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Chico Buarque aparece descontraído como você nunca viu em documentário

Filme traz precisas observações sobre a vida e a obra do artista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2015 | 20h27

RIO - Mestre de cerimônias da brevíssima cerimônia de abertura do Festival do Rio 2015 - apenas as duas diretoras (artística e operacional), Ilda Santiago e Walkiria Barbosa, discursaram -, Milton Gonçalves exagerou na dose ao saudar a cidade dita maravilhosa como o lugar que ainda dita as regras no Brasil. Grande homenageado da noite, Chico Buarque de Holanda, presente somente na tela, no documentário de Miguel Faria Jr. que inaugurou o festival - Chico - Artista Brasileiro -, colocou as coisas em perspectiva. Chico reafirma, no filme, que o Brasil, apesar de tudo, é um país melhor. Reflete sobre a cultura brega - a música - que acompanhou a ascensão das classes C e D, e faz até uma afirmação interessante. O Rio, a elite carioca, gestou a bossa nova e impôs aquele tipo de música que, por sua sofisticação, não deveria ser popular. Hoje, isso talvez não ocorresse, mas Chico não usa sua pensata para evocações saudosistas.

É um belo filme. Estreia em janeiro, distribuído pela Sony. Chico teve a gentileza de não comparecer à abertura. Se fosse ao Cine Odeon, convertido em Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, teria sido o centro de todas as atenções. Walkíria, afinal, lembrou que Chico foi o farol de sua, da nossa geração. Não teria para ninguém, muito menos para o diretor Faria Jr., que estava feliz da vida - foi a terceira vez que um filme dele inaugurou o Festival do Rio. Em 2001, a honra lhe coube com O Xangô de Baker Street, que adaptou do livro de Jô Soares, sobre a aventura brasileira de Sherlock Holmes. Em 2005, com Vinicius, seu documentário sobre o diplomata, poeta e compositor Vinicius de Moraes.

Faria Jr. pode ter sido um autor radical/experimental no começo da carreira. Evoluiu para um cinema mais ‘palatável’. Vinicius ainda é o documentário campeão nacional de bilheterias e o diretor tem a seu crédito outros filmes curtos e longas que são celebrações musicais - Lamartine Babo, Waldemar Henrique Canta Belém e Para Viver Um Grande Amor. Chico frequentava a casa de Vinicius. O diretor era muito ligado a Susana de Moraes, que foi atriz de seus primeiros filmes e produziu o documentário sobre seu pai. É possível que, com outro diretor, Chico não se abrisse com tanta espontaneidade. Ele fala da origem familiar - filho de Sérgio Buarque de Hollanda, ‘mais historiador que sociólogo’, esclarece -, lembra o estouro de A Banda, evoca problemas com a censura.

Num determinado momento, em crise como compositor, voltou-se para a literatura. Escreveu um romance, mais um. Virou escritor e hoje tenta conciliar. Faz planos. Começa a compor para o próximo CD em 2017, lança o disco em 2020. Escreve o próximo livro (em 2025?). O novo livro trata do ‘irmão alemão’ e a busca por essa figura (sonhada? Adivinhada?) invade o filme. O que Chico diz sobre a ex-mulher, Marieta Severo, é lindo. O que Maria Bethânia lembra que Mãe Menininha do Gantois disse sobre ele, depois de ouvir Olhos nos Olhos, não é menos belo. O filme é um tributo - uma revelação -, sem ser hagiográfico. E Chico reflete. A memória, o que a gente pensa que é lembrança, é impregnado pela imaginação. Ruy Guerra fala da ‘envergadura intelectual’ de Chico. Edu Lobo diz que ele é muito engraçado. Nem precisava. Ele sabe contar suas histórias de um jeito irresistível.

CARIOCAS

Júri

Walter Carvalho, grande fotógrafo e diretor - faz a câmera na cena do duelo final do belo A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Vinicius Coimbra -, preside o júri que entrega dia 13 o troféu Redentor para os melhores da mostra competitiva Première Brasil

Homenagem

Pelo 2º ano, o festival outorga um prêmio ao melhor filme de perfil LGBTQ. E este ano homenageia Suzy Capó, que morreu em janeiro e fazia a seleção da antiga mostra Mundo Gay. O troféu com o nome dela vai para... Rogéria

Muitas atrações nacionais e até um ‘noir’ mexicano

RIO - Na entrevista que deu ao Estado, Ilda Santiago, diretora artística do Festival do Rio, destacou que o evento deste ano pode estar mais compacto, com menos filmes, mas certamente não diminuiu a participação brasileira. Serão entre 60 e 70 filmes nacionais, curtas e longas, incluindo uma joia paulista de duração reduzida, mas grande no alcance artístico e humano - Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano, que revisita o universo musical de Adoniran Barbosa. Corrigindo os números, o festival deve apresentar 250 filmes. A inauguração foi na quinta, 1.º, com Chico, de Miguel Faria Jr., e, na sexta, 2, começou a Première Brasil, que é, tradicionalmente, a grande vitrine que o Rio abre para a produção nacional.

O primeiro longa da mostra competitiva da Première Brasil foi o documentário Betinho e a Esperança Equilibrista, de Victor Lopes, sobre “o irmão do Henfil” que, como cantava Elis, virou a expressão de um Brasil banido pela ditadura e que um dia voltou. Hemofílico de nascimento, Herbert de Souza, o Betinho, enfrentou e venceu a tuberculose, a clandestinidade e o exílio. Virou símbolo da anistia, celebrado por Aldir Blanc e João Bosco, e iniciou as primeiras campanhas de conscientização e combate à aids, depois de ter sido contaminado. Chico Buarque, José Serra e Maria Nakano estão entre os que dão depoimentos sobre esse personagem singular.

Saiu a dura realidade de Betinho e a Esperança Equilibrista e o Lagoon, na Lagoa Rodrigo de Freitas, abrigou o início de outra mostra, Expectativa, com mais um filme de diretor brasileiro, no caso, uma coprodução canadense. Zoom, de Pedro Morelli, passou antes em Toronto. O filme narra várias histórias simultâneas que vão se abrindo umas nas outras e o barato é a mistura de live action com animação. 

Para este sábado, 3, o festival promete atrações das mais diversificadas, a começar por Mundo Cão - brasileiro, claro. O novo longa de Marcos Jorge narra o que ocorre quando funcionário do controle de zoonoses do município de São Paulo - o homem da ‘carrocinha’ - laça um enorme cachorro que, vem a saber depois, pertence a um tipo mal-encarado, e com vínculos com a bandidagem. Quando o dono aparece, o cão, como manda a lei, já foi sacrificado. O que se segue é um retrato das violentas tensões sociais que ameaçam explodir o Brasil de hoje. O elenco ajuda a criar expectativa - Lázaro Ramos, Babu Santana e Adriana Esteves. 

Como um grande festival, mesmo privilegiando as novidades, não se faz só com elas, a retrospectiva Cinema Noir Mexicano traz um título cultuadíssimo. A Deusa Ajoelhada/Las Diosa Arrodillada, de Roberto Gavaldón, com Maria Félix. É, ao mesmo tempo, noir e melodrama. E Maria Félix, em 1947, era, sem sombra de dúvida, não uma das mulheres mais belas do mundo, mas a mais bela. / L.C.M.

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