Chega a SP quinto filme do Dogma 95

Depois de Festa de Família, Os Idiotas, Mifune e Amantes (que Jean-Marc Barr realizou na França), chega a São Paulo o quinto Dogma. Uma das atrações da Mostra neste fim de semana é O Rei Está Vivo, de Kristian Levring. O diretor dinamarquês foi um dos signatários, com Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, do Dogma 95, o documento no qual os monges-cineastas da Dinamarca estabeleceram suas regras para a realização de filmes.O Rei Está Vivo tem todas as características do movimento. Desde os primeiros planos-seqüências fica claro o partido do diretor de apresentar seu drama da maneira crua que caracteriza o Dogma. Nada de efeitos plásticos nem cênicos, o que não impede o filme de ser visualmente bonito, como o são outras produções do Dogma. Os amarelos e vermelhos vivos das cores, o ocre do deserto compõem um quadro muitas vezes suntuoso dentro do minimalismo e da pobreza de recursos que, paradoxalmente, caracteriza o Dogma.Não é de hoje que o cinema usa o deserto como metáfora do estar no mundo. Também não é de hoje que conta histórias sobre grupos de pessoas que tentam sobreviver nas areias escaldantes. Pode-se citar um exemplo entre muitos - O Vôo do Fênix, de Robert Aldrich, sobre os esforços dos sobreviventes de um acidente aéreo para resistir (e voar de novo). Há nesse filme uma cena emblemática. Aldrich filma a extensão do deserto e imprime sobre essas imagens o som. A canção Senza Fine dá outro sentido ao mar de areia.Os sobreviventes de O Rei Está Vivo são passageiros de um ônibus. Homens e mulheres de diversas raças, todos adultos entre eles atores conhecidos do público como Jennifer Jason Leigh. A avaria do ônibus deixa os personagens perdidos no deserto. Tentam resistir, estabelecem normas de conduta. O grupo vira microcosmo da sociedade, logo começa a desintegrar-se. Surgem as brigas, as agressões verbais e até físicas. O sexo é um elemento poderoso do drama.Na tentativa de reordenar o grupo ou levar as pessoas a refletir sobre sua situação, o escritor do grupo faz sua proposta inusitada. E por que não encenar no deserto a peça que representa a suprema criação humana sobre o declínio moral e material? Shakespeare irrompe no deserto. O grupo passa a recriar cenas e diálogos de Rei Lear.É uma idéia certamente ousada, a de Kristian Levring. Mas talvez não seja tão original, pois outro praticante do Dogma já incorporou Shakespeare à própria dramaturgia. Vinterberg construiu sua festa à sombra de Hamlet, sem nunca se referir explicitamente, à peça famosa. Festa de Família virou um marco do Dogma, mas é tão bem escrito, tão bem interpretado que talvez fosse bom de qualquer outra maneira, independentemente dos preceitos do Dogma. O Rei Está Vivo não é tão bom, mas possui cenas fortes e sua ambição é daquelas que, mesmo não concretizada, autoriza a expectativa em relação à carreira do diretor. A verdade é que, sob o arcabouço da novidade do Dogma, verifica-se, aqui, de novo, o que não deixa de ser uma concepção clássica do drama. O Dogma, como sempre, dá o que falar. O Rei Está Vivo - Direção de Kristian Levring. Duração: 109 minutos. Dinamarca. Legendas eletrônicas em português. Dia 22, às 14 horas, e dia 27, às 19h35, no Cineclube Vitrine. Rua Augusta, 2.530, tel. 853-7684. Dia 28, às 21h15, no Espaço Unibanco 1. Rua Augusta, 1.475, tel. 288-6780.

Agencia Estado,

20 de outubro de 2000 | 18h14

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