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‘Chappie’ desconstrói gêneros e emoções

O novo filme de Neil Blomkamp foge a todas as classificações

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2015 | 03h00

Neil Blomkamp era um ilustre desconhecido quando Distrito 9 tomou de assalto as telas de todo o mundo, em 2009, e foi parar no Oscar. O diretor neozelandês, cria de Peter Jackson, tornou-se uma aposta da indústria de Hollywood. Fã de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, fez Elysium, com Wagner Moura, que tinha um visual impressionante, mas reciclava Distrito 9. Blomkamp vai dirigir agora o novo Alien, ressuscitando a série iniciada por Ridley Scott em 1979. Antes disso, fez Chappie, que estreia nesta quinta, 16. É a mais estranha (insólita?) das ficções científicas.

Um dos temas importantes do gênero sempre foi a relação do homem com a máquina, e isso bem antes que Stanley Kubrick criasse o onipresente e onipotente computador Hal 9000 de 2001, Uma Odisseia no Espaço, em 1968. Mais de 40 anos antes, em 1926, Fritz Lang já criara a mulher robô de Metrópolis, réplica de uma mulher de verdade que servia a uma confusa (ingênua?) tentativa de conciliação futurista do capital e do trabalho pelo amor. Desde Lang, surgiram muitos robôs, e um dos mais divertidos, quase humanos do cinema, é o de O Planeta Proibido, de Fred M. Wilcox, de 1955, que integra a nova caixa de DVDs da Versátil, que privilegia o gênero. Mas nunca houve um robô como Chappie.

Nunca houve um filme como Chappie. Pegando carona em contos de fadas, Blomkamp faz de Chappie o seu Pinóquio. Antes disso, ele é um robô policial como RoboCop, mas adquire sentimentos humanos por intermédio de um experimento secreto. O problema, se é que isso é um problema, é que Chappie, ao humanizar-se, vira um bebê e, como toda criança em tenra idade, é maleável, suscetível de ser influenciado.

Para desespero de seu criador, Dev Patel – de Quem Quer Ser Um Milionário? e O Exótico Hotel Marigold –, Chappie é ‘adotado’ por uma dupla de delinquentes, ou pelo menos um casal de comportamento antissocial, interpretado por Ninjas e Yolandi, que se tornaram fenômenos na Nova Zelândia com a banda Die Antwoord. O próprio casal une-se a Patel quando Chappie é desviado de sua vocação inocente pelo vilão Hugh Jackman – sim, o Wolverine, numa inesperada mudança de rumo na carreira. O resto é a disputa que todo mundo estabelece pela posse do ‘coração’ e da ‘mente’ do robozinho.

O grande desafio de Chappie – para a indústria e o público – está na forma bagunçada aparentemente como Blomkamp conta sua história. Alguns críticos já reclamaram que a trama é desconexa e confusa. Talvez não seja bem isso, pois Chappie, na verdade, quer fugir dos rótulos e gêneros. Um robô infantil que quer ser bonzinho, mas é orientado para o mal? Blomkamp mistura tudo – crítica social e política (Sigourney Weaver deixa-se enrolar por Hugh Jackman e não percebe o que ele está fazendo na empresa, em nome do lucro), humor, suspense, romance (do casal punk) e tudo isso num gênero, a ficção científica, que se presta às inovações visuais. O mundo é decadente, as roupas dos personagens e o próprio design de Chappie possuem algo de selvagem.

Mas isso é só aparência. O filme é moderno com cara de retrô, como Blade Runner, de Ridley Scott, declaradamente o modelo de Blomkamp em suas incursões futuristas – e ele se prepara para radicalizar, retomando Alien, famosa criação do diretor. Chappie também é violento e afetuoso, na medida em que o robô é carente. Todas essas misturas podem desconcertar, mas para quem entra no clima o resultado compensa. E há a parceria de Blomkamp com seu ator fetiche, Sharlto Copley. Em Distrito 9 e Elysium, o diretor já impôs profundas mudanças físicas ao ator, mas nunca como aqui. Copley é Chappie.

Por meio da técnica da motion capture, que Peter Jackson desenvolveu e aprimorou para criar o Gollum na série O Senhor dos Anéis, Blomkamp usa os movimentos do ator para dar forma física a Chappie. A voz é a de Copley. Qual será o próximo desafio de ambos? Blomkamp vai fazer de Copley o seu Alien? À espera desse novo filme, o Pinóquio ‘pervertido’ do diretor, o experimento em inteligência artificial desviado de sua vocação – o de Steven Spielberg e Stanley Kubrick já pegava carona em Collodi – situa-se a meio caminho entre o filme infantil e o adulto, entre a fábula violenta e o relato familiar. Pelo tanto que Blomkamp ousa, os defeitos que Chappie possa ter lhe serão perdoados. 

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