Centro Audiovisual sofre com falta de verba

No início dos anos 90, o cinema brasileiro foi virado de ponta-cabeça pelos desmandos do governo Collor. Logo após a posse, o presidente extinguiu a Embrafilme e o Concine, órgãos que regulavam a produção cinematográfica nacional. O resultado foram tempos de aridez no setor. Contudo, houve alguns oásis para onde correram cineastas, técnicos e outros profissionais do cinema. Um deles foi o Centro Técnico Audiovisual (CTAv) da Funarte, localizado na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, e ligado ao Departamento de Cinema e Vídeo (Decine) da instituição. Agora, ironicamente, a situação se inverteu. O CTAv está praticamente esquecido e sustenta-se à base do sacrifício.O Centro Técnico Audiovisual foi criado há cerca de 15 anos graças a um convênio da Funarte com o National Film Board de Montreal, no Canadá. Na época, a instituição enviou câmeras e outros equipamentos e abriu suas portas para técnicos brasileiros, que foram a Montreal fazer cursos. "O CTAv já foi um centro técnico de excelência", lembra o diretor-técnico Roberto Leite, que trabalha no Centro desde a sua fundação. "Dependemos de recursos do Governo, que ainda não liberou o orçamento deste ano, e da Secretaria do Audiovisual, que não repassou nossa verba."Esse relativo isolamento do CTAv é incompreensível se for levado em conta a atenção que o MinC vem dedicando ao cinema nacional nos últimos cinco anos. Uma explicação plausível para o descaso pode vir do fato de o Centro Audiovisual da Funarte não abrir espaço para produções consideradas comerciais. Segundo Leite, o objetivo da instituição é estimular a pesquisa e o aumento da qualidade técnica da produção cinematográfica, passando ao largo de fins lucrativos. "Estamos abertos para universitários, novos cineastas, enfim, pessoas que não estejam inseridas no cinema comercial", explica o diretor-técnico. "Longas-metragens de Luiz Carlos Barreto e Guilherme Fontes, por exemplo, jamais entrariam aqui."Mesmo passando por dificuldades financeiras e com carência de pessoal especializado ("não há concurso público para técnicos"), o CTAv continua tocando suas atividades e serviços básicos. Entre eles estão incluídos a cessão de equipamentos (câmeras de 16 e 35 milímetros e parque de iluminação) para a realização de co-produções com a Funarte, o apoio à realização de desenhos animados e efeitos de animação e a oferta de serviços de gravação, mixagem, transcrição magnético-ótica e edição de filmes de longa, média e curta-metragem.O Centro Técnico Audiovisual realiza ainda projetos de recuperação de filmes e indica tratamentos para restauração, presta assessoria para a construção de salas de exibição e estúdios, faz a manutenção de equipamentos, além de promover, em vários Estados, cursos e seminários sobre técnicas, tecnologia e a indústria cinematográfica em geral.Há poucos meses, o CTAv ganhou um novo estúdio de mixagem digital - alguns gravadores foram obtidos por meio de permutas com realizadores. Entre os filmes que passaram por lá nos últimos meses estão O Sonho de Rose (seqüência de Terra para Rose, de 1986), de Tetê Moraes, e De Janela pro Cinema, de Quiá Rodrigues. Este último venceu vários festivais nacionais na categoria animação e participou do Festival de Cannes na semana passada.Defasagem - Contudo, o novo estúdio digital é, hoje, uma exceção no meio de um amontoado de equipamentos obsoletos, espalhados pelas várias salas e departamentos do Centro da Funarte. A moviola italiana Prevost e a truca para filmagem em stop motion (técnica para filmes de animação), por exemplo, poderiam estar expostas no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. "Estamos defasados cerca de oito anos em relação à tecnologia usada na indústria americana, quando o mínimo aceitável seria cerca de seis meses", ressalta Leite.Para atualizar o "parque de equipamentos" do CTAv, diz Leite, é preciso adquirir câmeras novas, ávides (estações de edição) e aparelhos sonic solution, usados para edição e mixagem. "Nossa prioridade é modernizar o núcleo de animação, que é o ponto forte do CTAv", afirma o diretor-técnico, que trabalha no setor audiovisual há 32 anos.Uma das áreas mais nobres do Centro Técnico Audiovisual da Funarte é o acervo filmográfico, que conta com aproximadamente 2 mil títulos, entre longas, médias, curtas e documentários de 16 e 35 milímetros. Segundo Leite, todos estão em perfeito estado de conservação e acomodados num cofre climatizado criado especialmente para manter o acervo. Lá, estão raridades como O Homem de Areia, de Vladimir Carvalho, Imagens do Inconsciente, de Leon Hirzsman, Jorge Amado no Cinema, de Gláuber Rocha, além da obra completa de Humberto Mauro.Tudo isso sobreviveu ao tempo graças ao esforço e dedicação das cerca de 50 pessoas que trabalham no CTAv. Segundo Leite, esse número é insuficiente para o volume de serviços prestados pela instituição - que trabalha com aproximadamente 80 filmes por ano. "Muita gente migrou para emissoras de TV depois da crise e alguns abriram estúdios próprios", lamenta.Se a produção cinematográfica nacional passa por um momento de estabilização, muito se deve ao trabalho de preservação e difusão técnica realizado no CTAv. O mínimo que se espera dos órgãos resposáveis é o reconhecimento e manutenção desse trabalho.

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