Ciclo no CineSesc traz o melhor do polonês Zanussi

Na quinta de manhã, ao conversar pelo telefone com o repórter do Estado, Krszystof Zanussi estava em Brasília, na casa do embaixador da Polônia. Ele passou o fim de semana em São Paulo e nesta segunda-feira participa da abertura da retrospectiva que lhe dedica o CineSesc. Ursula Groszka, verdadeira embaixatriz da Polônia no Brasil, faz a promoção do evento, mas, como ela esclarece, a curadoria não é sua. Com o título de Retrospectiva do Cinema Polonês, a mostra dedicada a Zanussi privilegia filmes mais recentes e não os antigos, dos anos 60 e 70, que esculpiram a fama do autor. Membro destacado da nowa fala, a nouvelle vague do cinema polonês, Zanussi dirigiu filmes como Estrutura de Cristal, em 1969; Iluminação, em 1973; Camuflagem, em 1977; e Constância, em 1980. O primeiro, considerado pela crítica o melhor filme polonês daquele ano, propõe uma discussão intrigante sobre os limites da pesquisa científica. Tinha tudo a ver com o próprio Zanussi, que foi físico antes de se tornar cineasta. ?A física, nos anos 60, não era só uma ciência. Possuía para nós, poloneses, uma dimensão política muito forte. Fazíamos física contra o regime comunista?, ele explica, acrescentando - ?O problema é que eu gostava de física, mas ela não gostava de mim. Seria, no máximo, um cientista medíocre. Ainda bem que o cinema surgiu em minha vida.? Antes de Estrutura de Cristal, ele cursou a Academia Polonesa e fez pequenos filmes amadores, que o levaram à Escola de Cinema de Lodz, a mais importante da Polônia, onde também se formou Roman Polanski. Zanussi fez curtas elogiados e estreou no longa, em alto estilo, com Estrutura de Cristal. Camuflagem analisa os mecanismos da corrupção e o conformismo do Partido Comunista Polonês, que tinha a sigla Poup, Partido Operário Unificado da Polônia. Mais de um crítico comparou Camuflagem a O Homem de Mármore, de Andrzej Wajda. Constância, que recebeu o prêmio de direção em Cannes, prolonga a crítica à corrupção, e também foi comparado a outro filme de Wajda, Sem Anestesia. Ligado ao sindicato Solidariedade, como Wajda, Zanussi dirigiu João Paulo II - O Papa de Um País Distante, em 1982. Sabia que não estava acrescentando um filme de grande significado artístico ao seu currículo, mas achava importante manter o foco sobre o que se passava na Polônia, na época. Seu cinema costuma ser definido como sociopolítico, mas ele não aceita a definição. Seria necessário acrescentar que ele também é, sempre foi, atraído pelos mistérios não apenas do universo, mas da natureza humana. O fato de haver feito tantos filmes para analisar a corrupção explica-se, segundo ele, por que certas sociedades parecem permitir mais o desenvolvimento de características que fazem parte da natureza do homem. Não pense que a queda do comunismo, há quase 20 anos, arrefeceu o teor da crítica de Zanussi ao regime que, durante tanto tempo, oprimiu operários e intelectuais poloneses. ?Embora fundado na igualdade, o comunismo distribuiu a miséria na Polônia e em todo o Leste europeu. E não estimulava a criatividade. A maioria dos países submetidos ao comunismo permaneceu atada ao atraso?, afirma. Esta crítica ao velho comunismo não impede que também seja contundente ao falar do novo mundo globalizado. ?A diferença é que hoje dispomos de liberdade maior. Não é diferença pequena?, diz Zanussi, que durante muito tempo aproveitou a formação de cientista para medir bem as palavras, evitando problemas com as autoridades polonesas. Num certo sentido, admite que foi privilegiado. Podia entrar e sair do país e, mesmo com cuidado, emitir opiniões que não rezavam pela cartilha oficial. O curioso é que, sendo originalmente ligado à ciência e tendo trazido questões metafísicas para o cinema, Zanussi afirma sua ligação com o mistério. Ser físico ajudou. O fato de ter morado na Itália e de ter feito um filme sobre João Paulo II leva a uma pergunta. Muita gente acha que o ex-papa, trabalhando com Ronald Reagan e Margaret Thatcher, foi um dos artífices do mundo globalizado, com seus aspectos positivos, mas também negativos. ?Não. Na Polônia, a partir de João Paulo e do Solidariedade, tivemos outra coisa. Acabou o egoísmo e isso foi fundamental. Nossa insatisfação é comum, pois o mundo está longe de ser o ideal. O que temos é de vencer o imobilismo, tomar a responsabilidade nas mãos. Foi esse o legado de João Paulo para nós, poloneses. E isso é positivo para todo o mundo.? Retrospectiva Zanussi. Hoje, 15 h, amanhã, 17 h, O Galope; hoje, 17h, amanhã, 15 h, O Toque Silencioso. Amanhã, 19 h, 4.ª, 17h, O Ano do Sol Tranqüilo; amanhã, 21h, 4.ª, 19 h, Constância. 4.ª, 15h, 5.ª, 19 h, Persona Non Grata; 4.ª, 21h, 5.ª, 15 h, A Vida como Doença Sexualmente Transmissível. 5.ª, 17h e 21 h, Esteja Onde Estiver. CineSesc (326 lug.). Rua Augusta, 2.075. R$ 6 a R$ 10. Até 9/11

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