E desvia de dar um palpite sobre a chance de ganhar os 10 mil Euros (R$ 18.320) oferecidos aos três ganhadores entre os 15 filmes concorrentes, dizendo que "só a seleção já é um prêmio". Domésticas, o Filme, é baseado no texto que Renata Melo criou e encenou no teatro há dois anos, com grande sucesso. A própria Renata participa do filme, como roteirista geral e atriz de uma das várias histórias que se conta, apresentando as experiências que cinco empregadas domésticas diferentes protagonizam. Ela é acompanhada no elenco por Claudia Missura, Graziella Moretto, Lena Roque e Olivia Araújo. "A graça do enredo está em suas histórias femininas e humanas, a profissão só une cada uma delas. Elas falam sobre querer salvar o casamento, sobre o desejo de ser atriz, etc.", esclarece Meirelles, que define o filme como uma "comédia dramática". O filme é um resultado da parceria entre a produtora O2 e o fundo holandês de investimento. Meirelles, um dos sócios da O2 ao lado de Paulo Morelli, destaca o recém e promissor engajamento da produtora - a maior de filmes para publicidade no Brasil - na prática de longas-metragens. Depois de fazer diversos curtas, Domésticas é só o primeiro de uma série de longas a serem produzidos. "Em 2002 devo finalizar Cidade de Deus, baseado no livro de Paulo Lins. E o meu sócio Paulo (Morelli) deve dirigir Preço da Paz, e no outro ano, Viva Voz. O Nando (Olival) também vai dirigir outra comédia, chamada Love Story Motel", fala Meirelles, anunciando otimista o surgimento de uma, provável, nova Conspiração Filmes.

Agencia Estado,

23 de janeiro de 2001 | 16h54

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