"Cidade Baixa" é premiado no Festival do Rio

Houve prêmios acima de qualquer suspeita no Festival do Rio, encerrado na quinta-feira à noite. O de melhor atriz para Alice Braga, por Cidade Baixa, de Sérgio Machado. O de melhor ator para João Miguel, por Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Cidade Baixa recebeu também o prêmio de melhor filme e Aspirinas, o especial do júri. Foram os dois melhores filmes brasileiros, independentemente do gênero, formato ou bitola, do festival que este ano exibiu números superlativos. Cerca de 460 filmes foram vistos por 230 mil espectadores em 33 pontos de exibição da cidade do Rio de Janeiro, durante duas semanas.Beto Brant foi o melhor diretor, por Crime Delicado. Estava feliz da vida. Beto subiu duas vezes ao palco do Cine Odeon BR. Na primeira, recebeu a menção para o melhor filme brasileiro do júri da Fipresci, a Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica. Na segunda, o de direção, atribuído pelo júri presidido pelo diretor do Festival de Veneza, Marco Muller. Beto agradeceu aos críticos que embarcaram com ele na viagem de Crime Delicado. Lembrou os espectadores ?de olhos brilhantes? que chegavam para ele e se declaravam tocados pela ?experiência visceral? de seu filme. Nada disso altera a impressão de desconcerto que Crime Delicado produziu no jornalista do Estado. Mas o júri da Fipresci foi coerente, premiando filmes de um certo recorte. O melhor da Première Latina foi o mexicano Batalha no Céu, de Carlos Reygada, que pode ser ousado, mas não é melhor de coisa nenhuma. Foi o segundo prêmio da Fipresci que o cineasta recebeu no Rio, após Japón.Até a noite da exibição de Cidade Baixa na Première Brasil, a mostra competitiva de filmes nacionais do Festival do Rio, Alice Braga podia ser chamada de sobrinha de Sônia Braga. Ela nunca considerou isso um fardo, na medida em que Sônia lhe forneceu um espelho no qual se mirar. E a atriz de Dona Flor e Seus Dois Maridos sempre lhe deu estímulo na carreira. Alice chega como um furacão. Linda e talentosa, atira-se com despudor ao papel da prostituta da cidade baixa de Salvador. Tira de letra cenas de sexo, violência, falas ousadas. Seu maior desafio, ela revela, foi superar seu jeito de menina e se assumir como o mulherão que é. Alice agradeceu a toda a equipe de Cidade Baixa, mas reservou dois agradecimentos muito especiais a Fatinha e a Sergião - a preparadora de elenco Fátima Toledo e o diretor Sérgio Machado.João Miguel foi outra unanimidade na Première Brasil. Recebeu seu prêmio aos gritos de ?Ele merece?. Faz o sertanejo de Cinema, Aspirinas e Urubus, que embarca com o gringo alemão Peter Ketnath numa viagem de autoconhecimento e de conhecimento do sertão. Algo se passa na tela na abertura do deslumbrante filme de Marcelo Gomes. A tela branca é pura saturação de luz, na qual vai aparecendo a paisagem áspera e desolada do sertão e a cara de Ketnath no retrovisor da camionete com a qual atravessa o sertão nordestino, mostrando pequenos filmes para promover a venda de suas aspirinas, tudo isso ao som de Serra da Boa Esperança, na voz de Francisco Alves. Essa abertura já faz parte das experiências inesquecíveis do cinema brasileiro. Define um mundo, um estilo, uma concepção de cinema - a reinvenção do Cinema Novo, cuja estética da fome recria para o século 21.É um filme de Marcelo Gomes e Sara Silveira, da Dezenove Filmes. Um pernambucano e uma gaúcha radicada em São Paulo, fazendo a ponte do Nordeste com o Sul e o eixo, o que prova - se prova ainda fosse necessária - que a grandeza e a vitalidade do cinema brasileiro atual passam por aquilo que alguns chamam, pejorativamente, de ?pulverização? da produção, de certos interessados em que as verbas permanecessem só no Rio e em São Paulo. Beto Brant citou Lírio Ferreira, de Árido Movie. Falou nas conversas ?sobre esse cinema brasileiro no qual acreditamos?. Marcelo Gomes, companheiro de lutas de Lírio, de Cláudio Assis, poderia (e até deveria) ter ganhado mais que o prêmio especial, mas agradeceu-o do fundo do coração, como reconhecimento ?ao cinema sem concessões que queremos fazer?. O vencedor foi generoso - Sérgio Machado disse que vencer com Cidade Baixa foi tanto melhor porque havia grandes concorrentes. ?Já tenho experiência de festivais e sei que, às vezes, é prêmio por exclusão, para o menos pior. Aqui, havia belíssimos concorrentes, o que só honra a vitória de Cidade Baixa.?Houve um prêmio do júri popular, o prêmio do público, que alguns críticos chamam do populacho. Na verdade, dois prêmios - o de melhor documentário, que foi para Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel, e o de melhor ficção para A Máquina, de João Falcão, com o trio de ouro formado por Paulo Autran, Gustavo Falcão e Mariana Ximenes. O prêmio de melhor documentário, segundo o júri, foi para 500 Almas, de Joel Pizzini, sobre o universo mítico e existencial da cultura Guató, cujos remanescentes vivem dispersos no Pantanal. Pizzini fez um filme que está sendo definido como etnopoético. Ele aproveitou a presença de José Wilker, da RioFilme, a distribuidora da Cidade do Rio - grande patrocinadora do festival, com a Petrobrás - para pedir carinho na distribuição de 500 Almas.Foi um tema recorrente no palco do Odeon. Evaldo Mocarzel, Sara Silveira, Marcelo Gomes, Sérgio Machado. Todos pediram cuidado na distribuição de seus filmes, reconhecendo que é esse o nó górdio que dificulta a relação do cinema brasileiro com o público. Pizzini e Sara, além das respectivas vitórias, tinham um motivo adicional para estar eufóricos. O diretor e a produtora estão embarcando para Paris, para uma retrospectiva do cinema brasileiro de ontem, hoje e sempre, que ocorrerá no quadro do evento Brasil/França. Pizzini leva 500 Almas; Sara, cinco filmes, um dos quais é Cinema, Aspirinas e Urubus. Os outros são Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky; Ação entre Amigos, de Beto Brant; Durval Discos, de Ana Muylaert; e Bens Confiscados, de Carlos Reichenbach. O repórter viajou a convite da organização do festival

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