Ciclo reverencia o cineasta Kon Ichikawa em SP

Kon quem? Para a maioria do público, o cineasta que a Fundação Japão reverencia, a partir de amanhã, com um ciclo em duas salas da cidade - CineSesc e Espaço Cultural da própria fundação -, deve ser um ilustre desconhecido. Embora ainda esteja vivo (nasceu em Mie, em 1915), a grande fase de Kon Ichikawa ocorreu nos anos 1950 e 1960, quando o próprio cinema japonês era muito forte no Brasil. Havia, no bairro da Liberdade, em São Paulo, salas especializadas em exibir somente a produção japonesa, e no restante do Brasil, a Toho, principal empresa produtora e distribuidora de filmes do Japão, que na época promovia festivais anuais. Em Porto Alegre, para citar apenas um exemplo, eles ocorriam na semana do carnaval.Hoje, em face da massificação imposta por Hollywood, o cinema japonês é uma raridade nas telas brasileiras. Antes ainda havia um Akira Kurosawa, hoje há um Takeshi Kitano, mas fora isso ficou cada vez mais difícil acompanhar os novos rumos do cinema produzido no Japão. Há 40 anos havia Kurosawa, Yasujiro Ozu, Eizo Sugawa, Kaneto Shindo, Tomu Uchida, Masaki Kobayashi e Ichikawa, entre outros. Kenji Mizoguchi, morto em 1956, ainda era um fenômeno recente e seus filmes eram obrigatórios nos cineclubes. Naquela época, podia-se acompanhar até mesmo o surgimento da nouvelle vague japonesa, com filmes como "O Túmulo do Sol", de Nagisa Oshima, que provocou escândalo, mais tarde, com o sexo explícito de "O Império dos Sentidos".A santíssima trindade do cinema japonês é formada por Kurosawa, Mizoguchi e Ozu, mas há um quarto mosqueteiro do cinema no Japão. A trilogia "Guerra e Humanidade", de Kobayashi, com suas quase dez horas de projeção, traçou um amplo retrato social e político do país, indispensável para quem quiser entender a traumática passagem do Japão de uma estrutura feudal aos grandes conflitos do século 20. E Kobayashi nunca deixou de surpreender: com "As Quatro Faces do Medo", incursionou pelo fantástico por meio de imagens nunca menos do que deslumbrantes no seu uso das cores. E com "Harakiri" e "Rebelião", realçou, por meio do mais rigoroso preto-e-branco, sua dramática passagem pelo universo dos samurais. Perdão, Kurosawa, mas nenhuma aventura de samurai é mais densa e trágica do que a de "Rebelião", que opõe os personagens de Toshiro Mifune e Tatsuya Nakadai, dois ícones do cinema de espada, num dos grandes finais de filmes da história do cinema.Como diretor, a trajetória de Ichikawa foi das mais sinuosas. Ele começou sua vida profissional numa escola de comércio e dali se transferiu para a Toho. Realizou seu primeiro filme em 1947. "A Moça do Templo Dojo" é uma animação com marionetes. Os demais filmes não sedimentaram sua reputação. Ichikawa filmou demais e quase sempre comédias leves, de um otimismo à Frank Capra, que não agradavam aos críticos. E surgiram, então, no final dos anos 1950 e início dos 1960, três filmes que provocaram impacto. Difícil imaginar obras mais diversas, entre si, do que "A Harpa da Birmânia", "Estranha Obsessão" e "Fogos na Planície".O primeiro é um filme de guerra antibélico e impregnado pela filosofia zen. Deu a Ichikawa vários prêmios em festivais internacionais. As obsessões do segundo são de fundo sexual (incesto, necrofilia) e o filme provocou escândalo no Japão, um escândalo na verdade tímido perto do que Oshima provocaria com "O Império dos Sentidos".Ichikawa voltaria ao centro da polêmica ao retornar ao tema da guerra em "Fogos na Planície". Desta vez, não havia nada parecido com o zen-budismo de "A Harpa da Birmânia" e sua valorização da contemplação intuitiva, suscitada pelo amor à natureza e à vida. Ao investir de novo contra a guerra, Ichikawa criou imagens de horror e impregnou sua narrativa de excessos cujas atrocidades (canibalismo, automutilações, etc.) deixaram os críticos e o público estarrecidos. Vários críticos o acusaram de exibicionismo e disseram que o procedimento anulava a eficácia da sua denúncia contra a guerra.Em 1964, Ichikawa foi contratado para dirigir o filme oficial das Olimpíadas que se realizavam em Tóquio. Comandou um batalhão de cinegrafistas e tirou, das centenas de horas de material filmado, um documentário que continuou provocando polêmica por sua visão do esporte e do Japão contemporâneo. O filme teve de ser remontado. O nome de Ichikawa bem poderia ser ´escândalo´. O cineasta amável das comédias caprianas virou um problema para os japoneses. Serviço - Festival Cultural do Japão - Copa do Mundo 2002. Retrospectiva Kon Ichikawa. Entrada franca. Espaço Cultural Fundação Japão. Avenida Paulista, 37, tel. 3141-0843. Até 24/5.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.