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‘Centro Histórico’: a magia de Guimarães por quatro diretores

Episódios são dirigidos por Aki Kaurismäki, Pedro Costa, Victor Erice e Manoel de Oliveira.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2013 | 19h44

Esse filme de nome banal – Centro Histórico – é uma pequena maravilha composta de quatro joias. Parte do evento que tornou a cidade portuguesa de Guimarães a capital cultura da Europa em 2012, Centro Histórico compõe-se de episódios dirigidos por Aki Kaurismäki, Pedro Costa, Victor Erice e Manoel de Oliveira.

Aki Kaurismäki é finlandês, mas mora há 20 anos em Portugal. Filma, com imenso senso de nostalgia (sentimento conhecido de perto pelos portugueses), uma velha tasca lusitana, estabelecimento possivelmente em via de desaparição. O dono, ou garçom do local, prepara laboriosamente um caldo verde enquanto espera por clientes raros. O fado acompanha essa delicada peça de câmera.

Em seu episódio, o português Pedro Costa convoca seu ator/personagem fetiche, Ventura, o cabo-verdiano sempre às voltas com suas lembranças. Ele “contracena”, em um elevador transformado em palco, com a soturna estátua de um soldado colonizador. São ecos da colônia e também da pobreza do antigo bairro das Fontainhas (demolido), onde moravam os imigrantes africanos em Lisboa.

A preciosidade maior fica por conta do espanhol Victor Erice (de O Espírito da Colmeia), com seu estudo sobre a classe trabalhadora portuguesa através da foto de refeitório de uma fábrica de tecidos fundada no século 19 e que fechou as portas em 2002. Antigos operários são ouvidos e confronta-se a sua fala atual com o que dizem, de forma muda, porém muito expressiva, aqueles rostos dos trabalhadores do passado congelados na fotografia. Comovente.

A parte final leva a assinatura do mestre Manoel de Oliveira. Com sabedoria centenária, ele comenta o fato de as pessoas terem perdido a capacidade de enxergar. Seu neto, Ricardo Trêpa, interpreta o guia que conduz um grupo de turistas pelas ruas de Guimarães até a estátua de Affonso Henriques, fundador da nação lusitana. Todos sacam de suas câmeras, mas não conseguem enxergar o que têm diante dos olhos. Vão ver depois, talvez, quando chegarem às suas casas. É a cegueira contemporânea, que o velho cineasta detecta. Cegueira causada pela banalização das imagens.

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