Ciclo reúne clássicos e raridades de Rossellini

Quando Roberto Rossellini disse com todas as letras que o cinema estava morto, o choque foi grande, em especial porque a frase partia de um dos papas do neo-realismo, aquele movimento do após-guerra que havia colocado o cinema italiano como referência mundial. Hitchcock respondeu que se havia um cinema que estava morto era aquele de Rossellini, mas ele não se importou com a polêmica. Tinha consciência de que a era da televisão havia chegado e os homens de cinema não podiam fingir que nada daquilo era com eles. Isso foi em 1963. Quarenta anos depois a "questão" entre o cinema e a TV está mais do que nunca na ordem do dia. Por isso é mais do que bem-vinda a mostra Rossellini Entre o Cinema e a Televisão, que o Centro Cultural São Paulo, em colaboração com o Instituto Italiano di Cultura e a Nice-New Italian Cinema Events, promove a partir desta quarta-feira.Na retrospectiva, que vai até dia 16, serão exibidos os clássicos do cineasta, mas também suas obras menos conhecidas, justamente aquelas feitas para a telinha, como Sócrates, Idéia de Uma Ilha, Descartes, Ato dos Apóstolos e A Índia Vista por Rossellini, em 10 episódios. São raridades e mostram uma faceta pouco conhecida do artista, o seu desejo de utilizar a televisão de modo didático, para ensinar coisas às pessoas.A professora da USP Mariarosaria Fabris, especialista na obra do cineasta e autora de livros como O Neo-realismo Cinematográfico Italiano e Nelson Pereira dos Santos: Um Olhar Neo-realista?, diz que "Rossellini passa para a televisão para recuperar o projeto pedagógico do neo-realismo, que acabou não se completando no cinema". Para Mariarosaria, mesmo na sua fase mais "canonicamente neo-realista" esse desejo de ensinar aparecia de modo claro em filmes como A Máquina Mata-malvados (1948-1952).Ao contrário de muitos colegas (o genial Fellini foi um deles), Rossellini evita tratar a TV como ameaça e decide usá-la da melhor maneira possível, de uma maneira histórico-documental que ajude as pessoas a se situar no presente a partir de eventos fundamentais do passado. Cabe lembrar que, em seu tempo, a televisão italiana era estatal e não estava sujeita às pressões comerciais das tevês privadas. Assim, Rossellini deu início a uma série dedicada a personagens como Sócrates, Descartes, Agostinho de Hipona, Luís XIV. Documentou a Índia e visitou a época de Cosme de Médicis.A mudança de rumo surpreendeu muito a quem se acostumara a ver em Rossellini o autor de obras como Roma - Cidade Aberta, Paisà e Alemanha Ano Zero, a trilogia da guerra, na qual ele descreve o estado de coisas de um continente devastado por seis anos de matanças e destruição. No entanto, esses filmes são documentos de uma época, lembra-se Mariarosaria, "exatamente porque focalizam a micro-história e não os grandes acontecimentos. Isso, a meu ver, ele leva para as realizações televisivas, onde o ethos dos períodos reconstituídos nasce da focalização dos pequenos fatos do dia-a-dia e não das frases comumente atribuídas às personagens históricas nem dos grandes feitos que as consagraram nos compêndios". Ou seja, Rossellini teria transposto para a TV o mesmo ideário que orientara seu trabalho como cineasta-símbolo do neo-realismo.A programação da mostra pode ser conferida no endereço www.prodam.sp.gov.br/ccsp/.

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