Ciclo de filmes de Ingmar Bergman no CCSP

Na babel de linguagens do cinema atual sempre é bom voltar, nem que seja provisoriamente, à sólida dramaturgia de um Ingmar Bergman. Certo, Bergman não é a única possibilidade de cinema no mundo. O cinema é múltiplo, há lugar para todos os gostos, é cultura e entretenimento, etc. e tal. Mas, como negar que o mestre sueco atingiu um dos pontos mais altos dessa arte que nasceu como diversão de feira e talvez esteja voltando a sê-lo? Nesse sentido, o Centro Cultural São Paulo apresenta boa retrospectiva, sobre a qual há apenas um senão. Somente quatro dos títulos são apresentados em película: A Fonte da Donzela, o Sétimo Selo, Morangos Silvestres e Gritos e Sussurros. Os outros vêm no suporte VHS. A informação é importante: o trabalho de cor (em alguns casos) e de textura se perdem na versão em vídeo. Foram pensados para película 35 milímetros e só nela ganham expressão. Assim, assistir a filmes como A Flauta Mágica ou A Hora do Lobo num telão é como contemplar Vista de Delft, de Vermeer, numa reprodução gráfica de segunda linha. Mas é melhor isso do que nada. E, de qualquer forma, sobram os quatro títulos que serão exibidos em seu suporte adequado. Há esse duo de obras - A Fonte da Donzela e O Sétimo Selo - que se desenvolvem na Idade Média e partilham do mesmo estilo visual. A Fonte traz um país ainda dividido entre o paganismo e o catolicismo, no século 14. Nessa lenda, em que uma jovem é estuprada e no lugar do crime nasce uma fonte milagrosa, fala-se de intolerância humana e intolerância religiosa, temas interligados que nunca saíram do imaginário calvinista de Bergman. O Sétimo Selo também se passa no medievo. É dos Bergman mais conhecidos com sua história do cavaleiro (Max von Sydow, que acaba de dar uma aula magna em Cannes) jogando xadrez contra a morte numa época ameaçada pela peste. O filme foi feito em 1956 e pareceu ao diretor uma alegoria adequada para a situação européia da época. Saída da 2.ª Guerra Mundial, via-se agora espremida entre as duas superpotências. A ameaça nuclear pairava sobre a cabeça da humanidade como a peste já o fizera - e ambas contra um pano de fundo de intolerância, seja religiosa, seja ideológica ou política. Talvez não haja na filmografia de Bergman filme tão belo e humanitário quanto Morangos Silvestres. Mas é também um comentário sobre a intolerância. Afinal, o professor Isak Borg (Victor Sjöström) é um poço de egoísmo sob a aura de uma vida dedicada ao bem-estar dos outros. Ele é o médico famoso, que atravessa o país para receber um prêmio. No caminho, aproveita o tempo livre para acertar as contas de sua vida e é testado pela companhia de sua nora (Ingrid Thulin) e por um grupo de jovens a quem dá carona. A vida do doutor Borg é assim passada a limpo e Bergman parece sugerir que nunca é tarde para uma pessoa se abrir para a vida, por mais que uma afirmação dessas possa parecer banal e piegas hoje em dia. Já Gritos e Sussurros talvez seja o Bergman mais radical, e aqui é fundamental mesmo que o filme seja exibido em película, pois o trabalho com as cores define a sua linguagem. Vermelho-sangue e branco estruturam esse encontro de mulheres, no qual uma delas está à morte. Claro, o filme fala também do imaginário dessas personagens, de suas invejas, frustrações, etc. Mas o fundamental seria a atitude delas diante da morte. Como esta entra em seu imaginário, como se constitui, afinal, naquele irredutível humano diante do qual as palavras parecem mesmo vazias e despidas de sentido. Gritos e Sussurros é talvez a maior aproximação já tentada por um cineasta a esse tema-tabu, a esse insondável, chamado por Lacan de Real, porque dele não se pode falar. Os outros trabalhos de Bergman, estes apresentados em VHS, são: Cenas de um Casamento, Olho do Diabo, A Hora do Lobo, O Ovo da Serpente, Sonata de Outono e A Flauta Mágica. Lanterna Mágica - Retrospectiva Ingmar Bergman. De terça a domingo. Centro Cultural São Paulo - Sala Lima Barreto. Rua Vergueiro, 1.000, tel.: 3277-3611, metrô Vergueiro. Até 23/5.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.