Chega às telas 'Rita Cadillac - A Lady do Povo'

Toni Venturi, cineasta considerado político, faz um documentário sobre a ex-chacrete Rita Cadillac

15 de abril de 2010 | 18h25

LUIZ ZANIN ORICCHIO - SÃO PAULO - Ao assistir a vários filmes lançados sobre o Carandiru (entre eles os de Babenco e o de Paulo Sacramento), Toni Venturi reparou na presença constante de uma curiosa figura. A ex-chacrete Rita Cadillac neles aparecia como destaque, não apenas para fazer campanhas contra a aids, mas porque exercia curioso fascínio sobre os presidiários. Ao vê-la seguidamente nas telas, Toni pensou que poderia dirigir seu foco de documentarista sobre essa personagem - "Alguém desse Brasil invisível que me interessa mostrar", diz ao Estado.

 

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E por que Brasil "invisível"? Toni responde que não é o Brasil da mídia de classe média, da badalação, o Brasil cheiroso, bem falante e bem pensante. "É o Brasil dos trabalhadores braçais, dos desempregados, de quem ficou à margem e luta para sobreviver." Esse é o foco que desejou imprimir a esse seu trabalho, neste ponto de sua carreira.

 

 

Uma certa virada, mas, na análise do realizador, coerente com a própria trajetória. Toni, que começou fazendo um documentário sobre um grande personagem histórico - Luiz Carlos Prestes - em O Velho, dirigiu depois sua câmera a mulheres como aquela perdida no fim do mundo em sua ficção Latitude Zero, ou as lutadoras do movimento dos sem-teto em Dia de Festa. "Acho que a Rita que eu descobri é também uma lutadora, uma mulher que veio de baixo e, se não tivesse conseguido usar seus atributos físicos de determinada maneira, poderia ter acabado na miséria, ou na prostituição", diz.

 

Sim, há essa menção no filme, e é a própria Rita que evoca seu passado. Isso fez parte do acordo com o realizador: não haveria pontos proibidos. "Falei com ela antes de começarmos e nos pusemos de acordo em tocar em tudo o que fosse importante em sua vida, doloroso ou não, e ela concordou." Assim, a passagem pela vida de garota de programa não fica de fora. Nem sua participação, já tardia, em filmes de sexo explícito, que lhe deram um dinheiro que, de outra forma, não teria. Tudo está lá. Como está a lembrança da infância difícil, um casamento equivocado, tropeços e a sorte grande de entrar para a TV e num programa de visibilidade como o do Chacrinha.

 

Se não havia assuntos-tabu, a confiança era mútua entre personagem e cineasta. Tanto assim que, quando Toni já tinha o filme pronto, quis mostrá-lo a Rita para ver se havia alguma objeção. Para sua surpresa, ela disse que não queria vê-lo. Queria assistir ao seu lado, junto com o público, na estreia. E assim foi feito numa superlotada sala do Cine Odeon, no Rio, durante o festival. "Ela assistiu ao meu lado, nervosa, pegando a minha mão; mas acho que eu estava mais nervoso do que ela", conta Toni.

 

Mesmo assim, duas sequência não entraram "apenas porque não fariam sentido dentro da narrativa e não por imposição dela", diz. Quais foram essas sequências? Numa, Rita evoca o caso amoroso com um "grande diretor da Globo", casado, mas que não consentiu ser ouvido pelo cineasta. Noutra, são imagens da mãe de Rita, que estava com Alzheimer. "Acho que existem limites éticos", diz Toni. "Embora respeite seu trabalho, eu não sou o Michael Moore, por exemplo, e não me dou o direito de invadir a privacidade das pessoas."

 

Esse tom ético permeia o documentário e determina os limites autoimpostos. "Acho que há certas cenas, como as do casamento da Rita, de vestido branco, que se prestariam com facilidade ao caricatural, mas tentei evitar isso de todos os modos", diz. Toni entende que existe um movimento de resgate desse "lado B" do Brasil, e que ele só tende a enriquecer o nosso cinema e a compreensão do País. "Sei que há projetos de filmes sobre o Falcão (cantor e cômico cearense) e sobre os artistas chamados bregas." Isso é muito legal. Desde que feito com ética. Quer dizer, sem aquele ar superior de alguns cineastas de classe média quando olham o mundo e gente diferentes deles.

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