Chega às locadoras "Estorvo", de Ruy Guerra

Sugerir Estorvo para assistir em casa, numa horinha de folga, é um perigo. O leitor pode até ficar bravo se não for um interessado na arte cinematográfica. Mas correr riscos pode ser mais interessante do que assistir a filmes previsíveis e banais e é por aí que vale a pena sair da rotina. Ser cult de vez em quando, para variar.Não há Nova York, Las Vegas ou outra grandiosa cidade em estarrecedoras tomadas aéreas. Não há cidade alguma em Estorvo, filme de Ruy Guerra, o diretor de Os Cafajestes, Os Fuzis, entre outros. Não há um personagem com nome e sobrenome, não há um herói disposto a tudo nem uma grande nação a defender. Aliás, a falta do quê ser defendido é um dos motes subterrâneos deste filme, baseado na obra homônima de Chico Buarque.Não é um thriller nem filme de estrada, destes que o personagem soma experiências e sofre uma transformação - sempre para melhor, na ficção - e aquilo que ele era no começo do filme, deixa de ser no final. Nada disso.Mas há o ator Jorge Perrugoría e sua mala, caminhando sem rumo. Nada a ver com você? Então pense num apagão sem hora marcada e você no meio da cidade, louco para chegar a um lugar seguro. Pense no que isso representa de retrocesso e a a emperrada história de Estorvo parecerá familiar.Para perceber que o risco de assistí-lo não é tão grande, basta lembrar que Chico Buarque tem parabólicas nos neurônios capaz de captar sentimentos coletivos, especialmente, os dos brasileiros. E que Ruy Guerra, um dos mais importantes cineastas brasileiros, quando fez Estorvo quis, sobretudo, trabalhar a linguagem do cinema. Algo raro até para o cinema brasileiro, cujos representantes ultimamente estão muito preocupados com a formação de uma indústria, portanto defendendo filmes "que dialoguem com o público" (leia-se vendam ingressos).Todo mundo quer uma história bem contada e dinheiro em caixa para produzir mais e melhores filmes. Mas alguém, de vez em quando, tem de abrir mão do esquema começo-meio-fim para gerar novas idéias e imagens. Ruy Guerra foi fiel ao livro e, para mostrar ao espectador o mundo que o personagem em crise vê, estimulou sua equipe e seu diretor de fotografia, Marcelo Durst, a buscar novas soluções técnicas. Divertido não é, mas pelo menos não dá a sensação de tempo perdido na frente do vídeo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.