Ciclo investiga a imagem dos bandidos no cinema

Bandidos Anti-Sociais é o curioso título da mostra que Centro Cultural Banco do Brasil realiza de hoje ao dia 30. Reúne filmes clássicos como Dr. Mabuse, o Jogador, Scarface, a Vergonha de uma Nação, Acossado e Pickpocket. Outros nem tão clássicos como Os Imorais, Sonatine, Os Olhares de Tóquio e Jackie Brown, além do nacional Bang Bang, de Andrea Tonacci. A idéia do curador Paulo Santos Lima parte, por confronto, da tese de Eric Hobsbawm sobre os "bandidos sociais" (tipo Salvatore Giuliano, por exemplo). Em Bandidos, o historiador marxista estuda as razões sociais do crime mas, lembra o curador, em geral o cinema prefere retratar o individualista clássico, que opera à margem por propósitos egoístas e, por algum motivo, seduz as platéias.Bem, essa é a tese, mas o que importa mesmo, nas mostras, são os filmes e eles são ótimos, alguns deles notáveis. São os casos dos dois mais antigos, Dr. Mabuse, de Fritz Lang, e Scarface, de Howard Hawks, que muitos anos depois foi refilmado por Brian De Palma. Mabuse é um exemplar do expressionismo alemão e mostra um bandido que usa até de hipnotismo para fazer suas vítimas, técnica bastante apropriada para um tipo de cinema que conta com a deformação de imagens para exprimir o mundo interior. Já o Scarface é considerado um clássico de cenas antológicas, como aquela do gângster que desmonta ao mesmo tempo em que os pinos de boliche caem. Esses filmes dos anos 20 e 30 - e também os do final dos anos 50 (Acossado, de Godard, e Pickpocket, de Bresson, são ambos de 1959) - mostram a importância do trabalho da imagem, algo que parece perdido pelo cinema contemporâneo. Hoje fia-se demais nos efeitos especiais, e se esquece, com freqüência, que o cinema é, também, uma arte visual, que precisa ser trabalhada e refinada a cada cena.A mostra Bandidos Anti-Sociais traz clássicos mas também contemporâneos, alguns, dentre eles, passíveis de se tornarem, por sua vez, clássicos do futuro. É o caso de Vermelho Sangue, do cineasta mexicano Arturo Ripstein, tido por alguns como uma espécie de continuador informal de Luis Buñuel, de quem foi assistente. Vale também rever Adrenalina Máxima, título brasileiro de Sonatine, um dos belos trabalhos de Takeshi Kitano, cujo gume crítico tem se atenuado com o sucesso. Outro digno de ser visto é Jackie Brown, o pouco valorizado terceiro longa-metragem de Quentin Tarantino. Um belo filme, de ritmo suave, denso e humanista. Bang Bang, de Andrea Tonacci, o solitário representante nacional da retrospectiva, é, talvez, o mais surpreendente e moderno, do ponto de vista formal, com sua descontinuidade narrativa e busca de situações esdrúxulas como estratégia de relato. Completam a série proposta pelo Centro Cultural Os Imorais, de Stephen Frears, e Os Olhares de Tóquio, de Jean-Pierre Limosin.

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