Chega aos cinemas <i>Cartas de Iwo Jima</i>, de Clint Eastwood

Clint Eastwood teve seu momento de Kurosawa no Festival de Berlim. Foi recebido como um imperador, saudado com reverência por uma platéia de jornalistas de todo o mundo, quando veio mostrar, fora de concurso, Cartas de Iwo Jima. O filme estréia na sexta-feira nos cinemas brasileiros. Forma um díptico com A Conquista da Honra e, para a maioria da crítica, é melhor - Clint concorre aos Oscars de filme e direção por Iwo Jima. O filme é falado em japonês. ?Foi um longo caminho até me tornar um cineasta japonês?, ele disse. Clint morava em Los Angeles, nos anos 50, quando assistiu, perto de sua casa, a filmes que foram decisivos na sua formação, como Rashomon, Os Sete Samurais e Yojimbo, de Kurosawa. Ele havia concluído A Conquista da Honra quando iniciou a filmagem de Cartas de Iwo Jima. ?Esses homens deram a vida pelo seu país, convencidos de que a resistência em Iwo Jima iria retardar a invasão do Japão. Depois de discutir o heroísmo em A Conquista da Honra, achei que seria importante, para o público de todo o mundo, saber quem foram essas pessoas.? Cartas nasceu, assim, da vontade do diretor de dar um rosto, uma voz, um sentimento ao outro. Agora mesmo, na Guerra do Iraque, o inimigo é demonizado pela máquina de propaganda, porque é assim mesmo que as coisas funcionam. O inimigo é o inimigo, mas não para Clint. O outro tem uma identidade para ele. "Acho que se podem fazer paralelos entre a situação retratada no filme, durante a 2.ª Guerra, e o que ocorre hoje no Iraque, mas não foi intencional. Queria refletir sobre aquela época. E nunca me preocupei em fazer um filme japonês, porque não conseguiria imitar os grandes diretores japoneses a quem admiro. Fiz o filme como sempre faço, motivado por minha emoção e curiosidade", disse o cineasta. Clint e Watanabe O grande Clint havia conhecido Ken Watanabe na cerimônia de premiação do Globo de Ouro, há dois anos. Conversaram, descobriram afinidades - como Clint descobriu com Kurosawa, ao encontrar o imperador do cinema japonês no Festival de Cannes -, ficaram de se manter em contato. Ao decidir-se a fazer seu épico sobre o outro lado da batalha de Iwo Jima, a versão dos japoneses, Clint imediatamente pensou em Watanabe para o papel do lendário general Tadamichi Kuribayashi, que comandou a resistência à invasão americana, na ilha do Pacífico. Kuribayashi havia freqüentado a academia militar nos EUA. Sabia da superioridade bélica do oponente. Em vez de combater na praia, como o alto comando japonês esperava que fizesse, cavou uma complexa rede de túneis para abrigar o reduzido contingente de soldados de que dispunha. ?Seu porte é extraordinário?, havia dito Clint, sobre Watanabe. Ele conversa com o repórter do Estado e o porte é mesmo majestático. Não haviam muitas informações sobre Kuribayashi, apenas algumas cartas que ele escreveu à mulher e aos filhos, Watanabe visitou seus descendentes, foi à região em que Kuri nasceu, pagou seu respeito, jogando água, como fazem os japoneses, em sua lápide, mas ele admite que criou o general com toda liberdade. ?É o jeito de trabalhar de Clint. Ele nunca me deu instruções, mas de nossas conversas eu sabia como via Kuri.? O próprio fato de Clint ser um estrangeiro no Japão selou a cumplicidade entre ambos. ?Muitas vezes ele simplesmente não sabia e apelava para sua intuição, ou então ouvia o que lhe dizíamos. A cena da refeição de Kuribayashi com o Barão Nishi foi filmada do jeito que sugeri. Não são muitos diretores que trabalham desse jeito.? Carreira de Watanabe Watanabe fez, no começo de sua carreira, um filme de muito sucesso no cinema brasileiro - Tampopo, Os Brutos não Comem Espaguete, de Juzo Itami. Quando o repórter lembra Tampopo, ele abre um largo sorriso. Acha inacreditável. ?Há pouco eu estava falando desse filme e ninguém sabia do que se tratava.? Sua fase recente é marcada pela passagem por Hollywood, em filmes como O Último Samurai, de Edward Zwick; Memórias de Uma Gueixa, de Rob Marshall; e agora Cartas de Iwo Jima. Watanabe tem gostado das experiências, independentemente da qualidade isolada dos filmes. ?Aprendo muito trabalhando no Ocidente?, ele diz e é o reverso do que disse Clint - ?Aprendo muito filmando no Japão.? Grandes artistas não se consideram donos da verdade. Clint, pelo menos, é assim. ?Fiz Cartas de Iwo Jima como se eu fosse um principiante, tentando descobrir os temas e personagens.? Kuribayashi, afirma Watanabe, é um mistério no próprio Japão. ?Espero que o filme desperte a curiosidade do público por sua figura.? O fato de não haver seguido as estratégias que esperavam dele foi muito discutido, mas hoje se pode dizer que ele foi brilhante. Também veio de Watanabe a importância atribuída ao revólver que o general ganhou nos EUA. ?Ela estava meio diluída no roteiro e Clint gostou quando lhe disse como achava que deveria ser a morte de Kuribayashi.? O rígido código de honra japonês, o bushido, que desde os samurais prega o suicídio ritual, o haraquiri, para fugir à desonra, foi outro desafio, não apenas para Watanabe, mas para seus colegas de elenco.Tsuyoshi Ihara, que faz o Barão Nishi, conta que é um ator japonês de origem coreana e isso de alguma forma o segrega no cinema do Japão. ?Sinto que, por mais que me respeitem, me encaram sempre como um estrangeiro.? Isso serviu ao personagem, este militar do mundo, que chega a Iwo Jima montado no cavalo com que ganhou concursos de equitação em todo o mundo (e, nos EUA, levou-o a freqüentar a casa de astros e estrelas de Hollywood). ?Minha origem é humilde; não tenho nada a ver com o aristocrata que Nishi era, mas como diz Clint é o desafio de dar vida ao outro, ao que é diferente de nós, que nos inspira na carreira de atores.? Kazunari Ninomyia, que interpreta o soldado raso Saigo, é, de todos eles, a maior estrela no Japão, mesmo que seja da música, não do cinema. Os 15 minutos de entrevista com ele são acompanhados por um cinegrafista que capta imagens para um documentário da TV japonesa. Ninomyia achou inicialmente que o filme era com Clint, depois soube que era de Clint, mas isso, de qualquer maneira, não lhe dizia muita coisa, porque ele não se liga muito no universo do cinema. Aos 24 anos (nasceu em 1983), interpretou Saigo como um tributo ao avô, que foi soldado em Iwo Jima e sempre lhe contou histórias da guerra.

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