Ciclo no CCBB homenageia musas francesas

Houve outras mulheres-crianças antes dela, no cinema francês. Simone Simon e Cécile Aubry anteciparam a tendência, mas foi Brigitte Bardot quem virou umfenômeno, nos anos 50, tão importante, em termos de divisas epromoção nacional, quanto os vinhos e o turismo. Por que issoocorreu? Havia, é claro, o charme e o veneno da própria Brigitte, mas convém não subestimar seu diretor em ... E Deus Criou aMulher. Ele era seu marido, na época. Roger Vadim foi um dosprecursores da nouvelle-vague. Grande amante, casou-se tambémcom Catherine Deneuve e Jane Fonda e impulsionou a carreira dasduas. Nem Simone Simon nem Cécile Aubry tiveram um Vadim em seucaminho.Depois de homenagear Claudia Cardinale, o CentroCultural Banco do Brasil inicia agora o ciclo F comme Femme -Atrizes Francesas de Ontem e Hoje. Brigitte, Jeanne Moreau,Catherine Deneuve, Juliette Binoche, Irne Jacob e Marina Vlady.Walter Hugo Khouri gosta de dizer que o cinema é mulher e assimjustifica seu fascínio pelas mulheres lindas que percorrem suafilmografia, às vezes repetindo-se de um filme para outro. Ociclo do CCBB privilegia as mulheres e atrizes tal como foramfilmadas por homens. Nem todas: é uma diretora, Nicole Garcia,quem despe Catherine Deneuve do seu mito e faz dela umapersonagem humana. Deu certo: Place Vendôme não é muito bom,mas a atriz foi premiada em Veneza pelo papel.Brigitte vista por Vadim, Jeanne Moreau por PhilippeAgostini (Assim Deus Mandou), Juliette Binoche por Léos Carax(Sangue Ruim), Irne Jacob por Krszystof Kieslowski (AFraternidade É Vermelha) e Marina Vlady por Michel Deville(A Mentirosa). É importante fazer a ressalva, porque Jeanne,por exemplo, tem um dos papéis mais atípicos de sua carreira nofilme que o ex-diretor de fotografia Agostini adaptou da obra deGeorges Bernanos (em parceria com Pierre Bruckberger), LesDialogues des Carmélites. A atriz corajosa que protagonizou acena de sexo oral de Os Amantes, de Louis Malle, que foi alibertária Catherine de Jules e Jim - Uma Mulher para Dois,de François Truffaut e a Eva corrosiva de Joseph Losey, faz umacarmelita para Agostini e Bruckberger.Jeanne oculta o corpo que todo cinéfilo conhece de cor.Trabalha no registro da voz e na expressividade da boca e dosolhos, vestida como religiosa. O filme trata de um caso deconsciência durante a Revolução Francesa: as carmelitas preferemsubir ao cadafalso a trair suas convicções (e a confiança quenela depositam os chamados anti-revolucionários). Mas o filme éacadêmico e completamente fora de esquadro no panorama do cinemafrancês por volta de 1960. A França, na segunda metade dos anos50, era um país de velhos. Políticos, intelectuais, artistaseram todos sexagenários e daí para mais. No cinema, havia GérardPhilippe, que era jovem, mas só filmava com os velhos. Ajuventude rebelou-se. Françoise Sagan anunciou a nova onda naliteratura, mas foi no cinema que a nouvelle vague deu suacontribuição mais expressiva, com o movimento de diretores comoTruffaut e Jean-Luc Godard.O ciclo seria outro se mostrasse Brigitte dirigida porGodard (O Desprezo), Jeanne em filmes de Luis Buñuel e OrsonWelles (O Diário de Uma Camareira e Histoire Immortelle), Catherine também dirigida por Buñuel ou Jacques Demy (A Belada Tarde ou Os Guarda-Chuvas do Amor) e Juliette na visãosublime de Kieslowski (A Liberdade É Azul). A própria MarinaVlady, atriz francesa de origem russa que foi casada com Godard,poderia ser vista num filme do marido (Duas ou Três Coisas QueEu Sei Dela). Mas seria difícil encontrar um diretor quemelhor tenha sabido utilizar a graça e o mistério de IrneJacob. Seus melhores filmes foram feitos com Kieslowski (ADupla Vida de Véronique e A Fraternidade É Vermelha).Brigitte Bardot é a própria mulher-criança-vampira nofilme de Vadim. Não se dá conta do efeito destrutivo que provocanos homens ao seu redor. Eles são três: o velho e rico CurdJurgens, o violento Christian Marquand e o ingênuo Jean-LouisTrintignant. Brigitte já tinha feito mais de dez filmes quandoestrelou esse, em 1956. Bastou ela dançar e mostrar-se nua em...E Deus Criou a Mulher para virar um mito. Só paralembrar: esse mito foi tão importante que teve seguidores (ouimitadores) em todo o mundo. Norma Bengell é impagável fazendobeicinho e dizendo "Chérrrrrie" em O Homem do Sputnik, deCarlos Manga, na Atlântida. Na Argentina, como resposta à obrade Vadim, Armando Bo fez ...E o Demônio Criou os Homens, coma latin-bombshell Isabel Sarlí. E tudo começou com Vadim eBrigitte. Dos demais diretores do ciclo, tudo já foi dito sobreKieslowski, o homem que radiografou a alma. A Fraternidade ÉVermelha filtra o grande autor polonês pela ótica do AlbertCamus de A Queda. A talentosa Irne faz a modelo que irrompe, por acaso, na vida de um juiz, penitente e voyeur - opersonagem de Jean-Louis Trintignant -, que vive espionando(pela escuta) a vida dos outros. É um filme denso e perturbador,mas qual filme de Kieslowski não é?Léos Carax fez sensação com a metáfora da aids contidaem Sangue Ruim. O filme com Juliette Binoche era defendidocom paixão por Walter Salles. Continuará Waltinho fã doneobarroco e pós-moderno Carax? Finalmente, Deville. AMentirosa pertence à fase das comédias do começo da carreirado diretor, quando ele era casado com a roteirista NinaCompanaez. Já separado dela, Deville revelou uma complexidade eum gosto pela perversão - em filmes como A Vítima porTestemunha e Uma Leitora muito Particular - cujos gérmensnão se encontram na adorável, mas frívola, comédia do CCBB.F... Comme Femme ? Atrizes Francesas de Ontem e Hoje. Até domingo no Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, fone 3113-3651, Centro.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.