Antoine Monod
Antoine Monod

'Chateau-Paris' revela outro ângulo da capital francesa

Codiretor do longa explica a opção de filmar bairro menos conhecido da cidade e diz como a 'dramédia' ajuda a expor a diferença

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 06h00

Eles fazem parte da paisagem, os chamados ‘rabateurs’. Sua função é atrair clientes para os numerosos salões de barba, cabelo e unhas no bairro de Château D’Eau, em Paris. O Castelo D’Água, em tradução literal. É um bairro predominantemente de negros - africanos - na capital francesa. Numa entrevista por telefone, Cédric Ito conta que Château-Paris nasceu de seu desejo de filmar a cidade. Mas ele nunca quis filmar a Paris dos cartões-postais. “Queria mostrar o reverso disso, uma Paris pouco conhecida do público, e dos próprios parisienses. Château D’Eau foi se impondo porque é um bairro que conheço bem.”

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É uma estação da linha 4, no 10.º ‘arrondissement’. “Estive no Rio, no fim do ano passado, para participar de um festival de cinema pan-africano. Tenho a impressão de que essa história poderia se passar no Brasil. O colorido, a diversidade de vocês (brasileiros) é muito próxima da nossa. E tenho a impressão que aí, também, há um Brasil desconhecido dos brasileiros.” Cédric Ito coassina seu filme que estreou na quinta, 22, com Modi Barry. À frente do elenco está seu irmão, Jacky Ito, que faz Charles. “Comecei minha carreira formando dupla com Jacky. Sempre fomos bons de observação, construindo esquetes humorísticos totalmente escritos, mas que, num clima de camaradagem, conseguíamos tornar naturais, como se estivéssemos improvisando.”

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O filme mantém essa característica. “É completamente escrito, mas como nosso compromisso era com a veracidade do ambiente misturamos atores com não profissionais, para colocar na tela o clima local. E era importante que os atores dominassem as gírias locais. Sem isso, não iria funcionar.” Charles é um parisiense de origem africana. Vive no bairro de Château D’Eau, onde se cruzam chineses, indianos, senegaleses e nigerianos. “É um ‘rabateur’, e sua função é atrair clientes para os salões de beleza da região, especializados em penteados afros e cosméticos para peles negras. Charles enfrenta a concorrência, tem de ser o melhor no que faz.

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No fundo, é um sonhador, e o que mais quer é ter o próprio salão.” Se o bairro pode ser uma novidade, o salão, nem tanto. Tonie Marshall já colocou a sociedade francesa no seu Instituto de Beleza Vênus e a libanesa Nadine Labaki, em Caramelo, também filmou a Beirute francesa (e cristã) do interior de um salão exclusivo para mulheres.

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Ito conta como foi influenciado pelo cinema japonês dos anos 1970. “Tão logo definimos o conceito, e o local, ficou claro que nosso desafio seria filmar a rua, com seus personagens reais. Modi (o codiretor) e eu definimos que nossa prioridade seria desenvolver um estilo documental, baseado na mobilidade. Equipe reduzida, equipamento idem, para poder seguir os atores e criar essa sensação de movimento. Não estamos inventando nada. Esses caras (os japoneses dos 70) influenciaram (Quentin) Tarantino e boa parte do cinema autoral dos anos 1990. Influenciaram meus curtas, especialmente Hasaki Ya Suda, que trata do aquecimento global em chave de humor.” Justamente, o humor. “Às vezes, o cinema aborda personagens e lugares como os que filmamos com ênfase na violência. Nosso movimento é outro. Estamos fazendo ‘dramédia’. É sempre melhor rir do que se matar.”

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A busca da diversidade e da mobilidade revela o verdadeiro propósito de Château-Paris, que é a abertura para o outro. “Vivemos num mundo discriminador, em que o outro é sempre o inimigo. Nossa ideia (de Modi e dele) era quebrar essa desconfiança.” O repórter cita Caetano Veloso - de perto, ninguém é normal. Cédric Ito encanta-se com a ideia. “Se pelo menos as pessoas tivessem esse grau de autocrítica... Creio que estaríamos vivendo num mundo bem mais tolerante”, reflete.

 

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