Cena de 'Pompeia' evoca no cinéfilo momento decisivo de Rossellini

Paul W.S. Anderson cria filme no vácuo do que Polanski abandonou

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de fevereiro de 2014 | 18h03

Começa  com a imagem de um casal abraçado, num beijo eterno, ambos petrificados pelas cinzas e pela lava que jorraram do vulcão Vesúvio, na erupção que, em 79 d.C., soterrou a cidade de Pompeia. A imagem. repetida no desfecho, é forte e evoca, no imaginário do cinéfilo, um momento decisivo de um dos filmes mais influentes de todos os tempos. Em Viagem à Itália, de 1954, Roberto Rossellini conta a história de um casal em crise cuja ruptura iminente sofre uma mudança de percurso quando, em Pompeia, ambos descobrem os corpos abraçados de outro casal que enfrentou unido a catástrofe do Vesúvio.

Não é a única referência assimilada pelo diretor Paul W.S. Anderson e seus roteiristas. A história do garoto que testemunha o assassinato dos pais e vive para a vingança foi contada em inúmeros westerns e também é a base de Conan, o Bárbaro, aventura épica (e mitológica) de John Milius. A ligação entre o gladiador celta – poderia ser um trácio – e o gigante negro que domina a arena remete à dupla Kirk Douglas/Woody Strode de Spartacus, de Stanley Kubrick.

Todas essas referências estão lá, visíveis para quem quiser ver, mas pode ser que o público de Pompeia, que estreou na sexta, não queira nada disso e esteja somente interessado no relato da catástrofe. É todo um mundo que vai terminar na cidade, naquele dia e, antes até da imagem do casal, Anderson abre seu filme com uma citação do historiador Plínio, o Jovem. Ele fala nos gritos dos homens, nos lamentos das crianças e no desespero das mulheres – é um relato muito parecido com os que fizeram, séculos depois, os sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima.

Há quatro anos, Roman Polanski estava confinado na Suíça quando seu filme O Escritor Fantasma concorreu em Berlim. Estavam o elenco (à frente Ewan McGregor), o produtor Robert Benmussa e o roteirista Robert Harris. No final, O Escritor Fantasma recebeu o Urso de Prata de direção, mas, na coletiva, Robert Harris falou quase tanto de um projeto abortado que o diretor tinha com ele. Polanski ia adaptar o romance histórico de Harris sobre a erupção do Vesúvio. Já tinha até o elenco – Orlando Bloom e Scarlet Johansson. Seria a produção mais cara do cinema europeu – US$ 130 milhões. Mas aí surgiram problemas legais de todos os tipos, inclusive complicações com o Actor’s e o Director’s Guild, devido a greves nos EUA. Polanski desistiu do projeto. Fez Carnage (médio) e Venus à la Fourrure (ótimo).

O livro era famoso pelo paralelismo que Harris traçava entre o Império Romano e o império de George W. Bush, instalado na Casa Branca. O protagonista da história é um engenheiro que supervisiona a construção de um aqueduto. De fundo, a corrupção de Roma e a erupção das forças da natureza. A versão de Anderson segue outra linha. O personagem é agora um gladiador obcecado por vingança que se envolve com a filha de seu amo. A corrupção de Roma está lá, representada pelo personagem de Kiefer Sutherland (leia acima). Kit Harrington, da série Game of Thrones, faz seu primeiro protagonista. O roteiro tem esse lado ‘colcha de retalhos’. O curioso é que a produção não chegou nem à metade dos US$ 130 milhões de Polanski. O Vesúvio explode em CGI, no computador. Como na maioria das aventuras futuristas, tudo, nessa volta ao passado, é digital.

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