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Ciclo, exposição e trilhas no tributo a Truffaut

Cinemateca Francesa presta homenagem aos 30 anos da morte do diretor, um dos maiores nomes da nouvelle vague

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2014 | 02h05

Em 1955, com 23 anos, o cineasta francês François Truffaut (1932-1984) fez seu primeiro filme, o curta-metragem Une Visite (Uma Visita), rodado no apartamento do roteirista, crítico e ator Jacques Doniol-Valcroze (1920-1989). Truffaut mentiu durante anos sobre o destino desse filme. Dizia que a única cópia existente desaparecera, mas, pouco antes de morrer, em 1983, fez uma sessão para os amigos, que então puderam ver o curta de oito minutos sobre um jovem que tenta seduzir a garota com quem vive. Não era nada especial, mas tinha Alain Resnais como montador e Jacques Rivette como fotógrafo. Agora, com a homenagem que a Cinemateca Francesa presta ao cineasta nos 30 anos de sua morte, toda a filmografia de Truffaut está à disposição do público, inclusive outros filmes seus dos quais igualmente não gostava, como A Noiva Estava de Preto, considerado por ele uma obra "decepcionante".

Além da retrospectiva, que segue em novembro com três de seus longas - Os Incompreendidos (dia 17), O Último Metrô (dia 20) e O Garoto Selvagem (dia 27) - a Cinemateca Francesa mantém aberta até 25 de janeiro a mais completa exposição sobre a vida do cineasta, reunindo documentos inéditos recentemente descobertos graças ao esforço de colaboradores próximos do cineasta. A mostra refaz o itinerário de Truffaut, delinquente juvenil salvo das ruas pelo grande teórico de cinema André Bazin (1918-1958). Ela traz sequências de ensaio de seus atores, fotos de cena, figurinos de filmes, cartas, diários e roteiros anotados pelo diretor.

Bazin foi o mentor intelectual de Truffaut, que, rejeitado pela mãe e o padrasto, cometeu pequenos furtos na adolescência e foi parar num reformatório. Aos 14 anos, ele abandonou a escola. Sob custódia da polícia, Truffaut parecia ter o destino traçado, exatamente como o errante personagem de seu primeiro longa, Os Incompreendidos (1959), inspirado em sua experiência pessoal e marco da nouvelle vague francesa. Bazin, procurado por psicólogos da instituição, prometeu dar emprego ao garoto selvagem no cineclube criado pelo ensaísta, um dos fundadores da conceituada revista Cahiers du Cinéma, que revelou Truffaut como crítico. Foi lá que o futuro cineasta defendeu, num texto de 1954, o cinema de autor, em oposição ao cinema industrial, que não reconhece o direito do diretor sobre seus filmes.

Assistente de produção de Rossellini em 1956, Truffaut criou a própria produtora no ano seguinte (Les Films du Carrosse), amparado financeiramente pela esposa Madeleine Morgenstern. Foi com seu dinheiro que ele produziu Os Incompreendidos, iniciando uma série de cinco filmes da saga de Antoine Doinel, nome do personagem delinquente que lançou o ator Jean-Pierre Léaud, ícone da nouvelle vague. Léaud trabalharia depois com Godard, amigo de Truffaut até o rompimento dos dois nos anos 1960.

A MK 2 francesa, em tributo aos 30 anos da morte do diretor, está relançando a filmografia completa (21 filmes) do cineasta, parcialmente coberta no Brasil com três caixas da Versátil, entre elas o pack As Aventuras de Antoine Doinel (texto nesta página), que reúne os cinco filmes protagonizados por Léaud e que acompanham a trajetória do personagem, da infância aos 35 anos, passando por seu casamento e divórcio.

Experiência inédita na história do cinema, que seguiu durante 20 anos (de 1959 a 1979) a vida de um personagem, ela foi copiada pelo cineasta americano Richard Linklater no recente Boyhood, filmado ao longo de 12 anos e que acompanha a infância e adolescência de um menino introspectivo.

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