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Ciclo Mastroianni celebra a arte do ator em São Paulo

Sete filmes expõem a excelência de um intérprete que nunca se condicionou às exigências da imagem

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2016 | 04h00

Marcello Mastroianni nasceu em Fontana Liri, em 28 de setembro de 1924. Morreu em Paris, em 19 de dezembro de 1996 – há 20 anos! Como todo ano, o Festival Italiano promove uma retrospectiva, a título de aquecimento. A deste ano privilegia a arte do ator. Terá a participação da crítica italiana Cristina Colet, considerada especialista na vida e obra de Mastroianni. Cristina terá um encontro com o público antes da exibição de Um Dia Muito Especial, de Ettore Scola, nesta segunda-feira, 14, no MIS. 

O ciclo dedicado a Mastroianni prossegue até domingo, 20, com entrada franca. É formado por sete títulos e, além do clássico de Scola também interpretado por Sophia Loren, deve mostrar – Allonsanfan, dos irmãos Taviani; O Belo Antônio, de Mauro Bolognini; Casanova 70, de Mario Monicelli; Os Companheiros, outro Monicelli; Matrimônio à Italiana, de Vittorio de Sica, outra parceria com Sophia Loren; e A Noite, de Michelangelo Antonioni. Nenhum de Federico Fellini, o autor de quem ele se tornou o alter ego na tela. Completam as exibições, uma exposição de fotos.

A escolha parece sob medida para questionar o mito de Mastroianni, que esculpiu a imagem do latin lover, mas nunca se prendeu a ela. O Belo Antônio, com roteiro de Pier Paolo Pasolini, baseia-se no romance de Vitaliano Brancati que coloca em xeque o macho italiano. Antônio é bom no bordel, mas não consegue concretizar o casamento. O afeto paralisa-o. Seu pai fascista, querendo mostrar que o ‘defeito’ do filho não é genético, morre do coração numa noitada com prostitutas e a mãe de Antonio conta à nora/Claudia Cardinale, selando a desmistificação, que o marido demorou dois anos (dois!) para consumar o casamento.

Em Um Dia Muito Especial, Scola promove o encontro do dona de casa com o gay. Todo o prédio foi para uma comemoração fascista. Sobraram os dois, Mastroianni e Loren. Em Casanova 70, mesmo na pele do mítico sedutor, Mastroianni continua colocando na tela a dificuldade de afirmação do macho, que não funciona em condições, digamos, ‘normais’. O herói precisa simular desafios, situações de perigo. Em vez de entrar pela porta, tem de escalar a parede do prédio para dormir com a amante do dia (ou da noite). Pobre Casanova! Dois outros filmes do programa situam os personagens de Mastroianni como traidores de classe. O professor Sinigaglia de Os Companheiros renega os seus ao virar agitador nos primórdios do movimento sindical italiano. E o aristocrata de Allonsanfan vive contradições extremas. Reintegra-se ao berço esplêndido, mas os antigos amigos vêm lhe cobrar de novo a participação na revolução.

É o que basta para que Paolo e Vittorio, os irmãos Taviani, reflitam sobre a crise da utopia – em 1974, bem depois da ressaca produzida pelo Maio de 68. E não se pode esquecer do escritor de A Noite, segunda parte da trilogia da solidão e da incomunicabilidade de Antonioni, episódio intermediário entre A Aventura e O Eclipse. O filme passa-se durante um dia da vida de um casal. Eles começam visitando um amigo no hospital e, à noite, vão a uma festa. Pela manhã, estão exauridos emocionalmente. A mulher, Jeanne Moreau, lê uma carta. A elegância e contenção de grandes atores não têm limite. Que o digam Mastroianni e Moreau.

CICLO MASTROIANNI

MIS. Av. Europa, 158. Telefone: (11) 2117-4777. 2ª (14), a partir das 19h. Grátis (retirar ingresso 1h antes). Até 20/11.

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