Ciclo revela a obra dos irmãos Salles

Walter Salles, diretor de Centraldo Brasil, e João Moreira Salles, co-diretor (com Kátia Lund) deNotícias de Uma Guerra Particular, iniciaram-se noaudiovisual pelo documentário. Realizaram, juntos ou separados,importantes projetos, a maioria para TV, em especial a RedeManchete, que nos anos 80 exibiu as séries China,Japão e América e para o canal a cabo "GNT". Waltermigrou para a ficção, levando junto a base documental. Joãosegue fiel ao gênero. Um ciclo composto de 12 documentários dirigidos pelosdois cineastas será apresentado de amanhã até o dia 26, noCentro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. O crítico AmirLabaki assina a curadoria. A mostra, intitulada Os IrmãosSalles, dá seqüência à homenagem prestada aos dois brasileirospelo 15.º Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, naHolanda. A curadoria destaca "a imensa contribuição dos doisrealizadores ao progresso e à sofisticação da atual produçãobrasileira de documentários". Walter está no Peru, filmando Diários de Motocicleta seu sexto longa ficcional. Tudo indica que - para narrar aviagem de juventude de Ernesto Guevara e Alberto Granado -esteja utilizando procedimentos de documentarista. Afinal, suaequipe é reduzida, ele optou pelo 16 milímetros (para posteriorampliação) e por locações naturais (paisagens da AméricaHispânica em vez de estúdios), mesmo que se trate de filme deépoca (a viagem de Guevara foi no começo dos anos 50). João, por razões familiares, está vivendo em Londres. Delá, supervisiona, com o zelo que lhe é característico, os seusDiários. Ou seja, a montagem de horas e horas de imagenscolhidas durante a campanha que elegeu Lula à Presidência e quedarão origem a documentário em duas partes. Uma, dirigida porele e ainda sem nome, e a outra, por Eduardo Coutinho. Há um título imperdível na mostra Os Irmãos Salles:o documentário Notícias de Uma Guerra Particular (1999).Para se ter idéia do quanto este filme calou fundo no meiocinematográfico brasileiro, vale citar enquete realizada pelaRevista de Cinema. Votaram 40 críticos, pesquisadores eprofessores de cinema. Oito deles desrespeitaram as regras dapesquisa (filmes lançados na Retomada/1994-2002) para eleger ofilme de João e Kátia. O número de votos de Notícias de UmaGuerra Particular foi igual ao de Estorvo e CarlotaJoaquina. Os três ocuparam a 12ª posição. Os votantes ignoraram a "inexistência" de Notíciascomo filme (ele foi feito em vídeo e só nesse suporte tevedifusão) e sua duração (apenas 57 minutos). Só levaram em contasua urgência ao falar de assunto relevante (a nova configuraçãoda violência urbana no Brasil) e seu poder fertilizador. O ciclode cinema social - que tem em O Invasor, Cidade de Deuse Ônibus 174 (1º, 2º e 10º colocados na mesma pesquisa) suasmaiores vitrines - deve muito a Notícias de Uma GuerraParticular. O documentário de João e Kátia constrói sua narrativa,algo desesperançada, sobre a nova configuração da "guerra"travada entre a polícia e os traficantes nas favelas do Rio.Inova ao ouvir a Polícia (o capitão Pimentel, do Bope - Batalhãode Operações Especiais), um especialista (o delegado eparlamentar Hélio Luz), os traficantes (jovens de 16, 17 anos,que preferem arriscar a vida no tráfico a batalhar emprego desalário mínimo) e os moradores das favelas (o segmento dapopulação que mais sofre com a guerra do tráfico). Consumo - Notícias de Uma Guerra Particular foge deabordagens simplistas. Sabe que o jovem da favela está em finasintonia com um mundo no qual o consumo se tornou valorabsoluto. Sabe que o favelado tem (muitos) desejos. Pararealizá-los, busca caminhos diversificados. Um deles é otráfico. No filme, esta situação fica clara, através deindagação realista: "Por que jovem favelado vai querer serentregador de farmácia (oito horas de trabalho/dia e saláriomínimo mensal), se no tráfico ele ganha o equivalente a trêssalários mínimos por semana?" Ao debater Notícias de Uma Guerra Particular, naCinemateca Brasileira, em 2000 (momento em que estava sob o focoda imprensa, por causa de bolsa de estudos concedida aotraficante Marcinho VP), João Moreira Salles deixou claro queele e Kátia Lund evitaram (no filme) abordar o mundo do tráficocomo território de "seres patológicos, de monstros". "O tráfico pesado, aquele que movimentou US$ 150milhões em 1991"- ponderou o cineasta - "não passa pelafavela". E acrescentou: "A polícia, para dar à sociedade umcerto alívio, elege a cada temporada, a figura do mês. O número1 é o Escadinha, depois o Celsinho da Vila Vintém, depois oMarcinho VP. E faz isso porque é mais fácil (e traz dividendopolítico) prender bandido de favela, despreparado,semi-analfabeto. O procedimento funciona na base dobandido-analgésico. Com a prisão dele, a dor de cabeça passamomentaneamente. Mas as causas da doença permanecem." Outros trabalhos de João Moreira Salles que merecem servisto são dois dos episódios de Seis Histórias Brasileiras(2000). O Vale mostra a decadência que se abateu sobre oVale do Paraíba, outrora reduto dos barões do café. E SantaCruz acompanha o nascimento de igreja evangélica em loteamentoclandestino, no subúrbio carioca de Santa Cruz. Neste episódio,a força do Salmo 91-- "Mil cairão a teu lado e dez mil à tuadireita, mas tu não serás atingido; nada chegará à tua tenda" -no seio da população evangélica. Quem leu Estação Carandiru,de Drauzio Varella, sabe o peso simbólico deste Salmo nahistória de um dos sobreviventes do massacre de 1992. Os amantes do futebol não podem perder o terceiroepisódio (Depois da Partida) da série Futebol (1998).Dirigido por João (em parceria com Arthur Fontes), odocumentário centra-se no jogador Paulo César Lima, o Caju, umdos símbolos de rebeldia no esporte brasileiro. "Negro, cheiode ginga e suingue", Paulo César Caju correu o risco de tentarmigrar de classe social e pagou caro por isso. De Walter Salles, há dois trabalhos bem conhecidos:Franz Krajcberg - O Poeta dos Vestígios (1987) e SocorroNobre (1995). O primeiro traça perfil do artista plástico. Osegundo registra a surpreendente troca de correspondência entrea presidiária Socorro Nobre e o mesmo Krajcberg. E, vale lembrar serviu como ponto de partida de Central do Brasil. Menosconhecido (e imperdível) é Chico Buarque ou o País daDelicadeza Perdida (1989), que Walter, ajudado por NelsonMotta, realizou para a TV francesa.

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