'Chega de Saudade' traz o salão de baile para as telas

Novo filme de Laís Bodanzky estréia nesta sexta, 21, em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 Março 2019 | 16h18

É um filme sobre um salão de danças, sobre o tempo e personagens solitários, que buscam afirmar, no fugaz instante em que rodopiam pelo salão, a própria vida. Essa poderia ser uma definição sucinta de Chega de Saudade, o novo filme de Laís Bodanzky, que estréia nesta sexta-feira, 21, em 31 salas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília. Laís trabalha novamente sobre um roteiro de Luiz Bolognesi, seu parceiro na arte e na vida, autor do roteiro de Bicho de Sete Cabeças e pai de seus dois filhos. Ela está feliz da vida, mas exaurida. "Em todas as suas etapas, Chega de Saudade foi mais complexo e, nesse sentido, difícil do que o Bicho. Estou cheia de expectativa, mas também cansada. Se você me pedir alguma definição sobre o que vou fazer a seguir, não conseguiria pensar em nada nem teria coragem de embarcar imediatamente em outra aventura desse porte. Daqui a um mês ou dois, talvez."  Veja também:Trailer de 'Chega de Saudade'  Ouça trecho de 'Você Não Vale Nada'   Laís e Luiz conversam com o repórter do Estado no bar do Anexo do Espaço Unibanco, na Rua Augusta. Daqui a pouco, eles vão atravessar a rua para participar - somente como espectadores - de um encontro de BiD, autor da trilha, com o público, mediado pelo jornalista Christian Peterman. Todas essas características referidas no começo do texto - o baile, o tempo - induziram muita gente a fazer a associação mais óbvia, justamente com O Baile, filme de Ettore Scola, de 1983. O diretor e roteirista italiano foi uma referência, sim - Luiz Bolognesi o coloca no panteão de seus roteiristas preferidos -, mas o filme que Laís e Luiz tomaram como paradigma foi outro, O Jantar, que Scola realizou 16 anos mais tarde. "Quando percebemos que o princípio dos dois filmes era o mesmo, estudamos O Jantar. Decupamos cena por cena, e O Jantar terminou sendo a nossa referência. Ambos começam mostrando a chegada das pessoas ao restaurante e ao salão de baile. Acompanham tudo o que se passa lá dentro, no salão e nos bastidores. E, depois, ambos vão mostrando as pessoas que abandonam o lugar, até ele ficar deserto." Uma referência não significa dizer que Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi copiaram Scola e seu ‘jantar’. Digamos que o cineasta italiano lhes ajudou a resolver certas dificuldades intrínsecas ao projeto (e ao tipo de narração sutil proposto pelo novo filme). Na verdade, todas as pontes que Laís e Luiz fazem entre seu filme e o de Scola são válidas, mas o repórter arrisca outra interpretação. É um filme sobre dança, sobre tempo, solidão, sobre vários personagens marcados pela experiência de uma única noite, num mesmo espaço - nenhum deles sai daquele salão do jeito que entrou -, mas Chega de Saudade é, no limite, um filme sobre a palavra. Laís e Luiz entreolham-se. Como? François Truffaut fez diversos filmes - construiu uma obra inteira - para dizer que o amor se constrói na oposição entre o gesto impulsivo e a palavra consciente. O gesto é freqüentemente impulsivo em Chega de Saudade, a palavra pode ser consciente (mas nem sempre). Os extremos são fornecidos por dois personagens emblemáticos - o de Paulo Vilhena e o de Stepan Nercessian. Paulinho vive uma relação meio institucional com Maria Flor. São jovens, belos, mas ele usa a palavra para agredir, para tentar dominar. A relação de Nercessian com Cássia Kiss é mais subversiva - ela chega a dizer que não quer prendê-lo, porque na gaiola o passarinho não canta. Nercessian possui o que se poderia chamar de ‘lábia’. Ele é um encantador da palavra. Usa-a para seduzir e, efetivamente, possui essa força sobre a mulher - alguma coisa que vem da experiência e que o jovem, ainda imaturo, precisa adquirir. "Que lindo!", exclama Laís. "Nunca ninguém viu o filme dessa maneira e ela me encanta porque valoriza ainda mais o trabalho do Luiz, e só eu sei quanto ele é importante." Chega de Saudade chamava-se, inicialmente, União Fraterna, como o salão de danças na Lapa, em que foi filmado. Ao salão vão alguns jovens, mas a maioria é formada por um público mais maduro. A origem do projeto é antiga, anterior a Bicho de Sete Cabeças. Naquela época, Luiz e Laís já tinham a idéia de um filme sobre um burocrata, um senhor que freqüentava um salão de danças. O projeto não andava, eles não sabiam direito como lidar com ele. Surgiu Bicho, a dupla foi arrebatada e o filme virou uma das obras-farol do cinema da Retomada, período que começa com Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, de Carla Camurati, em 1995. Depois do Bicho - que é 2000 -, o projeto do ‘velho’ voltou, mas aí Laís e Luiz já estavam mais maduros e ele percebeu que a melhor parte da vida do personagem era o salão de danças. Se era assim, por que não fazer logo o filme sobre o salão? Luiz escreveu cinco versões do roteiro de Chega de Saudade. A sexta foi a filmada. Qual era a maior dificuldade? "É um filme sobre um espaço. Não tem um personagem principal. Possui vários personagens que evoluem por meio de pequenos gestos e situações. Não há uma grande história. Tudo é mais sutil do que no Bicho", ele avalia. Laís sabia disso, mas admite que ficou desconcertada na primeira semana de filmagem. Chegou a dizer a Luiz que achava que eles não iam conseguir. "Eu filmava um dia inteiro e chegava em casa com a sensação de que não ocorria nada no filme." Na segunda semana, ela já sabia como mostrar a sutileza dos personagens (e da história, que é tênue, mas existe). O desafio continuou com o elenco. Grandes atores contracenam com os autênticos freqüentadores do União Fraterna, que receberam preparação de Sérgio Pena, com quem Laís havia trabalhado no Bicho. As dificuldades, em todos os níveis, foram estimulantes. A pergunta que não quer calar - Laís e Luiz são pés-de-valsa? "Não somos grandes dançarinos, mas a gente adora dançar. No começo, íamos muito ao Panelinha Baiana, um salão em Pinheiros que agora virou estacionamento", conta Luiz. O lugar era um centro de brega e forró. "Tocava muito Reginaldo Rossi", lembra Laís. Claro que ele não podia faltar em Chega de Saudade.   Chega de Saudade (Brasil/ 2007, 92 minutos) - Drama. Direção de Laís Bodanzky. 14 anos. Cotação: Ótimo

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