Baris Azman Productions
Baris Azman Productions

Chas Gerretsen conta como registrou os bastidores do filme 'Apocalipse Now'

Em entrevista ao 'Estadão', fotojornalista holandês, que é tema do documentário 'Dutch Angle' revela detalhes sobre o seu trabalho ao lado do diretor Francis Ford Coppola

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2020 | 10h00

Nos extras de Apocalypse Now – Final Cut, o próprio Francis Ford Coppola conta que essa é a sua versão preferida do filme. Em 1979, ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes – dividida com O Tambor, de Volker Schlondorff -, mas repetidas vezes disse que o filme ainda não estava pronto e precisava ser aprimorado. Em 2001, lançou uma versão estendida – Apocalypse Now Redux. No ano passado, veio a que ele próprio considera a versão final. Com Coppola nunca se sabe. Ninguém garante que, daqui a pouco, ele volte ao Vietnã. Ao 'seu' Vietnã.

Apocalypse Now – Final Cut está no streaming do Belas Artes a La Carte.  Não é nem a questão de mais ou menos material. É o ritmo, o acabamento, o timing das cenas. No streaming, é recomendável que o cinéfilo interessado num dos filmes mais cultuados de todos os tempos veja também o documentário em que Eleanor Coppola conta como seu marido quase perdeu a razão com esse projeto monumental, O Apocalipse de Um Cineasta. Mas tem também um segundo documentário, Dutch Angle, de Baris Azman, sobre o fotojornalista Chas Gerretsen, que fez o still do filme. Ele respondeu às perguntas do Estadão por e-mail.



From real to reel, da guerra de verdade, que ele cobria, à guerra do cinema, como foi a passagem?  “Foi bem complicada. Como fotojornalista, sempre busquei o melhor ângulo, e no cinema descobri que o melhor ângulo é o da câmera. O outro melhor ângulo possível era de dentro do que estava sendo filmado e eu fui me metendo nas cenas. Estraguei tomadas. Depois de muitas advertências de que estava dificultando o trabalho da equipe, encontrei meu jeito. O que fiz foi a minha interpretação do que era filmado. Passei a colocar os atores posando em situações que considerava emblemáticas para retratar o mood da produção. Foi assim que fiz meus stills.”

O próprio Coppola fazia um correspondente de TV, numa cena em frente às câmeras de que participavam o diretor de fotografiaVittorio Storaro como câmera e o diretor de arte Dean Tavoularis como encarregado do som. E Coppola gritava - “Não olhem para a câmera.” Aquilo incomodou Gerretsen. Ele conta. “Na equipe havia quatro ou cinco correspondentes que, como eu, haviam feito a Guerra do Vietnã. E eu sabia que não era assim. Pedi para falar com ele, num intervalo de almoço. Francis é muito aberto a ouvir o que os outros têm a propor. Disse-lhe que, se quisesse mostrar os jornalistas como idiotas, ele poderia continuar daquele jeito. Porque nós, fotojornalistas somos loucos. Estasmos no meio da guerra e a lente é a nossa arma. No dia seguinte Francis me pediu que 'vestisse' Dennis Hopper – o Capitão Colby estava sendo transformado em fotojornalista. Vendi três das minhas câmeras Nikkon F, com lentes, para a produção e elas passaram a integrar o figurino do ator.” Apesar da maior proximidade de Hoopper – e de ele ser um tipo afável, que não criava problemas -, Gerretsen conta que se manteve distante do restante do elenco. Era sua função ver o todo e pinçar os detalhes.



Existem relatos que se tornaram lendários sobre a loucura que foi a filmagem nas Filipinas. Elaine Showalter fala em drogas, sexo, abusos de mulheres, até crianças. Casos de pedofilia, segundo ela. Gerretsen diz que não foi bem assim. “O sensacionsalismo vende. Ao mesmo tempo, todo mundo sabia que Francis estava fazendo um filme contra a Guerra do Vietnã. O governo dos EUA, os governos da Austrália e da Tailândia recusaram-se a colaborar e criaram narrativas para desacreditá-lo.” Coppola filmou nas Filipinas, com apoio da ditadura de Ferdinand Marcos, a peso de ouro. E Garretsen acrescenta - “Sim, havia muita droga, mas não do jeito que a Newsweek relatou depois que seu enviado não teve acesso ao set. Havia muita prostituição, mas as prostitutas não entravam no set, nem foram recrutadas para servir à produção. Havia centenas, milhares em Pagsanjan. O que quero dizer é que tudo foi muito exagerado como parte dessa mística do apocalipse de uma filmagem.”

Mesmo assim, ele conta episódios aterradores. “Havia muitos happenings, e para um deles alguém teve a ideia de colocar pedaços de corpos humanos como adereços. Mas os corpos apodreceram, atraíram ratos e o cheiro ainda era insuportável.” O verdadeiro horror, horror. E havia a corrupção. “A produção alugava helicópteros do Exército filipino. Lembro um dia em que 11 helicópteros haviam sido alugados para uma cena. Apareceram cinco, que foram pintados para parecer do Exército dos EUA. Os helicópteros eram pintados e despintados. Os outros seis participavam de uma operação real do Exército das Filipinas contra terroristas. Mas ninguém devolveu o dinheiro do aluguel. Era assim que as coisas funcionavam.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.