Chega às telas "O Clã das Adagas Voadoras"

O Clã das Adagas Voadoras, segundo filme de artes marciais de Zhang Yimou, diretor de Herói, estréia hoje no Brasil. Quase três anos separam a realização dos dois filmes, mas eles chegam juntos e na ordem cronológica. Herói é o mais belo, visualmente, dos filmes, mas sua ideologia, no limite, pode ser considerada um tanto duvidosa - o rei sanguinário que tem a visão unificadora do imperador. O Clã é igualmente deslumbrante para os sentidos, embora não tanto, e é mais denso, sua ideologia é mais consistente. Faz um diálogo entre China e Japão. Nos filmes que o consagraram no Ocidente e fizeram dele um dos mais premiados dos diretores - O Sorgo Vermelho, Lanternas Vermelhas, Qiu Ju -, Zhang Yimou tratou sempre da condição inferior da mulher na sociedade chinesa tradicional. A Gong Li destes filmes não é submissa, mas não vive pegando em armas como a altiva Mei (Zhang Ziyi) do Clã. Em Cannes, no ano passado, o diretor admitiu que quis oferecer um grande papel à sua atriz, depois de fazê-la interpretar outro, menor mas não menos importante, em Herói. A história é tradicional. Desenrola-se no quadro de uma China medieval e dominada pela tirânica dinastia Tang, que governou o país entre os séculos 7.º e 10.º. É nesse quadro que um clã de rebeldes, a Casa das Adagas Voadoras, ameaça o poder central. Um jovem capitão é encarregado de infiltrar-se no grupo, mas antes ele deve saber se a bela cortesã que acaba de chegar à cidade é mesmo a filha do chefe rebelde. Zhang Ziyi é cega, o herói simula um duelo com seu rival para tornar-se confiável aos olhos da garota. E, assim, entra no covil dos rebeldes. Parece simples, mas, na verdade, nada é o que parece ser no Clã. Comportamentos dissimulados, traições (no amor e na política) - a vida vira um teatro no filme de Zhang Yimou, que converge para o obrigatório duelo final entre os rivais Jin e Leo, interpretados por Takeshi Kaneshiro e Andy Lau. Poucos filmes oferecem tantas grandes cenas e o importante é que elas não compõem um mosaico irregular numa realização de altos e baixos, mas integram-se num conjunto poderoso, do qual emergem não estereótipos, mas verdadeiros personagens dignos do gênio de Kurosawa. Como o mestre japonês, Zhang Yimou acredita no paradoxo e no movimento. A dança dos tambores, o duelo na floresta de bambus, a trajetória de flechas, sabres e outros tipos de projéteis disparados em direção à câmera, tudo impressiona - e você vai perceber porque, no Festival de Cannes de 2004, o presidente do júri, Quentin Tarantino, que também incursionou pelo cinema das artes marciais em Kill Bill Volumes 1 e 2, não se conteve e, em plena cena aberta, levantou-se para gritar ´Bravo!´ Isto, em geral, é permitido só em concertos e óperas. Não sufoque seu grito. Zhang Yimou fez outro (grande) filme que revoluciona o conceito da aventura na tela. O Clã das Adagas Voadoras (Shi Mian Mai Fu, Chi-HKong/ 2004, 119 min.). Ação. Dir. Zhang Yimou. 14 anos. Em grande circuito. Cotação: Ótimo

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