Ciclo mostra o olhar feminino no cinema

Existe algo que seja específico do olhar feminino no cinema? Em torno dessa questão se organiza o ciclo São Paulo - Cidade das Mulheres, de hoje a 13 no Cinearte. São oito filmes, sete deles dirigidos por mulheres, e um, que se debruça sobre o universo feminino, mas é assinado por um diretor - Carlos Reichenbach. Trata-se do inédito Garotas do ABC, que abre o ciclo na noite de hoje, em sua primeira exibição em São Paulo, antes de entrar em cartaz no circuito comercial. Os outros longas-metragens programados são, pela ordem, Uma Vida em Segredo (Suzana Amaral), Terra Estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomas), Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodanski), Durval Discos (Anna Muylaert), Alô (Mara Mourão), Narradores de Javé (Lili Caffé) e Através da Janela (Tata Amaral). O ingresso poderá ser trocado por um quilo de alimento não perecível. Após as sessões, haverá debates com as realizadoras, moderados pela jornalista Maria do Rosário Caetano. A questão que inspira o ciclo é inesgotável e não exclusiva do cinema. Na literatura, muito já se discutiu sobre a escrita feminina, se ela seria, na forma, diferente da masculina. No entanto, esse tipo de debate tende a se concentrar na escolha temática. Então, em tese, mulheres se preocupariam mais com o universo feminino, que seria esquecido, ou tratado de forma preconceituosa ou inadequada, por um cinema essencialmente masculino. A contraprova fica a cargo do primeiro filme programado, Garotas do ABC, que se debruça sobre o mundo das operárias têxteis do ABC paulista. O filme gerou debate quando apresentado no Festival de Brasília do ano passado, em especial porque, além de ambientado tanto no trabalho como no lazer das operárias, passa pelo fenômeno do neonazismo, que nasce justamente nos arredores industriais mais desenvolvidos. Será interessante, no entanto, que as debatedoras avaliem o quanto um diretor homem foi feliz ou não ao retratar a intimidade das personagens. Afinal, Garotas do ABC faz um interessante contraponto entre o tempo de trabalho e o tempo livre das moças - e neste elas namoram, dançam e sonham. O filme as retrata com sentido de verdade, ou filtra essa realidade pela fantasia masculina a respeito delas? No mais, o que se vê nos filmes programados é sua diversidade, tanto temática quanto estilística, pelo menos em aparência. Dois deles, Uma Vida em Segredo e Através da Janela, buscam o intimismo como estratégia e tática narrativa. Em especial o primeiro, um filme de câmara, centrado numa vida "menor". Já Através da Janela busca o olhar materno sobre um mundo que não traz referências ou portos seguros para a compreensão dos filhos. Já os outros, tematicamente, não são vinculados ao universo feminino. Resta ver se é possível flagrar, em sua feitura, seu gênero de origem. Vê-los, em bloco, e sob essa ótica, pode ser revelador.Confira programação: Hoje: Garotas do ABC, de Carlos Reichenbach , terá sessão de pré-estréia às 21h. As demais serão às 19h.Amanhã: Uma Vida em Segredo, de Suzana Amaral Dia 8: Terra Estrangeira, de Daniela Thomas e Walter Salles Dia 9: Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky Dia 10: Durval Discos, de Anna Muylaert Dia 11: Alô!, de Mara Mourão Dia 12: Narradores de Javé, de Eliane Caffé Dia 13: Através da Janela, de Tata Amaral Cinearte (av. Paulista, 2.073, piso térreo, São Paulo, tel. 0/xx/11/3285-3696. O ingresso custa só um quilo de alimento nãoperecível

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