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Ciclo com irmãos Taviani é uma lição de cinema

‘César Deve Morrer’ e ‘Noites com Sol’ ainda podem ser vistos em retrospectiva da produção dos diretores italianos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2013 | 19h27

Público fiel, embora pequeno, vem acompanhando no MIS a retrospectiva dos irmãos Taviani, promovida pelo Festival do Cinema Italiano. A mostra está no fim, mas ainda há tempo para curtir dois filmes dos “fratelli” – César Deve Morrer e Noites com Sol.

Dos dois, César Deve Morrer é o mais conhecido, mesmo porque valeu aos irmãos o Urso de Ouro em Berlim. Foi um signo de ressurreição, em especial para aqueles que já consideravam Paolo e Vittorio aposentados em provecta idade. Nada disso. Voltaram com todo o frescor com os bastidores da montagem de Júlio César, de William Shakespeare, pelos detentos da prisão de Rebibbia, em Roma.

Noites com Sol é também a adaptação de um clássico – Padre Sérgio, de Leon Tolstoi. História do homem que, após uma desilusão amorosa, decide se dedicar à religiosidade e à meditação. Mas tem os propósitos espirituais ameaçados por uma mulher linda e sedutora. Música de Nicola Piovani, que assina a trilha de vários trabalhos dos irmãos, inclusive a de Kaos, talvez seu ponto mais alto como compositor de cinema.

O fato é que quem seguiu a mostra pôde reviver filmes que foram sucesso do circuito cult no Brasil, em especial nos anos 1980.

Allonsanfàn, A Noite de São Lourenço, Kaos e, acima de todos, Pai Patrão, colocaram os Taviani como grandes nomes do cinema italiano, continuadores, com estilo próprio, da tradição cinematográfica de Roberto Rossellini, Federico Fellini, Luchino Visconti e Michelangelo Antonioni.

Esse pequeno público cinéfilo de São Paulo pôde rever as obras em magníficas cópias em 35 mm cedidas pela Cineteca Italiana. Foram sessões de pura fruição cinefílica na sala do MIS, a demonstrar que, se o digital faz progressos inegáveis, ainda está longe de rivalizar com texturas e matizes de cores da película. Só não vê quem não quer. Em especial em obras como a dos Taviani, diretores cultos, toscanos, bastante influenciados pela pintura do seu país.

Em A Noite de São Lourenço, por exemplo, relato do final da 2.ª Guerra, com a cidadezinha dinamitada pelos nazistas, há momentos de pura magia pictórica, com cenas iluminadas aparentemente apenas por velas, fogueiras ou pelo luar. O mesmo para Kaos, livre adaptação de alguns contos de Luigi Pirandello presentes em suas Novelle per un Anno. A versão apresentada foi a que contém um prólogo, os episódios O Outro Filho, Mal da Lua e A Jarra, além do epílogo Colóquio com a Mãe – momento de pura epifania cinematográfica. Nele, Pirandello (Omero Antonutti) volta à Sicília atendendo a enigmático chamado. O relato da mãe, de uma passagem de sua infância, é comovente, cheio de alusões em regime de simplicidade absoluta, impossível de ser captada pela literatura, como se queixava o filho, escritor famoso.

Quem assistiu ao ciclo pôde ver obras menos conhecidas dos irmãos, como Os Subversivos, influenciado pela Nouvelle vague, e o alegórico Sob o Signo de Escorpião. Este, mostrando o que acontece quando sobreviventes de erupção em uma ilha vulcânica buscam abrigo em local semelhante do qual fogem. Aquele, um retrato das esperanças e impasses da esquerda italiana diante da morte de um ícone do Partido Comunista, Palmiro Togliatti (1893-1964). São aulas de cinema.

IRMÃOS TAVIANI

MIS. Av. Europa, 158, tel. 2117-4777. Quarta, 18h30, ‘César Deve Morrer’; 20h, ‘Noites com Sol’. R$ 10

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