EFE/Sebastien Nogier
EFE/Sebastien Nogier

'Chronic', uma lição de compaixão

Filme do mexicano Michel Franco incomoda Cannes ao acompanhar rotina de enfermeiro de pacientes terminais

Luiz Carlos Merten/CANNES, O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2015 | 18h00

Ainda falta exibir um filme importante do 68.º Festival de Cannes e há uma tradição segundo a qual, em toda a história do evento, a maioria dos filmes que ganha a Palma de Ouro passa nos últimos dias, ou mais exatamente – no último dia. Hoje à tarde (23), horário daqui, a crítica anuncia seus vencedores e, amanhã à noite, o júri presidido pelos irmãos Ethan e Joel Coen também encerra o suspense. Mas o filme que ainda falta e será exibido agora pela manhã para a imprensa é o Macbeth do australiano Justin Kurzel. Depois da versão expressionista de Orson Welles e da erótica e sanguinolenta de Roman Polanski – produzida por Hugh Heffner, da Playboy –, Kurzel promete um Macbeth sombrio e noturno, bem dentro da tradição shakespeariana. E há a expectativa do elenco. Michael Fassbender como Macbeth e Marion Cotillard como sua lady.

Os irmãos Weinstein, produtores que fizeram história em Cannes (e Hollywood) com sua empresa Miramax, apostam que os dois estarão no próximo Oscar. Ficou todo mundo tão feliz – o diretor com seu elenco, os atores, como solistas, com seu maestro – que o trio deve se reunir de novo para a adaptação do game Assassin’s Creed, que já originou uma interessantíssima série de livros.

Kurzel fez história com um filme violento e degenerado, Os Crimes de Snowtown, superpremiado na Austrália. Aí vem ele com sua história cheia de som, e fúria, contada por um bobo. A floresta vai marchar de novo e, com ela, o ambicioso Macbeth vai para o inferno, não sem antes se redimir de seus crimes de arma na mão, num derradeiro ato de coragem. O curioso é que, no Brasil, Vinicius Coimbra também está fazendo o seu Macbeth. Diretor do premiado (no Festival do Rio) e até hoje inédito A Hora e a Vez de Augusto Matraga, com João Miguel, Coimbra tem temperamento para fazer da sua adaptação um monumento dramatúrgico à altura do original. O que se espera é que seu Matraga desencante e chegue aos cinemas, até para alimentar a expectativa do seu Macbeth. O de Kurzel, e Fassbender, e Marion, será distribuído no Brasil pela Diamond. Qual será sua vitrine – o Festival do Rio? A Mostra de São Paulo?

Ontem pela manhã, 22, passou para a imprensa um dos filmes mais impressionantes desse festival – Chronic, do mexicano Michel Franco. É o ‘latino’ da competição, mas visto por esse lado seria decepcionante – falado em inglês, filmado nos EUA. Só que Crônica é muito bom. Lentamente, o espectador vai se introduzindo na intimidade do personagem de Tim Roth, por um relato que subverte tudo, gêneros e expectativas.

Roth faz um enfermeiro que acompanha pacientes terminais. Ele não é só um profissional no exercício de uma atividade difícil. Roth deixa que seus sentimentos fluam, envolve-se com os pacientes. Chega a ser acusado de abuso sexual pela família de um deles. Viver não é fácil, diz o protagonista de Love, após 2h15 de sexo selvagem no filme do franco/argentino Gaspar Noë. Morrer também não é, diz agora Michel Franco.

Seu filme fará lembrar a alguns o celebrado Amour/Amor, de Michael Haneke, com Jean-Louis Trintignant como marido da terminal Emmanuelle Riva. Os casos não são fáceis. Pacientes vomitam por causa da quimioterapia, não seguram os intestinos nem a bexiga. Mas esse triste espetáculo da decadência humana não é filmado para provocar nem escandalizar. O próprio Gaspar Noë, falando na sexta, 22, com o repórter das cenas de sexo (em 3D) de Love, disse que seria infantil fazer um filme para provocar. “Coisa de criança mimada”, cravou.

Ele filma o sexo porque é visceral. “Desconfio de quem não o considera energia vital.” Michel Franco filma com compaixão. Ninguém é santo nem demônio. Tim Roth tem angústias que o consomem. Digamos que 99% da crítica discorde do repórter – Amor virou uma tal unanimidade. Mas Haneke é um misantropo que finge ser compaixão a barreira que, em todo o seu cinema, o faz olhar ‘de fora’ para o sofrimento humano. Michel Franco filma ‘de dentro’. Ele não carrega na dramaticidade, mas o sentimento é genuíno. Mesmo que não leve a Palma, um prêmio para Tim Roth seria bem-vindo. 

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