Ciclo revê a obra de João Batista de Andrade

Todo João Batista de Andrade poderá ser (re)visto a partir de amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, na grande retrospectiva que a instituição dedica ao importante diretor paulista. A mostra inclui até cenas de seu novo filme, ainda inédito, Rua 6/Sem Nº. Você poderávê-las amanhã à noite, durante o encontro com o próprio JoãoBatista, num diálogo aberto do diretor com o público. Ao longodo evento, ocorrerão dois debates: um sobre a obra de JoãoBatista, revista por críticos e historiadores, e outro sobre aimportância de seus documentários para TV, quando integrou aequipe de realizadores do Globo Repórter.Homem de cinema e TV, romancista. Não falta nem o teatrona produção artística de João Batista de Andrade. Ele acaba deconcluir uma peça - Uma História Familiar. No início dosanos 1970, em sua única incursão anterior pelo teatro, filmouuma montagem do Teatro Oficina e doou o material - o filme ficouinacabado - a José Celso Martinez Corrêa. Há muitos projetos queforam interrompidos ao longo da carreira de João Batista. O maisnotório é Vlado, baseado no controvertido caso VladimirHerzog, sobre o jornalista que, oficialmente, se suicidou nasinstalações do DOI-CODI, em São Paulo. Vlado era amigo,companheiro de lutas de João Batista. Sairia um filme talvezemotivo, sem deixar de ser rigoroso. Outro projeto não concluído- na verdade, não levado adiante, pois o filme foi censurado jáno papel - foi Os Demônios, que o diretor quis fazer comroteiro de Lauro César Muniz.João Batista tem consciência de que não fez todos osfilmes que gostaria e até os que fez sofreram interferências quenão os deixaram exatamente como queria. Numa entrevista portelefone - estava hoje em Goiânia, só amanhã demanhã volta para São Paulo -, ele disse que tem distanciamentopara falar de sua obra. Acrescentou: "Não sou suscetível aelogios que afaguem meu ego, mas sou um lobo na defesa dacompreensão dos meus objetivos." É a sua grandeza. Você podeachar que João Batista errou a mão, aqui ou ali - e O Cego QueGritava Luz é particularmente indigesto. Realizado após umhiato na carreira do diretor, o filme se ressente dessa parada.João Batista dá a impressão de ter perdido a qualidade denarrador. Retomou-a no projeto seguinte: O Tronco. Oimportante é que, agora, revistos em perspectiva, todos osfilmes poderão iluminar e dar sentido à obra essencialmentepolítica de um autor que sabe que, no cinema, a política precisade uma estética para sustentar-se. Quem sabe até O Cegoagora revele a importância autoral que João Batista, admitindoos erros, nunca deixou de atribuir ao filme.Quando fez O Cego, ele estava num momentoparticularmente difícil. O projeto de sua vida inteira, osocialismo, havia sido destroçado pela derrocada do comunismo epelo começo da consolidação do programa neoliberal que lançou omundo na globalização. Havia mais: o desmantelamento daEmbrafilme, na aurora do governo de Fernardo Collor de Mello,inviabilizou a produção de Vlado. Sem filme e sem sonho,João Batista fez um filme que carrega, mais do que uma confissãode impotência, uma confissão de desespero. Os problemasnarrativos existem, mas no fundo ele os acha secundários. "Quemteve coragem de fazer um filme desses, naquele momento?",pergunta.A retrospectiva de João Batista de Andrade beneficia-sede um dos melhores catálogos criados pelo CCBB para promoverseus eventos. A coordenação geral é de Assunção Hernandez,mulher (há quase 40 anos, casaram-se em 1964) do diretor eprodutora de seu filmes, por meio da Raiz, mas o mérito maior édo curador Newton Cannito, que fez uma bela entrevista com odiretor para o volume e faz observações pertinentes sobre o seutrabalho. Cannito submete a obra de João Batista a uma leituraque privilegia a construção de contra-histórias. Diz que odiretor escolheu colocar na tela, seja do cinema ou da TV, nasua experiência com o meio, as histórias que não estavam sendocontadas. É um cinema que submete a realidade a questionamentos,feito por quem acredita firmemente na necessidade de mudar omundo. Cannito destaca uma afirmação exemplar do diretor.Dúvidas - No começo dos anos 1980, quando fez APróxima Vítima, João Batista estava diretamente envolvido noprocesso político. Colaborava na elaboração do projeto culturalde Franco Montoro, que era, então, candidato do PMDB ao governode São Paulo. Até pela necessidade de engajar as pessoas nacampanha, João Batista era um homem cheio de certezas na época.Não foi isso que colocou no filme. Em A Próxima Vítima, expôssuas dúvidas. Essa é uma preocupação dominante em sua obra.Questionar a realidade sem soluções prontas. É o que, segundoJoão Batista, impede o didatismo que tantas vezes entrava ocinema militante. É o que produz o estranhamento que ele próprioreconhece em sua obra."Sempre dei murros em ponta de facas", confessa.Acrescenta que seus filmes são produtos de sua obsessão emrevelar o que permanecia escondido na mídia e na sociedade comoum todo. Por isso mesmo, seus filmes oferecem um espectro amploda realidade brasileira, discutindo desde a máquina repressorado Estado até o próprio processo político no qual tantas vezesesteve envolvido. Liberdade de Imprensa, seu primeiro filme,desmonta qualquer tentatriva de idealização sobre o assunto.Greve, feito em 1979, quando o movimento do ABC mobilizavamilhares de pessoas numa imensa manifestação pública dequestionamento do regime militar, expõe não a unidade, mas asdivisões do movimento, sem deixar de ser engajado."Se há um tema que percorre meus filmes" - e éevidente que há - "é a idéia da inviabilidade", resume opróprio João Batista. A dificuldade de viabilizar seu ideáriopolítico, de realizar os filmes, tudo isso é o combustível dasua obra autoral. Ele próprio se surpreende ao ver que o únicopersonagem que, em toda a sua carreira, realmente atinge seuobjetivo é o mais anárquico de todos: O Homem Que VirouSuco. Explica que, no fundo, isso foi possível porque naquelemomento (fim dos anos 1970) havia uma indignação na sociedade,uma mobilização popular que tornava viável a força daquelepersonagem. Mas não era assim no roteiro original. O personagemde José Dumont era preso, enrolado numa rede e moído até virarsuco. Essa visão mudou durante o processo de rodagem.Na maioria das vezes, os temas de João Batista deAndrade são o fracasso ou a impotência. Isso ocorre na obraessencialmente crítica do diretor, porque na vida esse homemmuitas vezes amargurado pelo fantasma das derrotas políticas nãodesiste de lutar. Permanece um batalhador. Além dos filmes quenão fez, ele tem preferências por alguns que fez: Liberdade deImprensa, Doramundo, O Caso Norte (um documentáriopara TV). Uma de suas maiores alegrias foi a acolhida a WilsinhoGaliléia, quando o documentário proibido pela censura, passou noÉ tudo Verdade e foi saudado como uma revelação por espectadoresentusiasmados. Há que (re)ver a obra de João Batista de Andrade.Ela não vai revelar só o País. Vai revelar, também eprincipalmente, o grande diretor brasileiro que ele é.Diretores Brasileiros: João Batista deAndrade. Terça, às 18h30, abertura com exibição de trechos dopróximo filme do diretor, ainda não finalizado, Rua Seis, SemNúmero. Na Sala de Cinema - Quarta, às 16h30, Restos/75, dur.10 min., e A Próxima Vítima/83, dur. 93 min.; quarta, às 18h30 Portinari/68, dur. 10 min., e Gamal, o Delírio do Sexo/69,dur. 90 min.; quinta, às 16h30, Mercúrio no Pão de Cada Dia/76 dur. 10 min., Pedreira/73, dur. 8 min., e WilsinhoGaliléia/78, dur. 60 min.; quinta, às 18h30, PaulicéiaFantástica/70, dur. 100 min. Sexta, às 16h30, Liberdade deImprensa/66, dur. 52 min., e Tribunal Bertha Lutz/82, dur. 30min.; sexta, às 18h30, A Batalha dos Transportes/76, dur. 15min., e O País dos Tenentes/86, dur. 75 min. Sábado, às 14h30,Migrantes/72, dur. 7 min., e O Homem que Virou Suco/79, dur.90 min.; sábado, às 16h30, debate Características Estéticas daObra de João Batista de Andrade; sábado, às 18h30,Trabalhadores: Presente!/79, dur. 34 min., e Greve!/79, dur.37 min. Domingo, às 14h30, Ônibus/73, dur. 7 min., eDoramundo/67-77, dur. 95 min.; domingo, às 16h30, A Batalhados Transportes/76, dur. 15 min., e Céu Aberto/85, dur. 80min.; domingo, às 18h30, Buraco da Comadre/75, dur. 10 min., eO Tronco/99, dur. 109 min. Na Sala de Vídeo - Quarta, às 16h30 Mercúrio no Pão de Cada Dia/76, dur. 10 min., e A Herançadas Idéias/82, dur. 60 min.; quarta, às 18h30, Ônibus/73,dur. 7 min., Pedreira/73, dur. 8 min., Migrantes/72, dur. 7min., e Restos/75, dur. 10 min. Quinta, às 16h30, DuduNasceu/83, e Greve!/79, dur. 37 min.; quinta, às 18h30, CasoNorte/77, dur. 38 min., e Viola Contra Guitarra/76, dur. 32min. Sexta, às 16h30, Ônibus/73, dur. 7 min., Pedreira/73,dur. 8 min., Migrantes/72, dur. 7 min., e Restos/75, dur. 10min.; sexta, às 18h30, Mercúrio no Pão de Cada Dia/76, dur. 10min. Sábado, às 18h30, Independência/91, dur. 17 min., Ontem,Hoje, Amanhã/98, dur. 60 min. Domingo, às 16h30, DuduNasceu/83, Greve!/79, dur. 37 min.; domingo, às 18h30, CasoNorte/77, dur. 38 min., e Viola Contra Guitarra/76, dur. 32min. De terça a domingo. R$ 8,00 (cinema) e grátis (vídeo).Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, emSão Paulo, tel. (11) 3113-3651. Até 7/7.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.