Ciclo revisita o cinema de Ana Carolina

Cinco Reprises e Um Inédito é o ciclo que começa amanhã na Sala Cinemateca, revisitando a pequena porém consistente obra de Ana Carolina. As reprises são seus longas-metragens anteriores: um documentário, Getúlio Vargas e quatro ficções, Mar de Rosas, Das Tripas Coração, Sonho de Valsa e Amélia. Mas a retrospectiva começa pelo inédito - Gregório de Mattos, filme dedicado ao poeta baiano, que viveu de 1633 a 1696.Gregório de Mattos é documentário ou ficção? Se ocompararmos com Getúlio, início de Ana Carolina no cinema, atendência é dizer que não. Getúlio é um documentário clássico,trabalha com material de arquivo e, apesar de sua vocaçãointerpretativa, procura ser didático ao reproduzir objetivamentea vida de um personagem.Já o longa sobre o escritor obviamente precisareproduzir sua vida por meio de intérpretes. O que vale dizer -reproduzi-la ficcionalmente, como aliás, fizeram alguns longasrecentes também dedicados a poetas, como Bocage - O Triunfo doAmor, de Djalma Limongi Batista, e Cruz e Souza - O Poeta doDesterro, de Sylvio Back.É curioso o que acontece quando cineastas se propõem areconstruir vidas de poetas. Sabem que artistas da palavra nãose esgotam numa biografia banal, portanto não adianta fazer umdocudrama convencional, com atores encenando episódios de vida,etc. Precisam ir além. Precisam tentar desvendar alguma coisadesse trabalho meio indefinível que é o fazer poético. Enfim,esses cineastas têm, como material de construção, as informaçõesbiográficas que, quanto mais recuadas no tempo, mais envoltas emmitos e imprecisões estão. E têm a obra deixada, esta sim seuporto seguro.No caso de Gregório de Mattos, temos um poeta do século17, barroco, desbocado, de biografia aventurosa. No começo, sepensa que Ana Carolina optou pelo caminho tradicional. Mas logose constata que irá preferir o tom imaginativo ao factual, adesmesura que, se supõe, acompanhou a vida de alguém que mereceuo apelido de Boca do Inferno. Enfim, Ana Carolina precisava deum ator com vocação barroca para interpretar o poeta. Quemmelhor do que o também poeta, e também baiano, Waly Salomão?Waly está no personagem, assim como estão MaríliaGabriela e Ruth Escobar, como abadessas. Nesse filme empreto-e-branco, de textura vagamente retrô, Waly tem de encarnarum vate ousado, um típico libertino da Contra-Reforma que, comseu puritanismo extremo, acabou por causar reação contrária noâmbito privado dos costumes.Gregório (como Bocage) era um debochado. A relação com aIgreja era dúbia. Em sua poesia religiosa, ou dita religiosa,conseguia expressar essa estranha comunhão que existe entre arepressão e o pecado. Basta lembrar os versos famosos: "Pequei,Senhor: mas não porque hei pecado,/ Da vossa alta clemência medespido;/ Porque, quanto mais tenho delinqüido,/ Vos tenho aperdoar mais empenhado." Já a poesia libertina, propriamentedita, é praticamente impublicável em jornais de família.Gregório viveu no tempo de um país em formação, em meioà espoliação comercial por parte da metrópole e à desigualdadesocial; com a opulência convivendo com a miséria, enfrentou ocalor, o desconforto do trópico, mas também desfrutou a magia daBahia. É um poeta dos sentidos e da contestação. A recusa emreconstituir de forma dramática a trajetória aventurosa supõeque seus versos sejam depositários do sentido dessa vida. Essa éuma boa aposta do filme.Aposta, é bom dizer, que não se realiza integralmente.Waly, no papel de Gregório, expressa-se unicamente pelos versos,o que supõe um roteiro construído apenas pela obra. Essa ousadiana concepção do filme é também o seu fator limitante, pois nemtodo verso se presta à reconstituição de uma situação narrativa.Mas pode se prestar à construção de um clima, e aí sim o desafioproposto pela diretora alcança alguns de seus melhoresmomentos.O outro aspecto a ser destacado é o paralelo buscado,com sutileza, entre o tempo de Gregório de Mattos e o presente.Waly pode ter problemas ao escandir alguns versos, mas convenceno papel de "cavalo" de Gregório. Incorpora exatamente o quehá de atual no poeta baiano, para além da beleza dos versos: asensação de que mora no caos, surfa na desordem, e é melhoraproveitar a vida (curta, necessariamente) do que ficar selamentando. Ou pior - esperando tempos melhores, queprovavelmente não virão. Rindo, castiga os costumes. Mudando oque deve ser mudado, o país em construção da época de Gregório éainda muito parecido com este nosso Brasil em transe do iníciodo século 21. Essa passagem - barroca, glauberiana -, de umaépoca a outra, é o que o filme tem de mais interessante.Cinco Reprises e Um Inédito - Festival Ana Carolina. Sábado, às16 horas, quarta, às 20 horas, Getúlio Vargas/74, narração dePaulo César Pereio; sábado e quinta, às 18 horas, Mar deRosas/77, dur. 90 min., com Cristina Pereira, Norma Benguell;sábado, às 20 horas, domingo, às 16 horas, quarta, às 18 horas,Amélia/2001, com Béatrice Agenin, Camila Amado. Domingo, às 18horas, Das Tripas Coração/82, dur. 108 min., com Dina Sfat,Antônio Fagundes; domingo, às 20 horas, Sonho de Valsa/88,dur. 96 min., com Xuxa Lopes, Daniel Dantas. Quinta, às 20 horas, pré-estréia de Gregório de Mattos/2002, com Waly Salomão,Marília Gabriela. De quarta a domingo. R$ 8,00 e R$ 4,00 (meia).Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel.11.5084-2177). Até 25/8. Abertura amanhã, às 20h30, somente paraconvidados, com a exibição do filme Gregório de Mattos.

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