"Celeste & Estrela", uma comédia de pouco riso

Durante o recém-encerrado Festival de Brasília um encontro entre crítica, público e realizadores debateu um hipotético preconceito contra o gênero comédia. Uma das maneiras de responder é que sim, a comédia raramente ganha prêmios em festivais ou obtém respeitabilidade da crítica. Outra é dizer que existe preconceito, mas por outro motivo: é que a comédia é um gênero tão respeitável que dela já se ocupava Aristófanes, na Grécia, e foi nela que melhor se acomodou o gênio de Chaplin. No entanto, a comédia é arte tão difícil que poucos dos que se dedicam a ela o fazem bem, justificando o chavão: é mais fácil fazer chorar do que fazer rir. Qualquer que seja a resposta, o fato é que raros realizadores se dedicam à comédia, a não ser ocasionalmente. Uma das exceções é a diretora carioca, radicada em Brasília, Betse de Paula, irmã de Marcos Palmeira, filha de Zelito Viana, sobrinha de Chico Anysio, talvez ainda hoje o cômico mais conhecido do Brasil. Betse mostra ao público paulistano, a partir de hoje, Celeste & Estrela, seu segundo longa dedicado à nobre finalidade de fazer as pessoas rirem. Seu primeiro longa, O Casamento de Louise, ia na mesma linha. A prova das dificuldades do gênero já começa pelo atraso na estréia. Celeste & Estrela foi apresentado na abertura do Festival de Brasília de 2002 e só agora consegue percorrer os 1.100 quilômetros que separam seu ponto de origem à platéia de São Paulo. A temática também explica em parte essas reticências do circuito exibidor. A Celeste do título (Dira Paes) é a jovem cineasta que luta para aprovar seu projeto para beneficiar-se das leis de incentivo. Estrela (Fábio Nassar) é o funcionário do Ministério da Cultura, responsável pelo veto a um projeto megalomaníaco da estreante, que deseja colocar 500 anos da história brasileira em hora e meia de celulóide. A linha central do filme é esta - as agruras de quem deseja fazer cinema no Brasil. Num país em que a atividade recorre cronicamente à ajuda estatal, essa dependência acaba por gerar ressentimentos. Raramente dá bom resultado transformar essa odisséia de cineastas no tema do próprio filme a ser financiado. No entanto, Celeste & Estrela não é o desastre anunciado. Com roteiro potencializado por bons diálogos escritos por José Roberto Torero tem lá seus bons momentos. Inteligência não falta à concepção do filme. Nem senso crítico. E nem mesmo talento à atriz Dira Paes, verdadeira musa do cinema de baixo orçamento, que toca bem o seu instrumento, do drama à comédia. Fábio Nassar, com seu ar meio ausente, não se dá mal. Falta, é verdade, um pouco de timing. Enfim, é comédia para risos moderados.Celeste & Estrela (Br/2002, 96 min.). Romance. Dir. Betse de Paula. 12 anos. CineSesc - 15h30, 17h30, 19h30, 21h30 (3.ª e 4.ª não haverá 21h30). Cotação: Regular

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