Ciclo no CCBB revela o cinema das três Chinas

Começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil uma retrospectiva do cinema das três Chinas (as outras duas são Hong Kong e Taiwan, que também produziram cinematografias fortes), mapeando a produção dos anos 1987 a 2000. Com curadoria do cineasta e jornalista Gustavo Galvão, o evento vai exibir nove longas assinados por Zhang Yimou, Wong Kar-wai e Tsai Ming-liang, mas também por Edward Young, Wang Xiaoshuai e Zhang Yuan, os dois últimos representantes da nova geração do cinema chinês. O problema da habitação em Taiwan aparece em Viva o Amor e O Rio, os dois filmes de Tsai que integram a programação. Uma corretora de imóveis envolve-se com dois rapazes de classe média no primeiro. A morte é quase uma personagem - a quarta - desse drama que expõe a derrocada sentimental do homem moderno. Rio é ainda mais perturbador. O rio de águas turvas é metáfora de sentimentos incestuosos e proibidos. Pai e filho encontram-se num gueto de homossexuais. Como o francês Robert Bresson, a quem costuma ser comparado, Tsai mostra que a incomunicabilidade, paradoxalmente, pode ser o único caminho para a redenção do homem caído. Chama-se justamente Anjos Caídos o segundo longa de Wong Kar-wai que será exibido durante a programação do CCBB. Kar-wai fez depois dois filmes belíssimos - Felizes Juntos e Amor à Flor da Pele, um sobre uma relação homo, outro sobre uma ligação hetero. Apesar do título, as pessoas que se amam não conseguem ser felizes. Em seu primeiro longa, Amores Expressos, Kar-wai tece uma reflexão sobre o tempo em torno de quatro personagens - dois policiais, uma balconista e uma traficante de drogas. Anjos Caídos vai ainda mais longe na idéia do desencontro, que Kar-wai situa agora no submundo. Outro título enganoso é o de As Coisas Simples da Vida. Edward Yang mostra que as coisas não são simples - pelo menos para o seu personagem de quarentão em crise no trabalho e no casamento. A simplicidade fica por conta do olhar do garoto, o filho, verdadeiro protagonista da história. Munido de uma câmera fotográfica, o menino aponta um caminho para que Yang possa dizer que só com muita maturidade ou, pelo contrário, com muitas inocência, as coisas conseguem ser simples neste louco mundo em que vivemos. Bicicletas de Pequim, de Wanh Xiaoshuai, bebe na fonte de Ladrões de Bicicletas, o clássico neo-realista de Vittorio De Sica, para contar uma história urbana, da nova Beijing capitalista. Em O Outro Lado da Cidade Proibida, Zhang Yuan penetra com sua câmera no universo gay de Pequim. Considerado incômodo pelas autoridades do regime, o filme só não foi proibido porque os negativos estavam na França, que se recusou a devolvê-los, apesar dos pedidos formais do governo chinês. Zhang Yuan virou persona non grata em seu país. Perdeu o passaporte, mas o filme ganhou uma reputação no Ocidente. O cinema ou os cinemas das três Chinas são sob medida para o prazer estético (e a reflexão) dos cinéfilos, que encontram neles tudo - linguagem, política, vida. As Três Chinas - Hoje, 14h, quinta e domingo, 16h, O Sorgo Vermelho (1987, 91 min.), de Zhang Yimou; hoje, 16h, sexta, 14h, sábado, 18h,Bicicletas de Pequim, de Wang Xiaoshuai; hoje, 18h, sábado, 20h,Vive l?Amour, de Tsai Ming-liang. Amanhã, 14h, quinta, 18h, As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang; amanhã, 18h, sexta, 20h, sábado, 14h, Amores Expressos, de Wong Kar-Wai; amanhã, 20h, sexta, 16h, domingo, 14h, O Outro Lado da Cidade Proibida, de Zhang Yuan. Quinta, 14h, sábado, 16h, domingo, 20h, Anjos Caídos, de Wong Kar-Wai. Sexta e domingo, 18h, O Rio, de Tsai Ming-liang.Centro Cultural Banco do Brasil (80 lugares). Rua Álvares Penteado, 112, centro, 3113-3651. De terça a domingo. R$ 4. Até 22/8.Visite o site do CCBB

Agencia Estado,

17 de agosto de 2004 | 10h08

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