Ciclo traz 11 visões do erotismo no cinema

Certa está a curadora Urszula Groskaao comentar a mostra Cine Erótico, que começa nesta terça-feira noCentro Cultural Banco do Brasil, onde permanece até o dia 18,integrando o evento intitulado Erótica - Os Sentidos da Arte(que vai até 8 de janeiro). Ela diz que, por meio dos 11 filmesque selecionou, é possível descobrir como a nossa sociedadeaceita se relacionar com esse tema tão delicado e importante. São filmes de Bernardo Bertolucci, Louis Malle, Nagisa Oshima, Wong Kar-wai, ToddSolondz, Federico Fellini, Pedro Almodóvar, Marco Ferreri, JanJakub Kolski, Walter Rogério e Eduardo Escorel. Para início de conversa, convém estabelecer a distinçãoentre erotismo e pornografia, até porque um dos filmes queintegram a programação - o de Kolski - leva justamente essesugestivo título, Pornografia. Para tirar a dúvida, pode-se irao dicionário. O Aurélio diz que o erotismo refere-se ao amor,designa paixão amorosa e acrescenta outras duas possibilidades -o amor lúbrico e a lubricidade. A pornografia é outra coisa,até porque o sentido lato do termo é "tratado de prostituição". E o Aurélio acrescenta - qualquer espetáculo ou obra literária(ou de outra natureza) que trata de coisas e assuntos obscenosou licenciosos, capazes de motivar e explorar o lado sexual do indivíduo.A ditaduramilitar considerava O Último Tango em Paris, de BernardoBertolucci, obsceno e proibiu o filme, que hoje é reconhecidocomo uma grande obra de arte (além de haver passado no País semameaçar a moral nem as instituições, como temiam os zelososmilitares). E há o caso de Os Amantes, de Louis Malle, queprovocou um terremoto cujo epicentro foi a Igreja, tudo porcausa da célebre cena de sexo oral entre Jeanne Moreau eJean-Marc Bory, quando ele escorrega pelo corpo dela e sai decena, concentrando-se o filme no êxtase expresso no rosto daatriz. Com exceção dessa cena, o filme chega a ser pudico - ecertamente é um modelo de castidade comparado à abertura de Salde Prata, de Carlos Gerbase, quando Camila Pitanga simulaaquele orgasmo. Cada época tem o seu conceito de moral, de erotismo ePornografia. O Casanova de Fellini - cuja versão restaurada é um dosdestaques de outra mostra, Venezia Cinema Italiano, no cineOlido - discute mesmo é a pornografia. O grande amante que trataas mulheres como objetos termina se relacionando com uma bonecamecânica, na crítica que Federico Fellini faz à elefantíase dosexo que não é só um fenômeno contemporâneo, posto que jáimpulsionava Giacomo Casanova no século 18. Ingmar Bergman gosta de dizer que o sexo e a fome são osdois elementos que empurram o homem. Cada filme tem o seu momento ´ousado´ - a cena damanteiga em "O Último Tango...; o sexo anal em Crônica de UmAmor Louco, de Marco Ferreri; o sexo oral em Amantes; o sexohomossexual em Tabu de Nagisa Oshima, e Lei do Desejo dePedro Almodóvar, o líquido seminal em Felicidade, de ToddSolondz. Os brasileiros Lição de Amor, de Eduardo Escorel, eBeijo 2348/72, de Walter Rogério, são mais delicados elíricos. E Amor à Flor da Pele, de Kar-wai, é muito delicado,narrando sua história de amor por meio de elipses e metáforas emque tudo é sugerido sem que nada precise ser mostrado. É umaprogramação e tanto. De volta à curadora, o cinéfilo realmenteterá prazer ao conferir as diferentes propostas autorais emtorno ao tema.Cine Erótica - Hoje, 15h, "O Último Tango em Paris" (1972), de Bernardo Bertolucci; Amanhã, 15h, "Pornografia" (2003), de Jan Jakub Kolski; 5.ª, 15h, "Felicidade" (1998), de Todd solondz. Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112, Centro, 3113-3651. 3.ª a dom. R$ 4. Até 18/12.

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