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Cícero Filho, um diretor que chora e resiste

Em Tiradentes, Murilo Salles mostra o processo criativo do cineasta maranhense em 'Passarinho Lá de Nova Iorque'

Luiz Carlos Merten/Tiradentes, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2014 | 02h07

Depois de DJ Duda, que apresentou na Semana dos Realizadores, no Rio, Murilo Salles trouxe à Mostra de Tiradentes seu novo documentário, Passarinho Lá de Nova Iorque. O diálogo é total com o filme anterior. Se em DJ Duda Salles traçou o perfil de um animador cultural à margem do sistema formal de entretenimento, ele apresenta agora um cineasta totalmente fora do eixo. Cícero Filho, do interior do Maranhão, é um artesão do seu ofício, mas sonha com o profissionalismo. Filma em digital, exibe seus filmes - cobrando ingresso - em escolas. E como Woody Allen, ele acredita nos retakes.

Toda a luta de Cícero, enquanto finaliza o novo filme - que Salles não mostra -, é para refazer uma cena com a qual não ficou satisfeito. É uma cena intensa no estrutura do filme que não vemos. Uma mãe que chora o filho morto. Câmera na mão, olho no visor, Cícero chora acompanhando a cena. O diretor que chora não é um personagem estranho nessa 17.ª Mostra de Tiradentes. Passarinho Lá de Nova Iorque passou no domingo à noite. À tarde, o evento exibiu Amador, de Cristiano Burlan, em que outro cineasta também chora.

Burlan ficcionaliza sua dor. O título, Amador, não é casual. O diretor do admirável Mataram Meu Irmão terminou com a mulher, que também era sua produtora. E agora procura um rosto feminino para outro filme. Na cena em que chora, a câmera executa um movimento e capta outra câmera que, sozinha, sem operador, continua filmando (gravando?).

Tiradentes apresenta este ano uma programação inteiramente digitalizada. Filmes feitos e projetados digitalmente. Numa cena de Amador, o diretor do filme dentro do filme fala com o projecionista. Nesta nova economia do cinema, o projecionista vai desaparecer. Ele projeta suas últimas películas. A luz do projetor, incidindo na película que roda, lança uma imagem no chão. Cristiano filma aquilo, enquanto o projecionista diz que aquela imagem no chão também vai acabar.

O projecionista, o rebatimento do filme no chão - além de emocionante, a cena é exemplar dentro dessa transição que Tiradentes celebra. É uma outra forma de focar a mudança da película para o digital. Passarinho já pertence a essa outra economia do cinema. O digital, a internet, eis o que torna o fenômeno Cícero Filho possível. É um personagem maravilhoso, que permite a Murilo Salles levar adiante sua reflexão sobre o que é, afinal, a brasilidade. Salles é um diretor político, um autor. Cícero é ele e, no personagem, Salles celebra a resistência, a capacidade que o cinema brasileiro tem de se (re)inventar. Qual é a vida desse cinema de Cícero, de Salles? Murilo diz que o importante é fazer. Os filmes encontrarão seu espaço. É belo, é romântico, mas existe outra questão. Hollywood domina os mercados. Não vai desistir. As salas terão de continuar existindo, a pirataria será combatida, porque o dinheiro vem das milhares (milhões?) de salas e do mercado legal de home. Cícero, que quer se profissionalizar, continuará sendo um amador. Amando a dor?

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