Focus Features
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Charlize Theron, estrela do filme 'Atômica', não tem medo de nada

Em época de empoderamento, atriz vem com toda força em ‘Atômica’

Cara Buckley, The New York Times

05 de setembro de 2017 | 06h00

LOS ANGELES - Dias atrás, a caminho de um almoço com Charlize Theron, eu não sabia ao certo se devia sentir empolgação ou um pouco de medo. Claro, Theron é uma atriz poderosa, tem o glamour da antiga Hollywood e um alcance considerável. Ela também interpretou uma série de mulheres letais de um jeito tão convincente que é difícil não concluir que uma parte de seu sangue corre em uma veia cheia de ódio canalizado. Por ser vencedora do Oscar, ela é muito boa no que faz, o que pode ser confirmado por suas contundentes atuações como matadoras reais e fictícias – a assassina condenada Aileen Wuornos, de Monster – Desejo Assassino, a Imperatriz Furiosa, de Mad Max – Estrada da Fúria, Ravenna, de Branca de Neve e o Caçador, e agora a protagonista implacável e boa de briga do novo Atômica.

Enquanto serpenteava até a mesa de um restaurante dos estúdios da Universal para nosso almoço, percebi que ela é luminosa, esguia e sua voz ainda soava meio rouca, pois estava se recuperando de um resfriado. Como provam as longas sequências de luta de Atômica, a ética de trabalho de Charlize Theron é, em certo sentido, doentia.

“Fiz dois filmes como dublê de Jean-Claude Van Damme”, disse David Leitch, ex-coordenador de dublês, diretor do filme John Wick e também de Atômica. “Ela deu muito mais duro que ele. Não tinha treinamento em artes marciais e teve força de vontade para chegar ao extraordinário.”

Além de firmar Theron como uma heroína de filme de ação, Atômica parece ser o passo mais lógico para uma atriz que em 2015 deixou todo mundo atônito como a guerreira Furiosa, roubando a cena de Tom Hardy, a estrela de Mad Max – Estrada da Fúria. Depois de brilhar em uma carreira camaleônica, atuando como interesse romântico ou protagonista dramática, ou anti-heroína ou, é claro, como serial killer, Theron chega aos 41 anos impondo uma marca de ferocidade e empoderamento feminino que o público adora. 

Como Furiosa, e também como Cipher, do mais recente Velozes e Furiosos, a personagem de Theron em Atômica é sagaz, não pede desculpas a ninguém e não está ali só para povoar e adornar um mundo definido pelos homens: ela toma o que lhe pertence. Em Atômica, Lorraine Broughton (Theron), agente de elite do MI6, chuta a porta de uma rede de espionagem na Berlim de 1989, enquanto tenta desvendar o assassinato de uma colega espiã. Não se trata de uma paródia dos coloridos anos 80. O filme é cool e delicioso. E Lorraine é uma assassina implacável, que acaba com homens de 100 quilos. Durante a produção, Theron machucou as costelas, torceu o joelho e cerrou o maxilar com tanta força que trincou dois dentes. “Eu estava uma pilha de nervos”, disse AJ Dix, sócio de Theron na Denver & Delilah, empresa que ajudou a produzir o filme. “Mas ela não se assusta com nada.”

Theron resiste à ideia de estabelecer ligações entre sua história e a de personagens, mas os transtornos por que essas personagens passaram, e a força com que elas ganharam a partir disso, são, para ela, pessoais. 

Quando tinha 15 anos e vivia na sua terra natal, África do Sul, seu pai, alcoólatra e abusivo, ameaçou a esposa e filha com um revólver. A mãe da atriz pegou uma arma e revidou, matando o pai. “Minha vida doméstica sempre oscilou entre a turbulência e a calmaria. Sobrevivi. Trabalhei duro para conseguir. Não tenho medo da escuridão.”  “Gosto de mulheres que lutam e saem dessas situações. Não são vítimas, mas também não são super-heroínas.”

Hoje, mãe de Jackson, de 5 anos, e August, 2, ambos adotados, Charlize Theron prepara com sua produtora duas séries na Netflix, e lida com o cancelamento de uma terceira, Girlboss. “É a vida”, acrescentou. “Fazer o quê?”

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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