Chinesa faz road-movie existencial na Austrália

Clara Law é uma diretora de origemchinesa que vive na Austrália. Há sete anos, ela participou damostra competitiva do Festival de Veneza com um filme chamadoAs Tentações do Monge. No ano passado, voltou ao Lido comA Deusa de 1967. O filme estréia nesta sexta-feira. A deusa dotítulo não é nenhuma mulher. É uma máquina - o Citroën 1967, queos especialistas consideram o carro mais perfeito já criado. Nahistória imaginada por Clara, um homem tenta comprar um exemplardesse raro modelo de Citroën. Para isso, viaja à Austrália.Encontra a dona, que é cega. Juntos, embarcam numa aventura ouno que não deixa de ser um road movie existencial.Em Veneza, 1994, a reportagem já tivera um encontro coma diretora. Clara é do tipo mignon, bonita e delicada. Fez umfilme surpreendente, pela força dos embates. Golpes de espada,corpo-a-corpo, a violência corre solta, chega a ser excessiva emAs Tentações do Monge. Clara responde agora às perguntas pore-mail. É concisa. Se a entrevista fosse ao vivo ou por telefone certamente seria marcada por silêncios constrangedores.Ela começa esclarecendo que não é uma colecionadora. Nãopossui um interesse especial pela deusa de 67, o próprio Citroën, mas sentiu que havia ali material para uma reflexãointeressante. Quanto ao fato de o filme ser um road movieexistencial, sim, ela concorda, mas faz a ressalva: "Todos osmeus filmes são sobre a existência." Existe, para ela, algumametáfora na situação do casal de seu filme: o homem que vêligado à mulher que não vê? Ela esclarece que o homem pode ver ea mulher também pode, embora não as mesmas coisas, ou da mesmaforma que ele. "E o que ela vê, nele inclusive, mudacompletamente a percepção que o homem tem do mundo."Seu filme anterior foi uma produção de Hong Kong, comequipe (técnicos e atores) predominantemente chineses. Agoraradicada na Austrália, fez o novo filme com capitaisaustralianos. Quando os personagens caem na estrada, a paisagemdeixa de ser só um pano de fundo para virar, ela própria, outropersonagem. "Vivendo aqui, era natural que me inspirasse napaisagem", diz Clara. Há uma diferença entre o olhar masculinoe o feminino? A pergunta surge a propósito da violência do filmeanterior, considerando-se a delicadeza da própria diretora. Ela responde: "Acredito que todo homem tem umamulher dentro dele e toda mulher tem a sua porção masculina; oproblema é de que forma manifestamos isso e quanto essa porçãopode nos dominar."No Lido, há sete anos, Clara já havia conversadobastante sobre as religiões orientais: budismo, confucionismo,taoísmo. Acha que a o zen resume tudo. "Nele, o menos é mais."Essa busca de um equilíbrio, de uma tranqüilidade interior comoforma de enfrentar a desordem do mundo moderno, é que anima suaconcepção do cinema: "O filme é uma forma única de arte; é oespelho que pode refletir a alma e isso é o que me interessa."A Deusa de 1967 (The Goddess of 1967). Drama. Direçãode Clara Law. Austrália/2000. Duração: 118 minutos. 12 anos.

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