"Chocolate", receita de sucesso para cardápio de spa

Lasse Hallström ficou conhecido com o belo filme Minha Vida de Cachorro. Nada de muito profundo, mas era realmente tocante acompanhar a trajetória daquele garotinho que usava uma forma muito pessoal de relativismo para se consolar das armadilhas da vida. Nas situações mais duras ele se lembrava da cadelinha Laika, que foi lançada num satélite e condenada a perecer, perdida no espaço, sozinha e desamparada.Bem esse é o tom da filmografia de Hallström, que se estabeleceu nos Estados Unidos e lá fez, entre outros, Gilbert Grape e Regras da Vida. Filmes-gracinha, bem-intencionados e tudo o mais. Enfim, filmes "de arte" palatáveis tanto para o gosto do grande público quanto para o paladar acomodado da Academia.Na mesma linha vai este dietético Chocolate, que estréia esta semana em São Paulo, e que agora chega com cinco indicações para o Oscar, duas delas para categorias vitais, melhor filme e atriz (Julliette Binoche). A proeza faz jus à capacidade mimética da Miramax, a companhia que melhor consegue fazer comércio passar por arte.Mas enfim, deve-se ser justo. Se Chocolate não é essa maravilha que todo mundo apregoa, também não é de se jogar fora. A história parece original. Viviane Rocher (Julliette Binoche) e a filha, Anouk (Victoire Thivisol) andam de cidade em cidade, sem pouso certo até chegar a Lansquenet, no interior da França. Lansquenet é um exemplo típico da França provinciana, cidadezinha conservadora, arraigada em seus hábitos, avessa a estranhos e a estrangeiros. Tão profundamente francesa que todos os seus habitantes expressam-se em inglês perfeito - provavelmente por razões de distribuição global da Miramax. Mas, passemos.O fato é que Viviane Rocher é especialista em guloseimas à base de chocolate, que, uma vez provadas, têm o poder de mudar a vida insípida das pessoas. Maridos preguiçosos voltam a cumprir suas obrigações matrimoniais, o que faz do chocolate um afrodisíaco mais eficaz que a catuaba; mulheres revoltam-se contra antigos opressores e até um prefeito rígido como pedra vai curvar-se aos encantos das receitas de Viviane.O filme, o leitor já adivinhou, tem alguns parentes próximos, entre os quais A Festa de Babete, de outro nórdico o dinamarquês Gabriel Axel. Em Babete existe a mesma idéia de fundo, a de que o prazer dos sentidos deve ser levado em conta e que condutas rígidas (incluindo condutas alimentares rígidas) conduzem não à virtude, mas à perversão do apetite. E não apenas do apetite alimentar, mas do apetite pela vida. Babete é a cozinheira de mão cheia que chega a um vilarejo de hábitos frugais e muda a todos durante um suntuoso e único banquete.Bem, o outro parente próximo é Como Água para Chocolate, do mexicano Alfonso Arau, este associando hábitos alimentares calientes a desempenho sexual. Mas, de qualquer modo a aproximação entre a função alimentar e a sexual não constitui novidade. Remonta no mínimo ao medievo e tem lá suas razões de ser incrustadas na cultura e na linguagem. Não por acaso certos verbos servem para ambas as funções, o principal deles, comer, sendo banal em um registro e chulo no outro.Essas aproximações não fazem de Chocolate um filme melhor. Não é que seja aborrecido. Deixa-se ver e, conforme o dia (e se você não estiver de dieta) pode até ser bom programa. Mas é aquela história: convém não pensar muito nele depois.Porque, apesar de bem-feito e bem interpretado (Julliette Binoche foi atriz de Krzysztof Kieslowski em A Liberdade É Azul, e isso não se esquece), de perto deixa ver toda a sua fragilidade.Ok, é um conto de fadas simpático e politicamente correto. Não deixa nem mesmo de fora sua homenagem tímida aos marginais, na figura de uma espécie de cigano vivida pelo carismático Johnny Depp. Mas, claro, prudentemente não coloca nenhum conflito que não possa ser solucionado. Vai, a cada plano aparando arestas rumo a uma redenção final. Porque, de fato, se os seres humanos forem menos rígidos, o convívio entre eles pode ser melhor. E se isso puder ser feito sem dano para ninguém, ótimo. O filme é isso: mudança sem custo, revoluções internas sem um único disparo, contradições que se dissolvem no ar. Uma receita de sucesso para um cardápio de spa.

Agencia Estado,

15 de fevereiro de 2001 | 17h21

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