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Cena final do primeiro 'Ninfomaníaca' é perfeita

'Volume 1' passa neste sábado, às 22h, e na terça-feira, 23, à 1h55, no Telecine Cult

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2014 | 13h58

Para o telespectador que vai ver Ninfomaníaca pela primeira vez na TV (paga), neste fim de semanas - na rede Telecine -, o Volume 1 do longa 'pornográfico' do dinamarquês Lars Von Trier talvez não pareça tão diferente de outros programas que a própria rede apresenta de madrugada. Na verdade, é, porque nesses canais o sexo é simulado e os homens fazem verdadeiros contorcionismos para não exibir a genitália. E, tecnicamente, é tudo fake, porque, apesar dos disfarces, dá para ver que não há ereção. No primeiro filme do díptico de Lars Von Trier, o primeiro movimento, quando Joe (Charlotte Gainsbourg) começa a contar sua história, é mostrar tudo.

O filme começa com a queda da protagonista e seu encontro com Seligman (Stellan Skarsgaard), que a acolhe em sua casa. Conversam, e ela conta sua história. De cara, a jovem Joe (Stacy Martin) participa de uma disputa com a amiga. No trem, elas competem para ver quem faz mais sexo com os passageiros. O sexo, nessa parte, é predominantemente oral, e Lars coloca a câmera frontal para captar o detalhe que outros filmes ocultam. O pênis ereto, o gozo, a felação. E, depois, a penetração. Lars adora uma provocação, e passado o choque, que alguns espectadores sentirão, é bom tentar refletir sobre o que ele está mostrando, e por quê. Em Anticristo e Melancolia, o autor que formatou o movimento Dogma - e terminou por se afastar dele - tem sido um analista crítico vigoroso do apocalipse do mundo moderno. A grande crise passa pelos sentimentos. O homem (pós)moderno perdeu a capacidade de amar. No Volume 2, Joe vai se submeter a brutais cenas de sadomasoquismo. É mais fácil, e dói menos, do que abrir seu coração, temas que Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman abordaram antes de Lars Von Trier, mas sem sexo explícito.

Apesar da aura de escândalo, Volume 1 tem algo de decepcionante, pelo menos de cara. Qualquer pornochanchada no fim de noite do Canal Brasil é mais forte. E aí vem a cena de Uma Thurman, como a mulher que invade com os filhos a casa de Joe/Stacy, para a qual se mudou seu marido. Aquilo já é um choque. E logo em seguida vem o Bach, culminando no grito angustiado de Stacy. Essa mulher que faz tudo não sente nada. É um dos grandes gritos de angústia captados por uma câmera de filmar. Ilustra a capacidade que o cinema tem de nos fazer compartilhar o desespero humano. Apesar de todas as diferenças entre ambos, há, no final de Volume 1, o pathos que falta na obra de outro exibicionista, o mais misantrópico Michael Haneke de Amor. O que é o cinema, qu'est-ce le cinéma? O cinéfilo, pegando ou não carona nas formulações teóricas de André Bazin, com certeza já se fez a pergunta. Pode-se reformulá-la. O que é a perfeição no cinema? É o Bach de Lars Von Trier, na tríplice cena de sexo que encerra Ninfomaníaca Volume 1.

Na edição nas bancas - julho/agosto -, a revista francesa Cahiers du Cinéma, que chega com atraso ao Brasil, parte ao encontro dos grandes diretores de fotografia. De la Lumière!, assim, com exclamação. Da Luz! Nenhum grande diretor de fotografia brasileiro, apenas uma referência a uma cena de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. Mas, entre outras entrevistas reveladoras, uma com Manuel Alberto Claro, o operador chileno que tem sido o fotógrafo de Lars Von Trier na sua fase recente (desde Melancolia). Como se ilumina o apocalipse? Para Volume 1, o diretor propôs a seu fotógrafo um experimento radical. Uma cena em preto e branco, outra com cor controlada, uma terceira em planos fixos e, sempre que a câmera se mexer, ela tem de passar a impressão de que não sabe aonde quer ir.

No travelling, o movimento de câmera, o diretor e o fotógrafo usam a mobilidade com uma função específica. Lars queria subverter isso. Os diálogos entre Joe e Seligman, filmados na casa dele, foram feitos em estúdio e são intencionalmente iluminados de forma artificial, numa vaga referência aos filmes televisivos de Ingmar Bergman. As cenas de Madame H, que compõem um drama de câmara, são totalmente bergmanianas, quase tudo filmado em primeiro plano. Manuel Aberto Claro queria usar o velho formato de TV, 4/3. Terminou trabalhando no 16/9. O espectador, mesmo o mais cinéfilo, pode-se nem dar conta, ou não saber. Mas há um experimento visual como outro dramático em Volume 1. Aquele sexo não é gratuito. É a construção que leva ao Bach. Volume 1 é poderoso. E daqui a pouco virá, na sua TV paga, Volume 2. Sexo explícito não é só pornô. Pode ser arte, com grandes diretores. O japonês Nagisa Oshima, de Império dos Sentidos, Lars Von Trier. Há 40 anos, a censura do regime militar via subversão - o risco de destruição da família - nos filmes de Stanley Kubrick (A Laranja Mecânica) e Bernardo Bertolucci (Último Tango em Paris). Passou. Nada como tempo, para mudar padrões e comportamentos.

Veja o trailer de Ninfomaníaca - Volume 1:

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