Christopher Nolan fala com exclusividade ao 'Estado'

Diretor de 'Batman - O Cavaleiro das Trevas' fala sobre sua elogiada versão da história e sobre o elenco do longa

O Estado de S. Paulo,

08 de julho de 2016 | 16h03

A entrevista a seguir, com o diretor Christopher Nolan, de Batman - O Cavaleiro das Trevas, foi feita sob encomenda da distribuidora Warner e cedida com exclusividade para o Estado.   Veja também: Trailer de 'Batman - O Cavaleiro das Trevas'   Galeria com fotos de 'Batman - O Cavaleiro das Trevas'    Foto: Divulgação   O que o levou de volta ao mundo de Batman e Gotham City? Na verdade, eu não tinha intenção de fazer uma continuação do Batman Begins, mas acabamos com uma premissa interessante, que era a idéia de ver o personagem do Coringa e uma intensificação dos elementos que introduzimos em Batman Begins, e ver o Coringa através do prisma de Batman Begins, reformulado no mundo que nós criamos. Achei essa proposta fascinante. Assim, depois que Batman Begins foi lançado, gradativamente fui me interessando por isso.   Quando estava criando O Cavaleiro das Trevas, qual era o trajeto que você queria que Batman seguisse? Na verdade, para mim, o importante, em primeiro lugar, era imaginar quem o Coringa seria no nosso mundo. E depois, no que se refere a Batman, a questão era como conseguir desestabilizar o seu mundo. Como o Coringa realmente tentaria destruí-lo e desconstruir a sua visão do mundo. É a partir daí que surge, de fato, a tensão, o que Batman tem que combater e os meios que desenvolve para isso. No filme, a idéia é ver como ele criou esses meios e a maneira como os criminosos de Gotham, em particular o Coringa, procuram desestabilizar a situação e virar tudo de ponta cabeça.   Como você descreveria o Coringa e o que o torna tão intrigante? O modo mais simples de descrever o Coringa é como um anarquista. Nós queríamos que o Coringa representasse de fato o mal absoluto, no sentido de que ele não é motivado por coisas lógicas, como um ganho material ou motivações compreensíveis. Como diz o personagem interpretado por Michael Caine, "ele simplesmente quer ver o mundo incendiar". Ele simplesmente se diverte destruindo o modo de vida de outras pessoas, desestabilizando tudo. Ele é o anarquista puro. É o que eu considero a forma mais aterradora do mal e é isso que procuramos liberar no mundo de Gotham.   E o que dizer desse Coringa que empurra Batman para os seus limites? O Coringa tem um desprezo total por qualquer tipo de comportamento sistematizado, pelo comportamento ético ou regras morais de qualquer tipo; acho que ele acredita, se é que ele crê em alguma coisa, que os valores das outras pessoas são hipócritas e falsos. E ele gosta de expor isso. Assim, o que ele vê no Batman são regras auto-impostas, regras éticas que distinguem Batman de um vigilante comum, que não porta uma arma e não quer matar ninguém. E isso o deixa enfurecido.   Como você descreveria Harvey Dent e por que ele é tão fascinante para Batman? Harvey Dent é um novo personagem neste filme. Ele também é conhecido como Duas Caras, o vilão no qual acaba se tornando. Harvey Dent é uma figura histórica dos quadrinhos. Nós quisemos introduzi-lo neste filme para representar a força positiva da mudança em Gotham. Ou seja, Harvey Dent, o combativo promotor é uma figura que, para Bruce Wayne, é a versão mais legitima da sua própria cruzada. Quando Christian e eu conversamos sobre como criar o perfil psicológico de alguém que usando um traje de borracha e combate o crime, chegamos à conclusão que isso só seria credível se ele se visse como uma espécie de catalisador, uma espécie de figura política inspirando a mudança nos outros, a força, Gotham sendo inspirada a se levantar contra o mal - que esse seria de fato o modo como o crime devia ser combatido. Harvey é a primeira e mais destacada manifestação dessa mudança. Assim, Bruce Wayne o vê como o sujeito que vai assumir o comando para ele: é o herói que Gotham realmente precisa; o herói com um rosto, não o herói usando uma máscara.   Mas Harvey Dent também é o Duas Caras. A história de Harvey é muito trágica e forma a espinha dorsal do filme, porque a história do Batman, e a sua continuação, Batman Begins, leva à pergunta: "Qual é o elemento trágico do filme? Qual é a perspectiva trágica da história?". Isso porque Batman é um personagem sombrio e as histórias têm por base a tragédia; assim, quisemos que Harvey Dent fosse a base para essa perspectiva, a ascensão de um homem bom e a sua queda.   Você poderia descrever o dilema romântico que a personagem de Rachel Dawes enfrenta em O Cavaleiro das Trevas? Nós estabelecemos no primeiro filme, particularmente no final, que Rachel, sendo a amiga mais antiga de Bruce, preocupa-se profundamente com ele e, na verdade, ela o ama, mas sabe que ele se perdeu naquilo que está fazendo com Batman. Ela acredita no que ele está fazendo, mas isso significa que, como amor potencial da sua vida, é um caso perdido. Nesta história Rachel se envolve com um outro combatente da justiça, na figura de Harvey Dent; um herói sem máscara, uma opção mais realista, alguém com quem ela pode realmente conviver. Bruce Wayne é sempre aquela presença inatingível, esquiva, alguém que ela ama mas sabe que nunca poderá ter. Harvey Dent representa a alternativa mais prática e é esse o dilema no qual ela se encontra.   Você poderia falar sobre o relacionamento estratégico entre Batman, Harvey Dent e o Tenente Gordon? Um dos mais vigorosos elementos da trama, uma das bases dela é The Long Halloween, (O Longo Dia das Bruxas) história em quadrinhos que é um excelente romance gráfico e do qual extraímos o triunvirato formado pelo sistema judiciário, a polícia, e então esse vigilante trabalhando fora da lei. Assim, você tem Batman, Gordon e Harvey Dent conspirando, num sentido, formando uma aliança para derrotar o crime, usando a força e os músculos de Batman, o vigilante fora da lei. A idéia é que eles podem torcer as regras mas não violá-las. Eles vão usar Batman para o bem, usando-o para combater os criminosos, e depois eles os prendem e os levam perante a justiça e, dessa maneira, Gotham volta a ser o que ela deveria ser. Portanto, a relação entre esses três homens e a aliança, a união deles, é realmente a base de tudo.   O que mudou no relacionamento de Bruce Wayne com Lucius Fox em comparação ao primeiro filme? No começo da história, vemos Lucius Fox como o administrador das Empresas Wayne; ele é o próprio rosto do conglomerado. Acho que o vínculo entre os dois é muito forte durante toda a ação, como sugeria o primeiro filme. Lucius tem pleno conhecimento das atividades de Bruce como Batman, e as aprova até certo ponto. Lucius Fox é uma pessoa profundamente moral e ética que, assim como Alfred, funciona como uma espécie de consciência de Bruce Wayne, e controla até onde deve ir a missão do defensor da justiça. Ao longo da história, tentamos de fato testar os limites do que Fox acha aceitável no que Bruce Wayne faz como Batman.   E o seu mordomo Alfred? Acho que neste filme vemos um aspecto diferente do relacionamento dos dois, isto é, percebemos que Alfred é uma figura paterna para Bruce. É um personagem muito simpático, uma pessoa na qual ele confia muito. Vemos também que há uma força em Alfred. Ele acredita profundamente no que Bruce faz e o encoraja em sua missão, permanecendo sempre nos bastidores. Ele é uma força poderosa que motiva Bruce a ir mais a fundo como Batman e no que Batman faz.   Você pode falar sobre as complexidades da atuação de Christian Bale no filme? Acho que neste filme, por termos a possibilidade de entrar de repente na história sem nos preocupar com a origem de Batman, tratamos com uma figura mais completa. Estamos tratando com um Batman plenamente amadurecido, um Bruce Wayne plenamente formado. Acho que isto representou um desafio para Christian, mas também uma oportunidade. Encontramos uma figura mais confiante, mais madura, mas que já começou a questionar os efeitos indesejados do que ele faz em Gotham.   Quanto a Heath Ledger no papel do Coringa, seu desempenho o surpreendeu de algum modo? Acho que tudo no desempenho de Heath me surpreendeu. Escolhi Heath numa conversa com ele: sentados um diante do outro, falamos sobre como seria o personagem que ele representaria - e não a partir do roteiro. Naquela fase, nem tínhamos um roteiro. Era ainda muito cedo. Mas ambos sabíamos das possibilidades de criar um personagem que seria o anarquista mais acabado, a figura assustadora, caótica mais acabada. Acho que, naquela ocasião, ele não tinha noção de como faria isto, mas percebi que sabia que poderia fazê-lo; sabia que iria embora e refletiria sobre o que falamos. Conversamos em outras oportunidades. Eu estava trabalhando no roteiro e falava com ele pelo telefone. Ele me contava dos elementos que estava procurando: por exemplo, estudava os bonecos dos ventríloquos, diferentes registros e tonalidades de sua voz, e inúmeras outras coisas que eu nem tinha certeza se poderiam contribuir para o personagem. Mas eu tinha consciência de que estava falando com um profissional profundamente mergulhado na construção de algo muito original.Quando chegou para começar a atuar, e para os testes de maquiagem que fizemos no começo para definir a caracterização do personagem, comecei observando como ele se movia e falava, procurando compreender exatamente como seria. Imediatamente tudo fez sentido para mim. Acho que seria preciso que muitas pessoas o vissem muito mais para compreendê-lo. Mas acredito que todas, quando viram o filme e a atuação de Heath, ficaram enfeitiçadas.   O que Maggie Gyllenhaal trouxe para o papel de Rachel no filme? Maggie é uma pessoa e uma atriz fantasticamente atraente. Ela encarna um personagem aparentemente comum, que inspira confiança, como alguém muito doce e muito envolvente. Ela representa uma mulher pela qual estes dois homens, que ocupam posições tão peculiares, diferentes, que lidam com um mal tão grande naquele mundo, se sentem atraídos, uma figura que naturalmente definimos como diferente de tudo aquilo e muito melhor. Maggie apresenta um personagem positivo sem ser melosa ou sentimental, um personagem muito doce, fascinante, e faz isto de uma maneira extraordinária, dando à sua atuação um realismo total.   E Aaron Eckhart no papel de Harvey Dent, e depois do Duas Caras? Aaron é um ator extremamente dedicado; ele leva absolutamente a sério tudo o que faz. Felizmente, consegue temperar isto com um grande senso de humor, brincando também a respeito de si mesmo. É muito agradável trabalhar com ele. Mas é também um ator extraordinariamente intenso, que representa seu personagem com uma força extraordinária do começo ao fim, como o personagem exige. Não se pode trapacear com um personagem como este. Não se pode apresentá-lo como uma figura heróica que não tem também um lado negro, uma mancha trágica. A mancha deve estar ali, para que o espectador a perceba desde a primeira vez em que vê o personagem. Aaron atua em um nível heróico muito tranqüilo e o público se sente confortável com esta presença, introduzindo ao mesmo tempo, em cada uma de suas cenas uma pergunta sobre sua visão do mundo, indagando se o que faz é direito todo o tempo ou há nele um impulso mais sombrio.   Você trabalha com um elenco impressionante nestes filmes. Como é viver nesta atmosfera? O elenco é um conjunto fantástico do qual fazem parte alguns dos atores mais talentosos que já trabalham no cinema. Isto é extremamente apaixonante para todos os que vivem neste mundo, também para os atores mais novos. Então, no set cria-se uma atmosfera maravilhosa, na qual as pessoas procuram superar-se e colocar-se no mesmo nível dos outros atores sem deixar cair o nível do conjunto. Você está vendo um grupo de profissionais que dão realmente o máximo de si.   Como é trabalhar com Michael Caine, Morgan Freeman e Gary Oldman? Trabalhar com grandes veteranos, como Michael e Morgan - eu me beneficio enormente da experiência deles. Eles meio que já fizeram e viram de tudo e por isso eles têm um tipo de presença calma no set de filmagem à qual todos respondem e da qual todos se alimentam. Gary Oldman havia concordado tão educadamente em interpretar Gordon no primeiro filme, e era um papel que exigia bastante do ator, mas de maneiras sutis e contidas. Ele é um personagem muito contido. Esta era a natureza do personagem no primeiro filme. Foi na verdade muito divertido trazê-lo de volta para interpretar o mesmo papel, mas numa história que oferece um desafio maior ao personagem e permite que ele mostre mais daquilo que ele sabe fazer tão bem.   Mesmo no trailer, Michael Caine parece ter ficado com algumas das melhores tiradas. Michael é um sujeito muito engraçado na vida real, e cheio de grandes histórias. Ele é sempre muito divertido. Nunca trabalhei com um ator que conseguisse dar ritmo à comédia com esforço tão pequeno. Ele sempre sabe exatamente o que fazer com um diálogo que recebeu no roteiro e que poderia virar motivo de riso. Ele sempre descobre um jeito de tornar aquilo realmente engraçado.   Em termos de produção física, qual era a sua visão da aparência e da sensação final transmitidas pelo filme? O grande desafio para nós do ponto de vista técnico em relação ao filme era aumentar o seu alcance, porque eu achava que ao revisitar a história, teríamos de fazer um filme maior, fisicamente maior. Precisaríamos mostrar aquele mundo numa escala mais ampla. O truque foi que, em Batman Begins, realmente tentamos tornar o filme tão grande quanto possível. No início, eu não conseguia descobrir a melhor maneira de fazê-lo. E depois, ao conversar com Nathan Crowley, nosso desenhista de produção, começamos a perceber que ao rodar uma parte maior do filme nas locações, ao fazer mais uso de lugares reais e ao explorar Gotham como uma cidade de verdade, conseguiríamos transmitir esta sensação. Esta história que eu e David Goyer estávamos começando a preparar era na sua maior parte uma história urbana, uma história de crimes com muitos personagens diferentes interagindo na grande ambientação de uma cidade americana. Assim, isto começa a levar o alcance e o tamanho da coisa toda para além do primeiro filme, mesmo em termos de ir ao Himalaia e coisa assim. Também queríamos sair de Gotham outra vez, como havíamos feito no primeiro filme, porque isto também ajudaria a ampliar os horizontes do filme, em parte também ao simplesmente contextualizar Gotham como um lugar real no mundo real, e então mergulhamos de volta a Gotham pelo resto do filme. Mas, na verdade, muito do que tentamos fazer em termos do alcance da história foi rodar em locações reais tanto quanto possível, porque o mundo real é construído e existe numa escala muito maior do que jamais poderia ser criada ou reproduzida no estúdio.   O que o levou a conduzir Batman até Hong Kong? Gostei muito da idéia de levar Batman a algum lugar muito exótico. Tinha a sensação de não ter visto isto antes. Havíamos feito isto com o lado Bruce Wayne do personagem no primeiro filme, mas eu queria mesmo mostrar a figura do Batman num lugar muito diferente. É algo que permite que se olhe para o personagem do Batman com novos olhos, de certa forma, e acrescenta outra coloração exótica ao filme. Hong Kong é um lugar onde estive há muitos anos, enquanto freqüentava um festival de cinema. Voltei para lá enquanto escrevia o roteiro apenas para uma mudança de ares, francamente, para obter uma nova perspectiva sobre o trabalho que estava fazendo. E o lugar meio que se impôs na minha cabeça em termos de como eu poderia funcionar na história. É simplesmente uma locação incrível. É um lugar visualmente incrível. Uma cidade imensa com um aspecto muito exótico, mas é algo que se pode capturar no quadro do cinema. É contida o bastante, entre as colinas e os arranha-céus e a água no porto, é na verdade bastante fácil de captar isto em termos de cinema.   Como foi levar o Batmóvel e a Batmoto para as ruas da Chicago verdadeira? Foi tremendamente divertido filmar acrobacias reais em ruas reais. Foi algo realmente notável. Mas devo confessar que não sei onde mais eu poderia tê-lo feito a não ser em Chicago. Chicago é uma cidade muito acessível para filmagens. Do ponto de vista arquitetônico, é uma cidade muito bonita. Cresci em parte em Chigado, e por isso a conhecia muito bem, o que me conferia uma vantagem. A cidade nos permitiu fazer algumas coisas na vida real que jamais teríamos podido fazer em outra grande cidade, e isto nos deu uma grande vantagem, e foi realmente notável que tenhamos podido fazer estas coisas de verdade.   Você pode nos contar sobre a acrobacia de Christian Nolan, de pé sobre o topo da Torre Sears? Bem, havia uma cena bastante espetacular em Batman Begins que acabou aparecendo bastante no filme, e acredito que a cena não estava sequer no roteiro. Foi algo que simplesmente descobrimos como fazer.Usamos um dublê sobre o edifício Jewelers em Chicago. Era uma grande cena, mas tenho a sensação de que Christian provavelmente passou dois anos ouvindo as pessoas dizendo, "Oh, era você naquela cena?’ Então, quando chegou a hora de gravar, eu quis de certa forma virar a cena no avesso e descobrir uma versão moderna da cena com uma construção modernista e uma paleta de cores bastante diferente, com tonalidades azuis. Também queria que ela não fosse um momento triunfal, mas na verdade um momento mais complicado do que isto. Mas, visualmente, queria que ela ecoasse a cena do primeiro filme. E assim que Christian soube que eu queria gravar assim, acho que ele esteve determinado a interpretá-la ele mesmo. E eles o deixaram fazer a acrobacia porque descobriram uma maneira de executá-la com segurança, amarando-o ao prédio. Mas não faço idéia de onde ele tirou forças para se equilibrar na beirada. Acho que ele estava literalmente 90 andares acima das ruas.Quando fomos depois até Hong Kong e ele ficou na beirada de um edifício de 88 andares, deve ter achado coisa fácil.   Como você inventou a acrobacia com o caminhão no filme, e como foi o desafio de realizá-la com sucesso? Queria um final realmente espetacular para a seqüência de ação na metade do filme, e queria obter este efeito fazendo o veículo do Coringa capotar. Levei isto pela primeira vez a Chris Corbould, o supervisor de efeitos especiais do filme - um sujeito extremamente talentoso; ele participou de todos os filmes do James Bond e é realmente capaz de concretizar coisas magníficas no set de filmagem. De início, ele insistiu em me vender a idéia de realizar a cena com um veículo menor, um do tipo daqueles furgões da SWAT, não um caminhão articulado. Durante algum tempo concordei, mas depois de certo dia virei para ele e disse, "Chris, quer saber, acho que você consegue descobrir um jeito de fazer isto com um caminhão de verdade. É assim que deveria mesmo ser." E ele meio que disse, "Ok, tudo bem," e foi descobrir um jeito de atender ao meu pedido, ele e os seus subordinados. E é de fato algo notável e engenhoso o que eles conseguiram inventar. Nós pusemos as câmeras para rodar e eles pilotaram o caminhão rua abaixo e então simplesmente viraram o veículo de ponta a ponta. Eu nunca havia visto nada parecido.   Ao assistir à cena, seu queixo caiu? Foi um momento bastante impressionante quando vi o caminhão tombar de verdade e cair quase exatamente onde haviam dito que ele cairia. Algo muito controlado, muito gracioso. Ele dá uma certa guinada para a direita quando está no ponto mais alto do arco que descreve, e fica parecido com um arranha-céu, rola para o lado e então tomba. É algo bem incrível.   Como você teve a idéia da Batmoto, e como conseguiu torná-la realidade? Bem, eu sabia que queria um veículo diferente no filme. Não queria que tivéssemos apenas uma reprise do Batmóvel. Então eu e Nathan Crowley nos pusemos a trabalhar efetivamente no projeto de uma moto. Mas não queríamos que fosse uma motocicleta. Acho que a maneira como descrevi para Nathan o que tinha em mente era algo como um canhão antiaéreo sobre rodas, e teria de ter pneus ridiculamente grandes e coisas assim, e de fato ser para o mundo das motos aquilo que o Batmóvel é no mundo dos carros. Foi assim que abordamos a idéia. Quando construímos o modelo em escala real, sobre o qual se podia sentar de verdade, a partir de peças e pedaços de lojas de ferramentas e canos e coisas assim, fomos então mostrá-lo a Chris Corbould. Ele deu uma boa olhada e disse que não fazia idéia de como poderia concretizar aquilo, pois não havia motor. A idéia é de que o motor está na verdade entre os terminais das rodas e as mesmas, e coisas assim. Não há trem de propulsão, nem suspensão articulada. É algo que na verdade não deveria funcionar, mas Chris e sua equipe descobriram um jeito de fazê-lo. Não diria que a projetaram com a mesma acessibilidade ao usuário apresentada pelo Batmóvel, que eles também construíram e que poderia ser pilotado por qualquer um. Apenas George Cottle conseguia pilotá-lo com precisão para realizar acrobacias e coisas assim, mas qualquer um era capaz de entrar e mexer um pouco com razoável segurança. A Batmoto só pode ser guiada por uma pessoa, um piloto de acrobacias francês que esteve envolvido na evolução do conceito do veículo enquanto este era construído. Ela é manobrada ao se acentuar a pressão sobre as bordas dos pneus, e é algo muito precário. Foi realmente incrível, as coisas que ele foi capaz de fazer pilotando esta coisa. Mas é uma fera muito, muito complicada de operar.   Assim como entre os atores, você contou com um grupo muito próximo de colaboradores na sua equipe. Como isto o auxilia enquanto cineasta? Bem, acho que a familiaridade ajuda muito na comunicação. Assim, ao se trabalhar com a mesma equipe com quem já se trabalhou antes, com certeza a comunicação é facilitada. Desenvolvemos atalhos que podem ser muito úteis, especialmente quando o tempo é um fator tão crucial quanto na realização de qualquer filme. Sob este aspecto é algo que ajuda muito. Além disso, você se desenvolve e observa as pessoas se desenvolvendo ao seu lado porque vocês passaram pela mesma série de desafios criativos em filmes anteriores. Você consegue meio que evoluir com estas pessoas e desafiar a si próprio e a eles da mesma maneira. Assim vocês estão todos afinados uns com os outros. Você não está trabalhando com pessoas que já fizeram cinco vezes este filme no qual você está trabalhando, você está trabalhando com gente para quem é tudo um novo desafio, assim como para você, e isto nos mantém a todos na mesma freqüência.   Como funciona para você o processo de composição da trilha sonora do filme? Para mim, sempre procuro fazer a trilha sonora do filme uma evolução que corra paralelamente à montagem do filme. Assim, gosto de trabalhar com compositores que estejam dispostos a acomodar este desejo, e Hans Zimmer e James Newton Howard já estavam nestes dois filmes. Então, sem ver coisa alguma para retratar, eles me dão peças para trabalhar, sintetizam as demos e então as levamos para a sala de montagem, refazemos os cortes e descobrimos algumas coisas, ligamos para eles, e eu lhes digo o que quero. Hans pede fotogramas do filme, quem sabe um pouco do material filmado, apenas para entender como são os movimentos do Coringa, coisas assim. Mas mesmo assim boa parte da trilha sonora não foi feita para retratar coisa alguma, e foi simplesmente incorporada ao filme durante a montagem. É um processo muito orgânico. Cria muitas exigências para os compositores, mas eles estavam dispostos a corresponder a elas, e fizeram um grande trabalho com a música.   E quando ao projeto de efeitos sonoros? Os efeitos sonoros do filme são extraordinariamente complicados e houve um enorme número de elementos incorporados à mixagem de som. Muitos dos elementos sonoros do filme correspondem diretamente a elementos da trilha sonora do filme. Assim, há momentos no filme em que se torna muito difícil determinar o que é efeito sonoro e o que é trilha sonora. Gosto que seja assim. Gosto que haja uma transição imperceptível entre música e efeitos. Então, há grandes elementos no filme, como a grande perseguição de carros no meio do filme, onde não usamos música na maior parte da cena. Há apenas um pequeno pedaço com música. Normalmente, este tipo de coisa seria acompanhado de trilha sonora. Este foi um grande desafio para os produtores de efeitos sonoros e a sua equipe, inventar uma série de efeitos que transmitisse a emoção desta ação, da maneira que normalmente seria feita com música. E ainda há muita ação no final do filme bom bastante trilha sonora como acompanhamento, mas cujo desenvolvimento simplesmente acompanha o da ação. A idéia é enfatizar certos cortes, mas também conferir embalo à história ao longo da seqüência toda. Então, há muitas coisas rítmicas diferentes e interessantes que entraram nos efeitos sonoros do filme e que dão a ele uma sonoridade única, assumindo certos riscos.   Chega algum ponto neste filme em que você, enquanto cineasta realizado, simplesmente relaxa e fica maravilhado por tudo isto? Sim, temos de fazer isto de maneira consciente. você precisa lembrar a si mesmo do que é que você está fazendo e como é divertido, porque parte do meu trabalho é mito que não ver a abrangência do filme - é apenas imaginar assisti-lo como se fosse o filme de outra pessoa. Tenho de ser o representante da platéia no set de filmagem, então, de certa maneira, preciso não ficar envolvido com a extraordinária fisicalidade daquilo que está acontecendo e com as centenas de pessoas e com os sets gigantescos e as acrobacias extraordinárias e tudo o mais. Preciso ver apenas o que está no quadro. Durante boa parte do tempo em que trabalho no filme, não estou vendo a natureza extraordinária do trabalho que tenho a oportunidade de fazer. E de tempos em tempos, você precisa simplesmente lembrar a si mesmo conscientemente do que é este trabalho, e dar um passo para trás e observar a coisa toda e dizer, "Uau, é realmente uma coisa extraordinária que tenho a oportunidade de fazer."

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