Ciclo reúne adaptações de Machado de Assis

A partir de hoje, os leitores poderão conferir se Machado de Assis foi feliz no cinema com a ótima mostra do Centro Cultural São Paulo, que relaciona várias das adaptações cinematográficas da obra do mais notável dos nossos escritores (há um raro consenso sobre isso). Os textos de Machado, compreensivelmente, têm atraído muito o interesse dos cineastas - e há também o fato de que as obras já caíram em domínio público e portanto os produtores não precisam duelar com herdeiros pelos direitos. Mas talvez não tenha sido uma boa idéia abrir uma mostra desse porte com Dom, de Moacir Góes, adaptado de Dom Casmurro, o romance do ciúme por excelência, e considerado um dos ápices da obra de Machado. Góes não faz o melhor Machado das telas, e por mais que se esforce fica muito aquém do complexo universo do escritor. Para compensar, logo em seguida vem Memórias Póstumas, de André Klotzel, uma correta versão de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o mais genial e também o mais inventivo dos romances de Machado. Klotzel nos dá uma boa visão do livro, enquanto a outra versão do mesmo texto, feita por Julio Bressane há 20 anos, aproveita as invenções formais do romance original para também propor uma adaptação experimental da obra. No primeiro dia de mostra, outra boa atração é Azyllo muito Louco, versão livre de Nelson Pereira dos Santos para a novela O Alienista. No texto, Machado ironizava o charlatanismo psiquiátrico e seu apego à noção de normalidade. Esperto, Nelson sacou que esse tema do século 19 cairia como uma luva para a época da ditadura militar em que o filme foi feito. Rodado em Paraty, abusa às vezes dos recursos alegóricos, método preferido dos cineastas para driblar a censura daquele tempo. Amanhã há também A Causa Secreta, de Sérgio Bianchi, adaptado de um conto homônimo de Machado. Na história, um grupo de teatro faz uma pesquisa para encenar uma peça sobre a miséria do País. O filme só lembra longinquamente o conto.Semana passada Bianchi lançou Quanto Vale ou É por Quilo?, sua segunda versão de uma obra de Machado, desta vez de um conto sublime chamado Pai contra Mãe. Está em cartaz no circuito, mas não faz parte da mostra. Nesta, há algumas obras mais raras, como Um Apólogo, de 1936, adaptação de Humberto Mauro para o conto do mesmo nome, no qual uma agulha e uma linha, no interior de uma caixa de costura, discutem a primazia de uma sobre a outra. Uma curiosa reflexão sobre a vaidade e a fragilidade humanas. É um filme menos conhecido de um dos mestres do cinema brasileiro. Como pouco conhecidos são Missa do Galo, de Roman Stulbach, e Viagem ao Fim do Mundo, de Fernando Cony Campos. O primeiro, adaptado do conto homônimo; o segundo de alguns capítulos de Memórias Póstumas de Brás Cubas. A mostra exibe ainda o recente A Cartomante, de Wagner de Assis e Pablo Uranga, que definitivamente não faz jus a Machado, e Quincas Borba, em que o grande Roberto Santos (de A Hora e a Vez de Augusto Matraga) erra a mão ao verter para a tela um dos principais romances da fase madura do escritor. Está programada ainda a exibição (provavelmente em vídeo) de alguns programas para a TV feitos a partir de obras de Machado, como Helena, O Alienista e Trio em Lá Menor, com durações variáveis entre 26 e 75 minutos e elenco de gente conhecida como Lúcia Alves, Ruth de Souza, Marco Nanini, Giulia Gam e Letícia Sabatella. Para quem quiser se informar sobre a trajetória do escritor, a dica é assistir ao documentário Machado de Assis - Alma Curiosa de Perfeição, de Maria Maia, também em vídeo. Machado - Hoje, às 16 horas, Dom, de Moacyr Góes; às 18 horas, Memórias Póstumas, de André Klotzel; às 20 horas, Um Apólogo, de Humberto Mauro, e Azyllo muito Louco (1969), de Nelson Pereira dos Santos. Confira o restante da programação no site do Centro Cultural. Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, tel. 3277-3611. De terça-feira a domingo. Grátis - retirar ingressos com uma hora de antecedência. Até 12/6

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