Ciclo do CCBB revisita o expressionismo

Existem movimentos, na história do cinema, que extrapolam o momento em que surgiram e exercem uma influência que nunca termina. Nenhum é mais representativo do que o expressionismo, que emigrou da Alemanha para Hollywood e influenciou, com seu estilo de iluminação contrastada, o chamado filme noir. Mais recentemente, os críticos viram a influência expressionista também no cinema de David Lynch, o que não deixa de ser curioso, pois elementos surreais também animam a obra deste diretor. Na verdade, a questão do expressionismo é tão complexa que talvez Orson Welles seja mais expressionista do que Friedrich Wilhelm Murnau, a quem se deve um título fundamental do movimento - Nosferatu, de 1922. Todas essas questões surgem a propósito de um ciclo já exibido no Rio, que se desenrola atualmente em Brasília e desembarca hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.Expressionismo Revisitado apresenta uma seleção de 22 filmes que mapeia mais de 80 anos da história do cinema. São títulos em película e DVD. Encontram-se desde expressionistas históricos, como Robert Wiene, Fritz Lang e Murnau, até neoexpressionistas como Ingmar Bergman, Roman Polanski, Lynch e Welles. A curadoria é do jornalista e cineasta Gustavo Galvão.Historicamente, o marco zero do expressionismo cinematográfico é O Gabinete do Dr. Caligari, que Robert Wiene realizou em 1919. Antes disso, o expressionismo irrompera na pintura com o célebre quadro de Edward Munch O Grito, que data do final do século 19 e foi uma reação do artista à ditadura do impressionismo, garantem os estudiosos. Há cem anos, em 7 de junho de 1905, foi fundado em Dresden o grupo Die Brücke (A Ponte), que iniciou o expressionismo nas artes plásticas. Em maio, há 90 anos (1915), nasceu Orson Welles, que morreu há 20 anos (em 1985). O próprio Caligari, embora produzido em 1919, também está completando 85 anos, pois foi lançado nos cinemas alemães em fevereiro de 1920. São várias datas redondas ligadas ao expressionismo em 2005. Além de Caligari e O Golem, títulos conhecidos do expressionismo alemão integram a seleção do CCBB - Nosferatu, A Última Gargalhada e Fausto, de Murnau; A Morte Cansada, Metrópolis e M., o Vampiro de Düsseldorf, de Fritz Lang; e O Gabinete das Figuras de Cera, de Paul Leni. A esses títulos soma-se o mais raro Segredos de uma Alma, de Georg Wilhelm Pabst, de 1926, que trata de amor e sexo e ostenta a fama de ser o primeiro filme assumidamente psicanalítico do cinema. A parte mais intrigante e provocativa da programação é a ponte entre o expressionismo dos anos 1920 e obras como Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder; Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock; O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman; A Marca da Maldade, de Orson Welles; Repulsa ao Sexo, de Roman Polanski; Spider, de David Cronenberg; A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, de Tim Burton; Cidade dos Sonhos, de David Lynch; e Nina, de Heitor Dhalia. São todos filmes que, de diferentes formas, tratam de temas ligados à deformação da mente. Hitchcock e Burton têm um pé no gótico, Lynch é surrealista. Como os expressionistas históricos, os neoexpressionistas não se interessam pela representação da realidade concreta. São atraídos pelas emoções e reações subjetivas que objetos e eventos podem provocar no artista e que ele trata de ´expressar´ por meio da exageração e do simbolismo. É o que forma a base do expressionismo.Leia mais em Expressionismo, de Caligari e LynchExpressionismo Revisitado - CCBB São Paulo. Rua Álvares Penteado, 112, Centro. Tel.: (11) 3113-3651. Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada). Até 5/05

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