Jaap Buitendijk | DIV
Jaap Buitendijk | DIV

Christian Bale vive um gestor financeiro inescrupuloso em ‘A Grande Aposta’

Na comédia de humor negro com lançamento previsto para 14 de janeiro, no Brasil, ator interpreta um gestor financeiro nada convencional da Califórnia que previu o desastre bem antes de ele acontecer

Nancy Mills, HOLLYWOOD WATCH

11 Janeiro 2016 | 03h00

A crise econômica de 2008 só seria impedida se Batman estivesse por perto. “Imagine Batman com seu gancho, escalando prédios e atacando os figurões dos grandes bancos. Ele conseguiria resolver a situação”, disse Christian Bale.

Bale, ator britânico que foi o mais recente Batman no cinema, gargalhou. “Alguém deveria escrever um roteiro e Ben Affleck interpretar esse Batman”, comentou ele.

Entretanto Bale – que cedeu a capa e o capuz para Affleck depois de interpretar Batman em Batman Begins (2005), Batman – O Cavaleiro das Trevas, de 2008, e Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, de 2012, preferiu enfrentar o quase colapso da economia mundial de maneira diferente. Em The Big Short (A Grande Aposta), comédia de humor negro com lançamento previsto para 14 de janeiro, no Brasil, em que interpreta um gestor financeiro nada convencional da Califórnia: Michael Burry, que previu o desastre bem antes de ele acontecer.

O filme, que conta com a participação de Steve Carell, Ryan Gosling e Brad Pitt, é baseado no livro de grande sucesso de Michael Lewis, The Big Short: Inside the Doomsdady Machine (W.W. Norton, 2010) no qual ele investiga as origens da crise. O filme começa com Burry observando algumas práticas bancárias inescrupulosas relacionadas a hipotecas de alto risco. Os bancos concederam a milhões de clientes sem capacidade financeira empréstimos para compra de casas e depois tentaram ocultar o que estavam fazendo. Quase ninguém, incluindo a mídia e os órgãos reguladores, prestou atenção.

Achando que num determinado ponto os devedores das hipotecas não conseguiriam pagar a conta, Burry e alguns outros imaginaram uma maneira de lucrar com os prejuízos a serem arcados pelos bancos. O filme explica como isso ocorreu, e como poderá suceder novamente.

Bale é o herói no filme? Na verdade não, segundo ele. “São pessoas que estão apenas observando o que ocorre e contando a verdade a respeito”, afirmou e ele, numa entrevista por telefone de Los Angeles, onde vive. “Neste mundo, que se tornou tão dúbio moralmente, isso o qualifica como ‘herói’.”

“Mas não vejo nada de heroísmo em ganhar enormes somas de dinheiro quando a economia americana está em ruínas”, continuou o ator. “Trata-se de acumular dinheiro, ganhar, e ganhar, em vez de ajudar o país todo. Eles enganam seus clientes que ainda acreditam em honra e confiança”, afirmou.

“Não é como um western em que os maus usam chapéu preto. Às vezes, você se depara com sujeitos usando ternos ridiculamente caros que parecem senhores honestos.”

Mas o próprio Bale não é nenhum garoto prodígio no campo das finanças, admitiu.

“Sou péssimo em matéria de dinheiro e nunca tive interesse nele, de qualquer maneira. Enquanto consigo ter o que comer e um lugar onde a chuva não vai cair na minha cabeça quando estou dormindo, tudo bem”, contou. “Quando você tem uma família é um pouco mais difícil. Mas as finanças não me fascinam. Seria um péssimo gestor financeiro. E não teria guardado nenhum dinheiro se não fosse minha mulher (Sibi Blazic). O que me fascina são as consequências dos atos das pessoas.”

Quando começou a fazer pesquisas para o papel, Bale rapidamente percebeu que o vocabulário usado no mundo das finanças poderia ser um problema.

“Agora, eu entendo. Não é complicado. Compreender o que é uma swap de crédito não é difícil. Eles usam essas terminologias para fazer com que você se sinta um estúpido. Depois de um tempo, você pensa, ‘não posso ficar perguntando sobre o que estão falando. E assim fica dependente deles”, lembrou.

Bale passou um dia com o Burry real, um entusiasmado por heavy-metal, e procurou absorver o máximo a respeito dele. Chegou até a ter aulas de bateria, um dos hobbies de Burry.

“Por causa da maneira muito individualista de viver dele, sua mentalidade diferente e sua genialidade, ele nunca se tornou um dos garotos de Wall Street. Portanto, não tem nenhum cinismo. É uma pessoa socialmente consciente. Não tentou contatar as instituições e explicar como viu tudo isso surgindo e como conter o impacto”, enfatizou Bale, que vai completar 42 anos no dia 30 de janeiro.

Ninguém deu atenção, nem mesmo o patrão de Burry, que tentou impedir que ele comprometesse centenas de milhões de dólares da empresa para adquirir derivativos de crédito com o objetivo de apostar no mercado imobiliário que estava prosperando.

Bale, que gosta de autenticidade, se vestiu exatamente como Burry. Em muitas cenas, você o vê descalço no escritório. “Burry enviou-me todas as suas roupas. Camisetas, shorts e sandálias”, lembrou ainda.

Mas o que Bale não conseguiu copiar foi a obsessão de Burry por números. “Ele consegue ficar sem dormir por três dias seguidos lendo números. Para ele, é como ler um romance fascinante”, revelou o ator.

Por outro lado, Bale herdou do pai uma atitude mais tranquila com relação à vida. “Meu pai era um homem maravilhosamente altruísta, mas desejava uma vida mais fascinante do que um trabalho rotineiro. Dinheiro não era fácil de ganhar. Ele teria me repudiado se lhe dissesse que queria trabalhar em Wall Street.”

O pai de Bale era piloto, um administrador talentoso e ativista defensor dos direitos dos animais. Sua mãe foi bailarina e artista circense. O casal, que além de Bale tem duas filhas, acabou se divorciando. O pai casou-se mais tarde com Gloria Steinem, ícone do movimento feminista. Ele morreu em 2003 vítima de um linfoma no cérebro.

Bale iniciou sua carreira em comerciais, em 1983, e depois trabalhou no teatro em Londres em peças como The Nerd (1984), com Rowan Atkinson. Seu trabalho em Anastasia: The Mistery of Anna (1986) chamou a atenção de Steven Spielberg, que o contratou para o papel principal no filme Império do Sol (1987) história de um garoto detido pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.

Trabalhou depois em vários filmes, como Newsies (Extra, Extra) de 1992, Little Women (Adoráveis Mulheres), de 1994. Conquistou um Oscar de melhor ator coadjuvante por seu trabalho como um boxeador problemático em The Fighter (O Vencedor), de 2010, e foi indicado para o de melhor ator por seu trabalho em American Hustle (Trapaça), de 2013.

Não espere ver Bale novamente com a capa e o capuz de Batman. “Não acho que devo retornar. Mas o simbolismo nunca cessa de me surpreender – como ele significa tanto para tantas pessoas. Quando estava trabalhando nesses filmes, sentia o seu imenso potencial. Batman é uma figura realmente global, emblemática. Foi uma responsabilidade que me deu prazer. Sinto mais falta das pessoas. Trabalhamos juntos durante quase dois anos sucessivos. Sinto falta do pessoal, mas sabia disso quando nos separamos.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.