Melinda Sue Gordon/Warner Bros.
Melinda Sue Gordon/Warner Bros.

Christopher Nolan fala sobre filmar 'Dunkirk': "foi uma experiência assustadora"

Cineasta não queria fazer um típico filme de guerra e então criou um longa de suspense e sem nenhum traço de sangue

Cara Buckley, THE NEW YORK TIMES

27 Julho 2017 | 06h01

BURBANK - Não surpreende que a Segunda Guerra Mundial domine a imaginação do diretor Christopher Nolan, considerando os apocalipses, os submundos e as paisagens de sonho que brotaram de sua mente fértil.

Ele evocou mundos subterrâneos povoados por gente tatuada que sofre de amnésia e melancólicos super-heróis; mergulhou os espectadores em devaneios povoados de imagens de Escher como sonhos dentro de sonhos; testou a capacidade do público de compreender o buraco de minhoca e a singularidade gravitacional.

Mas com esse novo filme, Dunkirk, que será lançado nesta quinta, dia 27, o britânico Nolan se aventura no mundo impiedoso de uma guerra real.

“É a primeira vez que eu me inspiro em um tema real, em uma verdade histórica; foi uma experiência muito assustadora”, confessou.

O filme trata do impressionante resgate de 338 mil soldados aliados das praias de Dunquerque, na França, no conflito que durou de 25 de maio até 4 de junho de 1940. Cercados pelas forças alemãs, os aliados ficaram encurralados enquanto os aviões alemães os metralhavam e bombardeavam a praia, com a única saída para o Canal da Mancha. As águas rasas impediam que os destróieres britânicos se aproximassem, de modo que foi preciso apelar aos proprietários de embarcações na Inglaterra para que ajudassem os soldados a fazer a travessia em segurança.

Centenas de lanchas, barcaças, iates, balsas e barcos de pesca foram ao mar e, sob intenso bombardeio da Luftwaffe, puderam resgatar os soldados. Se não tivessem feito isso, talvez a guerra tomasse um rumo muito diferente. “Se a Grã-Bretanha tivesse se rendido, teria efetivamente permitido que os nazistas subjugassem a Europa”, afirmou Joshua Levine, historiador inglês que trabalhou com Nolan no roteiro.

“O realizador procura as lacunas da cultura, pelo menos na cultura popular; procura coisas que não foram tratadas nos filme”, ele disse. “E o episódio de Dunquerque, seja qual for a razão, nunca foi tratado no cinema moderno”.

Nolan, de 46 anos, cresceu em Chicago e em Londres, mas o seu sotaque, a maneira de ser e a aparência – cabelo despenteado de estudante, calças, blazer, camisa certinha de Oxford – são absolutamente britânicos. Seu filme de estreia foi Amnésia (2001) e, em seguida, ele fez a trilogia Batman – O Cavaleiro das Trevas.

Nolan afirmou que não queria fazer um típico filme de guerra e então criou um filme de suspense. E sem qualquer traço de sangue. “Nós queríamos uma intensidade que não se baseasse no horror ou na carnificina”, ele contou. “Uma intensidade baseada no ritmo, na aceleração da tensão, na superposição de cenários de suspense. Dunquerque, para mim, é um dos cenários de maior suspense de todos os tempos, uma verdadeira bomba-relógio.”

Grande parte da película foi filmada nas próprias praias de Dunquerque. No filme, as perspectivas das pessoas se entrecruzam na terra, no ar, no mar: através dos olhos de um oficial da Marinha britânica (Kenneth Branagh), do capitão de um barco civil (Mark Rylance), de outro oficial traumatizado pelas explosões (Cillian Murphy), dos pilotos da Royal Air Force (Tom Hardy e Jack Lowden), e do personagem central, um jovem soldado britânico interpretado por Fionn Whitehead.

O que mais se comentou a respeito do elenco foi o fato de Nolan ter escolhido o astro do pop, Harry Styles, da boy band One Direction, para um papel secundário. O Twitter explodiu quando Styles cortou os cabelos encaracolados (“Revelado o corte do cabelo!”) e depois quando apareceram as imagens do seu personagem possivelmente se afogando (“Nosso coração não aguenta isto!”).

Embora Dunkirk seja uma experiência completamente nova para o diretor, ela traz sua marca registrada ao dançar ao redor da linearidade e do tempo. O filme pula para frente horas ou mesmo dias, depois volta para trás, e então retorna repetidas vezes sobre incidentes angustiantes, de diferentes pontos de vista.

Nolan revelou que essa foi talvez a estrutura mais complexa que ele imaginou, porque reflete como as pessoas tendem a se lembrar e a contar as coisas. “Nós raramente falamos com uma preocupação cronológica; muito raramente narramos uma história do começo ao fim, em termos cronológicos”, afirmou. “Procuramos desarrumar o ritmo natural desses filmes de guerra. Tentamos perturbar o ritmo estabelecido da bomba”, acrescentou. /

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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