Chris Cooper fala sobre "Adaptação"

O rosto de Chris Cooper sempre foi familiar aos cinéfilos. Eram poucos, porém, os que se lembravam do nome do ator visto em Beleza Americana, O Patriota e O Encantador de Cavalos e mais de 20 longas-metragens em 15 anos de carreira. A situação mudou desde que Cooper conquistou em janeiro último o Globo de Ouro de melhor ator codjuvante em comédia pela performance em Adaptação. O desempenho como um fanático colecionador de orquídeas ainda lhe valeu uma indicação ao Oscar, garantindo-lhe mais prestígio aos olhos de Hollywood."Eu sempre fiquei no pé do meu agente para conseguir bons personagens. Espero receber mais ofertas de agora em diante", contou o ator de 51 anos, em entrevista à Agência Estado, concedida em Los Angeles. Para assegurar o papel na comédia que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros no fim de semana, Cooper fez vários testes. "Pedi que o diretor Spike Jonze me deixasse explorar facetas completamente diferentes do personagem no teste. Como ele gostou da idéia, mantivemos a experimentação mesmo depois de iniciarmos a filmagem."O esforço valeu a pena. Cooper não só alcançou reconhecimento pela atuação como teve a chance de quebrar a imagem de homem reservado que predomina em sua galeria de personagens. "Talvez eu tenha feito tantos papéis assim por ter sido criado na fazenda", brincou o ator. Adaptação, baseado no livro O Ladrão de Orquídeas, de Susan Orlean, proporcionou a Cooper algumas aventuras durante a filmagem. Na pele de John Laroche, uma figura verídica que foi processada por invadir área indígena em busca de uma espécie rara de orquídea na Flórida, o ator mergulhou no pântano, filmou com crocodilos e ainda abriu um site pornô na internet."O papel já corresponde a um prêmio", contou Cooper, que disputará a estatueta de melhor ator coadjuvante no dia 23 de março, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood realizará a 75ª edição da cerimônia do Oscar. Para sair do Kodak Theater de Los Angeles carregando o troféu, Cooper precisará derrotar Ed Harris (por As Horas), Paul Newman (por Estrada para Perdição), John C. Reilly (por Chicago) e Christopher Walker (por Prenda-me Se For Capaz), seus adversários na categoria. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.Agência Estado - Encontrou John Laroche, o verdadeiro colecionador de orquídeas, para compor o personagem de "Adaptação"? Chris Cooper - Pensei seriamente em marcar encontro com Laroche. Mas desisti, já que o filme não se propõe a fazer uma representação verossímil dos personagens, ainda que esses sejam verídicos. Mesmo Meryl Streep, que interpreta a escritora Susan Orlean, preferiu não encontrar a autora justamente para não criar expectativas de que o retrato seria fiel.Baseou-se então apenas no roteiro e no livro para criar a versão cinematográfica do colecionador?Eu li O Ladrão de Orquídeas muito tempo antes de me envolver com a adaptação para o cinema. Portanto, já tinha idéia do personagem ao me candidatar ao papel. Quando comuniquei ao diretor que não queria encontrar Laroche, Jonze me deu a idéia de usarmos material em vídeo. Uma equipe do filme foi deslocada para a Flórida, onde eles gravaram cinco horas de entrevistas com Laroche. Assistindo ao material, consegui tirar todos os seus maneirismos. Adaptou-se facilmente à prótese dentária que deu a impressão de que você não tinha os dentes da frente (seguindo a descrição de Laroche no livro)?Eu não esperava que a prótese mudasse o meu jeito de falar, mas foi o que aconteceu. Por sorte, nós começamos a trabalhar nisso dois meses antes de começarmos a filmar, dando tempo para eu me acostumar. Primeiramente um ortodontista fez um raio X da minha arcada, enviando a chapa a um especialista em próteses do estúdio. Poucos dias depois recebi quatro aparelhos, tipo dentadura, sem os dentes da frente. À primeira vista, achei que não ia funcionar. Ao me ver no espelho, no entanto, fiquei surpreso ao perceber como a falha dentária parece real. Agora já sei como eu ficaria, se perdesse os dentes.À primeira vista, Laroche é um tipo durão. Mas, aos poucos, revela certa vulnerabilidade.Chegamos a esse resultado graças à experimentação no set. Deu mais trabalho, mas eu tentei coisas dramaticamente diferentes a cada nova tomada que fazia de uma mesma cena. Quando Laroche encontra Susan pela primeira vez, por exemplo. Inicialmente fizemos uma tomada em que Laroche se sentia superior à jornalista, como se estivesse lhe fazendo um favor por conceder em dar entrevista. Na seqüência, fizemos o contrário. Rodei como se Laroche estivesse se sentindo totalmente intimidado por uma mulher culta, que representa uma revista importante dos EUA. Foi isso que permitiu explorarmos diversas facetas da mesma pessoa.O método permitiu muita improvisação?Imensamente. A melhor coisa foi poder improvisar com Meryl Streep, com quem eu mais contraceno no filme. Foi revigorante e libertador trabalhar livremente com uma atriz tão multifacetada. Foi como caminhar nas nuvens.Como foi a preparação para viver um treinador de cavalos de corrida (em "Seabiscuit", seu próximo filme)?Treinei intensamente. Ainda bem que já tinha uma certa experiência no assunto por ter convivido com os cavalos de meu pai na infância. Mesmo assim, não dispensei os dublês para as cenas mais perigosas. Os cavalos usados em filmagens geralmente são treinados e tranqüilos. Mas nada impede que alguns estranhem as câmeras e os holofotes no set. Principalmente quando uma equipe corre desesperadamente atrás dos cavalos em movimento tentando captar as melhores imagens. Que animal não se assustaria?

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