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'Chicago Boys' mostra o neoliberalismo e sua gênese na América Latina

Filme enfoca o Chile ao falar sobre essa curiosa doutrina do Deus Mercado, dominante nos dias de hoje

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2016 | 20h06

O Chile de Pinochet serviu de laboratório para as ideias econômicas neoliberais, depois generalizadas sob a batuta de Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Isso já é fato conhecido. A novidade de Chicago Boys, da dupla de diretores Carola Fuentes e Rafael Valdeavellano, que será exibido nesta quarta, 13, às 19 h, no Cinearte, consiste em prospectar as raízes desses fatos, desde a formação de jovens economistas chilenos no Departamento de Economia da Universidade de Chicago, sob a batuta ultraliberal de Milton Friedman. 

São entrevistados Rolf Lüders e Sergio de Castro, ministros de Pinochet, Ernesto Fontaine, colaborador do regime, Carlos Massad, ex-presidente do Banco Central. Como contraponto, Ricardo Ffrench-Davis, crítico das ideias neoliberais adotadas no Chile e de suas consequências sociais.

Eles recordam e são vistos em filmes domésticos, nos tempos de estudantes pobres em Chicago. Bebem, namoram, estudam e, sobretudo, assimilam o ideário neoliberal. De volta ao Chile, já de posse de uma educação formal bastante consistente e ideológica, os “Chicago Boys” se instalam na Universidade Católica de Santiago, onde passam a ser conhecidos pela exigência didática em relação aos alunos, aprendida nos EUA. 

O Chile vive tempos de tensão. O democrata-cristão Eduardo Frei foi derrotado por pequena margem pelo socialista Salvador Allende. Quando a esquerda ganha por pouco, pode-se esperar turbulência. Ainda mais naquela época, anos 1970, em plena vigência da Guerra Fria. Greves e boicotes enfraquecem o regime e fazem a classe média bater panelas. A imprensa apoia o golpe. Chamadas, as Forças Armadas não faltam a seu compromisso “com a democracia” e dão o golpe. 

Os militares assumem com mão de ferro, mas não dispõem de um plano para tocar a economia real. Nesse momento, os “Chicago Boys” são convocados e, a toque de caixa, redigem um plano longo e minucioso, apelidado de El Ladrillo (O Tijolo) por sua aparência maciça. El Ladrillo passa a ser a bíblia da economia chilena. Um dos então jovens economistas defende as ideias, mas admite que apenas sob uma ditadura elas poderiam ser implantadas. De fato, numa sociedade politizada como a chilena, só a poder de baioneta poderia ser adotado um programa radical de desregulamentação da economia, enxugamento do Estado, fragilização de sindicatos e privilégio ao capital. Todo o receituário que faz da economia um valor em si. A população serve à economia em vez de esta servi-la. 

Chicago Boys toca na gênese dessa curiosa doutrina do Deus Mercado, dominante na atualidade. Um dos golden boys da nova ordem insiste em que as medidas levaram à modernização econômica do Chile, tido hoje como exemplo entre os países da América Latina. Quando questionado sobre os crimes da ditadura, garantem que “nada sabiam” do que se passava no país. Perseguições, tortura, mortes, desaparecidos: nada era com eles. Ocupavam-se apenas de taxas de inflação e curvas de desenvolvimento. E também quando lhes perguntam pelo motivo das manifestações de rua no Chile de hoje, dizem não entender e sentem-se perplexos com a incompreensão das pessoas. Essa esquizofrenia econômica não é exclusividade chilena. Chicago Boys é obrigatório para quem deseja entender o que se passou no Chile e nos outros países. Este é o nosso mundo.

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